Coragem e delicadeza diante do fim

Texto:  Carla Andrea Ziemkiewicz

Falar sobre a morte ou o morrer é, para a grande maioria das pessoas, tão angustiante e assustador, que preferem viver tentando esconder a finitude da vida debaixo do tapete. Vivemos afastando ao máximo essa realidade, criamos hospitais para que funcionem como o tapete, escondendo de nós o que se passa da dor, do medo, da angústia de chegar ao fim.

Quando alguém que amamos se encontra neste doloroso processo da chamada doença terminal, ao invés de acolher, negamos a ele o direito de expressar aquilo que sente. Fugimos de qualquer conversa que ameace tomar esse caminho, sob falso otimismo declaramos que “ficará bom logo” e classificamos como morbidez ou depressão qualquer tentativa de falar sobre o que sente diante da proximidade da morte, sem sequer nos darmos conta de que na verdade ele fala de vida.

Cada vez mais a ciência descobre que o melhor que se pode fazer a uma pessoa em seus últimos momentos, é leva-la para casa, para estar próxima dos seus amores e amigos, no seu canto confortável e familiar. Permitir que se possa escutar a sua verdadeira voz, sem a onipotência de achar que temos que ter as respostas, a solução, a cura.

Constatar a humana impotência diante da morte abre o espaço necessário à intimidade que nos aproxima na dor. Muito mais confortador é dar continência , é segurar , é oferecer e partilhar colo num abraço amoroso que nenhuma anestesia ou morfina seria capaz de substituir.

Faça um pequeno exercício mental, coloque-se por alguns instantes nessa condição, no lugar do outro, empatize. E mesmo angustiado por essa idéia, tolere o mal estar. E pense como gostaria de viver seus últimos dias, mesmo limitado ao leito. Aonde estaria, que pessoas estariam ao seu lado. E sobretudo o que gostaria de poder falar, escutar ou mesmo silenciar em paz, sem aquele peso das coisas não ditas por medo.

Compreenda que não há nada de errado em chorar junto, em sentir-se triste. A vida nos pede coragem e isso nada tem a ver com endurecer. A coragem vem de entrar em contato com a verdade, seja ela qual for, e nos permitir todos os sentimentos e emoções que ela nos suscita. Só poderemos lidar com a dor da perda aceitando-a tal qual ela se apresenta. Ao tentarmos camuflar só conseguimos expandi-la, minando sorrateiramente nossas escassas energias. É um engano entregar unicamente ao tempo a tarefa da cicatrização. Ele só poderá cumprir seu papel se antes houver sido cuidadosamente tratada a ferida, ainda que inicialmente a dor pareça maior.

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