O escritor nos remete a novos lugares da alma

Texto:  Ítalo Meneghetti  (Revista Literatura)

 Num mundo cada vez mais veloz e fragmentado, com o encurtamento das distancias e o encolhimento do tempo, faz sentido ainda a fabulacao literária?

Todos sabemos que o ato da leitura literária é sempre uma viagem. Mais ainda: que escrever literatura é verdadeira ousadia e desafio. Que o digam os escritores de carreira. Afirmam os neurolinguistas que a escrita literária mobiliza toda a nossa capacidade neuronial, bem mais do que indecifráveis equações matemáticas ou mirabolantes jogadas de xadrez. O texto literário por escrever é a requisição cerebral em toda a sua complexidade, verdadeiro exercício de comunicação entre neurônios, algazarra de sinapses em nossa massa cinzenta.

Se a leitura do texto literário é sempre um acontecimento especial em nossas vidas e que pode ser, definitivamente, marcante e transformador, imaginem o que a escrita do texto literário deve ser na vida de alguém?

Verdadeiro impacto, a escrita do texto literário desloca a pessoa para dimensões impensáveis de si mesma. A remete a lugares da alma nunca antes sondados. 

A Literatura não é religião. E nem a tem. É bem mais: é o nada diante do tudo. Pois o escritor quando debruçado sobre a sua página em branco é o próprio enigma humano diante de si. Nenhuma resposta. Certeza alguma. Somente indagações e a doce esperança da linguagem no acalanto macio do papel ou no acolhimento luminoso da tela. Nada mais do que um caminho de ideias por percorrer. Rumos principais. Desvios vicinais. Atalhos. Trilhas. Picadas.

Escrever é uma aventura. Talvez a maior da jornada humana em sua travessia. É coisa para poucos, embora existam muitos escritores no mundo de agora. Por que tanta gente, mais e mais, quer ser escritor? O que atrai tanto nessa solidão de alguém trancado num lugar imitando com a linguagem as realidades da chamada realidade? Que estranheza é essa que a tantos seduz?

Qual o sentido de fazer e ler literatura no mundo de hoje? Cada livro é uma cápsula de sonho e possibilidade na qual o escritor cuidadosamente alojou a sua alma e o leitor a recebe no ritual de procurar as pistas para o enigma que toda história encerra e que todo escritor representa. Talvez, nessa passagem de escritor a leitor, resida a magia e encanto do livro de literatura. É possível que neste deslocamento encontremos uma articulação de sentido tanto para a feitura do literário quanto para sua leitura, ainda que num mundo de escassez da sensibilidade.

Apesar de solitário, um escritor jamais está sozinho. Tem em suas mãos a melhor ferramenta que o artifício humano criou: a linguagem. Com ela pode mover o mundo. Todas as gentes. Todos os lugares. Todos os tempos.

A linguagem literária nas mãos do escritor e nos olhos do leitor parece ser a saída para um mundo apressado que correu sem preparo e fôlego até o fim da rua e descobriu que não seria fácil sair dela. Pelo menos assim indicam as placas de sinalização e a muralha atravessando o caminho.

Portanto, se alguém lhe perguntar se ainda faz sentido a fabulação literária, não se apresse em responder. Parece não haver resposta. Dê um sorriso qualquer como desculpa e na primeira esquina da rua desapareça na linguagem, diante do perguntador. A literatura nos desmaterializa. Ele entenderá.

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