A morte da voz humana

Texto: João Marcello Bôscoli (Músico)

O auto-tunning é o Photoshop da voz. O cantor está desafinado? A voz não chegou lá? Auto-tunning nele. O software que corrige a afinação de cantores criou no campo da música a recompensa sem o devido esforço, algo que a maioria dos humanos busca incessantemente, levando à falência qualquer método de ensino. Dane-se o mérito. Às favas a vocação. É como se o Ronaldinho Gaúcho usasse uma chuteira que acertasse o gol por si. Treinar pra quê?

O talento perdeu um pouco de sua importância vital. O palco e a plateia se nivelaram por baixo, tornando o ordinário e o extraordinário equivalentes. E o pior: com sua precisão matemática irreal, com suas ordenadas e abscissas higienistas, o auto-tunning transforma as características da voz humana em defeitos.

E essa é a grande preocupação: o estabelecimento de um padrão inatingível para o ser humano – logo, desumano. Dessa forma, em nome da “perfeição”, nunca mais correremos o risco de estarmos certos. Foi o que o Photoshop fez com a pele humana. Gerou um padrão estético onde poros, rugas de expressão, pêlos e outras características foram alçadas à condição de defeitos. A capacidade desse padrão de gerar frustrações, tristeza, sofrimento e culpa é gigantesca. A quem interessa isso? A favor de quem é isso? 

Lembro que o conceito de perfeição é completamente humano. Na natureza a evolução é contínua; nada é perfeito. Além disso, evolução também pode ser para o bem ou mal – “evoluir a óbito” significa morrer, por exemplo.

Seguindo a lógica do auto-tunning, Nat King Cole, Aretha Franklin, Maria Callas, Elis Regina, Donnie Hathaway, Paulinho da Viola, Louis Armstrong e João Gilberto são desafinados. Simples assim.

Mais do que a falência da meritocracia, o software pune o talento. Aproveitando o ensejo: qual o problema de cantar desafinado? Tenho uma lista extensa de cantores que não afinam nem por decreto e, ainda assim, emocionam-me. E ouvimos música apenas por razões emocionais.

Hoje em dia tomamos remédio quando sentimos tristeza, comemos lixo pré-mastigado com gosto de comida quando sentimos fome, dopamos as crianças quando elas estão muito agitadas, usamos softwares de afinação quando temos um cantor desafinado, passamos horas em frente ao computador quando nossa vida parece desinteressante, fazemos milhares de amigos digitais quando sabemos que na realidade temos menos de dez amigos de verdade. Onde vamos parar? Queremos nos tornar humanoides robóticos sem talento? Queremos uma Idade Média Digital?

Outro dia li uma das maiores barbaridades de toda minha vida: “Com o programa de afinação computadorizado, o cantor pode se concentrar apenas na interpretação.” Bem, da minha parte respondo que se alguém quiser emocionar exclusivamente com sua interpretação sem pensar na afinação, deveria ser ator.

Se você encontrar Gisele Bündchen ao vivo, perceberá que ela tem poros, marcas de expressão e que sua beleza e movimento ainda estão lá. Se ouvir Stevie Wonder ao vivo, ouvirá “imperfeições” e igualmente sentirá que sua emoção, genialidade e carisma existem – sem o software de afinação. Por outro lado, é comum notarmos a decepção da plateia quando ouve ao vivo um cantor que gravou digitalmente dopado, com a voz corrigida pelo computador.

Sinceramente gosto muito do auto-tunning quando usado às claras, como efeito na voz, a serviço da música, assim como aprecio a utilização do Photoshop como ferramenta artística, ambos criando imagens e sons inéditos. Creio que em arte, ao contrário da medicina, por exemplo, a liberdade deve ser total. De preferência sem fraude. Uma coisa é usar a tecnologia como extensão do talento de determinado artista; outra é usá-la para esconder a falta de talento. Jamais iria a uma passeata contra a guitarra elétrica ou qualquer outro instrumento de manifestação artística.

Esse texto é, antes de tudo, uma defesa do ser humano, parte fundamental e determinante da natureza. Com mérito e liberdade, sem retoques.

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