Fora de ritmo

Texto:  Luara Calvi Anic (Revista TPM)

Não fala inglês e já tem 20 anos? Ainda na casa dos pais aos 25? Mais de 30 e ainda não sentiu o reloginho biológico bater? Nunca ouviu falar em home broker aos 35 anos? Vai fazer 40 e nunca foi convidada para dar uma palestra? Em que planeta você vive? Provavelmente, no dos fracassados. Pelo menos, é nisso que querem que você acredite

Embora você diga que não se importa muito com a opinião daquela sua tia, seria mentira dizer que não te incomoda ter que ouvir dela a pergunta de sempre: “Ainda no mesmo cargo, querida? Poxa, quando é que você vai conseguir comprar seu apartamento?”. Pode até substituir a pergunta: “Será que um dia eu vou ter o prazer de comprar um vestido luxuoso para o seu casamento?”. E tantas outras questões que, mais ou menos sutis, nos martelam diariamente.

Numa época de casamentos que não duram o tempo de as paredes descascarem e de profissões que não têm mais nada a ver com aquele diploma guardado na gaveta, a cobrança diante do não cumprimento de padrões ainda se instala sobre a cabeça das mulheres. Qualquer pessoa que não se encaixe nessas formas é, muitas vezes, vista como coitada. Esses padrões podem ser resumidos em uma listinha que, para o senso comum, representa o sucesso: ser bonita, inteligente, estar em evidência no trabalho (mesmo não sendo uma superprofissional), ter uma bolsa de grife valendo pelo menos três dígitos, um parceiro, uma vida sexual ativa, o corpo sempre em forma, filhos lindos, um guru, analista e dermatologista para chamar de seu – a ordem varia conforme a idade.

Diante desses clichês de comportamento, vale lembrar que o mundo está longe de ser um conto de fadas. No Brasil, segundo o IBGE, 188 mil casais se divorciaram em 2008; o número de trabalhadores informais, sem carteira assinada, é de cerca de 2,6 milhões; e só tem aumentado a quantidade de mulheres que optam por engravidar pela primeira vez dos 40 aos 44 anos. Mesmo assim, o que faz com que as pessoas ainda se sintam incomodadas e ansiosas por não se encaixarem em padrões?

Entre as décadas de 60 e 80, com o surgimento da pílula anticoncepcional e o milagre econômico brasileiro, a mulher entra para o mercado de trabalho e conquista sua liberdade financeira e pessoal. Porém, ao mesmo tempo em que é emancipada, valores antigos de comportamento ainda imperam. “As mulheres brasileiras, criadas sob uma mentalidade patriarcal, reflexo de um país católico com 500 anos de colonização, são muito machistas. Estão patinando diante de toda uma liberdade financeira. Possuem valores infantis e investem em ideais de beleza inalcançáveis”, acredita a historiadora Mary Del Priore, autora de Corpo a Corpo com a MulherHistória das Mulheres no Brasil. “A burca da brasileira é o problema do envelhecimento”, resume.

Diante dessa cobrança generalizada, cada vez mais mulheres sofrem para se encaixar em padrões que não se limitam à beleza. “As meninas muito jovens já vão ao cabeleireiro com as mães, usam maquiagem e unhas pintadas. Existe um interesse em pertencer ao mundo que está na televisão, na revista Caras. Você vai ao shopping e os cabelos são todos iguais, as roupas e os Botox são os mesmos”, reflete Tai Castilho, terapeuta familiar há mais de 20 anos e idealizadora do Instituto de Terapia Familiar de São Paulo.

É também parte dessa idealização do mundo de Caras o sonho com um casamento nos moldes das cerimônias das celebridades. “Em casa, até hoje, as meninas são bombardeadas pelas próprias mães com o sonho do casamento, de encontrar o homem perfeito”, acredita a historiadora Mary. Para a psicóloga Tai Castilho, que atende famílias toda semana em consultório, a “indústria de princesas” contribui para que esse sonho permaneça no subconsciente feminino. “Você vai até a banca de jornal, locadora e encontra livros, revistas, filmes de princesa. É difícil tirar essa ideia da cabeça da criança, pode se estender até a vida adulta. O dia do casamento é o dia da princesa, vira uma exigência social”, diz Tai Castilho.

A economista e consultora financeira de empresas como Nextel e Petrobras Glória Pereira atenta para a entrada da “geração Y” no mercado de trabalho. São jovens de 18 a 30 anos, com vivências internacionais e extremamente conectados ao mundo através da internet. Empreendedores, eles não veem o emprego como a única forma de ganhar dinheiro, tampouco pretendem passar o resto da vida numa mesma empresa. “Emprego é coisa de quem ganha salário mínimo e não tem formação. O apego à carteira assinada é uma forma antiga de pensar.” Segundo Glória, a geração Y veio para se desgarrar das amarras do século 20. “É preciso ter uma formação, mas isso não é mais o diferencial, é o básico. Mudar de profissão faz parte do desenvolvimento da pessoa no mundo”, defende.

A expectativa de vida do brasileiro não chegava a 50 anos em 1950. Este ano, espera-se que chegue a 45,4 mil o número de pessoas com mais de 100 anos no país, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Acreditar que 45 anos é a “fase da inércia” é fugir da festa meio século antes. A revista francesa L’Express, uma das mais importantes daquele país, recentemente fez uma matéria sobre a geração babyboom, que nasceu na década de 60 e hoje, aos 50 e poucos e com os filhos criados, vive o auge de suas vidas. “Nos passos de Demi Moore (47), George Clooney (49) e Madonna (51) […], os comerciais de rugas, óculos de sol, carros e viagens de navio escolheram bem o seu alvo. Esses idosos cheios de vitalidade têm gostos de jovens e um estilo moderno e divertido. E, melhor ainda, dinheiro.” Na matéria, o sociólogo francês Serge Guerin, especialista em questões ligadas ao comportamento dessa geração babyboom, lembra: “Em meio século, a expectativa de vida aumentou mais do que nos cinco milênios anteriores”.

Essa pequena amostragem de mulheres que ilustram esta reportagem prova que, por mais que a pressão social exista, a probabilidade de encontrar pessoas que preenchem a todos esses clichês é cada vez mais escassa. Isso porque não existe mais um modelo de mulher ideal. Ou melhor, de ser humano ideal. “A mulher não tem totalmente resolvida a dívida com os seus papéis tradicionais e clássicos de feminilidade, que estão contidos nos seus ancestrais. Ela sabe que conquistou tudo que conquistou ao custo de romper com essa tradição”, esclarece a psicanalista Diana Corso, coautora do livro Fadas no Divã e colunista do jornal Zero Hora. “Com esse rompimento, a mulher se divorciou do passado clássico da feminilidade. Hoje os homens trocam fralda enquanto as mulheres gerenciam os negócios.” O contrário também é válido – mulheres no tanque e homens na empresa –, desde que seja uma escolha, e não a tentativa de se moldar a uma forma.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: