Rir de si mesmo é ato civilizatório

Texto:  Eliane Brum

Não ser capaz de rir de si mesmo é ser capaz de muitas coisas. A maioria delas bem ruins. Quem se considera imune ao ridículo, se coloca acima de todos os outros. Acredita que tudo o que faz é tão sério, é tão certo, é tão importante que, ao estar tão abarrotado de razão, não sobra espaço nem para dúvidas nem para piadas. Todos nós somos patéticos em alguma medida – e esta consciência é parte do que nos torna humanos. Quem não consegue rir de si mesmo, quando tropeça no tapete – sim, porque todos nós enrolamos os pés uma ou muitas vezes em diferentes tapetes ao longo da vida – manda demitir algum suposto responsável pela queda que acredita não lhe pertencer. Ou matar, conforme o nível de tirania do lugar onde vive.

Quem não consegue rir de si mesmo acredita que suas crenças – sejam elas ideológicas, morais ou religiosas – são mais certas que as de todos os outros. E se são mais certas devem ser impostas sobre as de todos os outros. O raciocínio seguinte é que, se as suas crenças têm mais valor, logo ele, a pessoa ou grupo que detém estas crenças, é melhor que todos os outros. E se é melhor que todos os outros a sua vida vale mais do que a de todos os outros. Logo todas as outras vidas valem menos e são sacrificáveis.
Fazer humor com os políticos, com os governantes e com os poderosos é obrigatório. É imprescindível. Isso faz com que sejam lembrados que, como todos os mortais, eles também são ridículos. Iguala-os. Pinça-os das estratosferas da vaidade e da bajulação onde vivem e devolve-os ao rés do chão. Os humoristas, garantidos pela liberdade de expressão existente em qualquer democracia que mereça o nome, ajudam os políticos, governantes e poderosos a se manterem no seu real tamanho – nunca muito diferente daquele do mendigo da esquina. Ou do seu eleitor. E nos ajudam a lembrar que eles pertencem ao mesmo mundo que nós. Ao mesmo ridículo.
Não é pouca coisa o que nos tiraram nestas eleições ao blindar os candidatos contra o humor.

Criaram uma lei para nos impedir de humanizá-los com nosso riso. De lembrá-los, a eles e a nós, que somos todos patéticos em alguma medida. Esta, aliás, é uma grande qualidade do humor: ao diferenciar sua vítima, a iguala.

Amos Oz afirma que a melhor maneira de imunizar os povos contra o germe da intolerância seria distribuir “pílulas humorísticas” às populações do mundo, caso isso fosse possível. Como não é, acho que no nosso caso poderia valer a pena lembrar que vivemos numa democracia duramente conquistada e nos somar aos humoristas para reivindicar a devolução do nosso direito de rir dos candidatos.

E do direito de lembrá-los de que devem rir de si mesmos todos os dias. Assim, quem sabe, eles não transformem o país numa piada sem graça depois de eleitos.

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