Uma mulher à frente de seu tempo

Texto:  Lou Andreas Salomé

Intelectual sedutora que viveu na passagem do século XIX para o século XX. Sua vida cercou-se de grandes nomes da cultura ocidental. Despertou paixão em Nietzsche, no poeta Ranier Maria Rilke, foi amiga e colaboradora de Freud. Deixou uma consistente obra de romancista, ensaísta e autora de teatro. Lou era uma mulher muito à frente de seu tempo. Ela e seus notáveis amigos pensavam o mundo, julgavam a história exercendo a inteligencia e o conhecimento voluptuosamente. Segue alguns de seus escritos:

Hino à dor

Quem pois, dominado por ti, poderá te escapar,

Se sentiu teu grave olhar voltado para ele?

Eu não fugirei, se me apanhas

Jamais crerei que só fazes destruir!

Sei, tu deves visitar tudo o que vive sobre a terra,

Nada sobre a terra pode se subtrair ao teu domínio:

A vida sem ti – seria belo,

Entretanto- tu também, mereces ser vivida!

Claro, não és um espectro da noite

Vens lembrar tua força ao espírito:

É o combate que engrandece os maiores,

O combate como derradeiro alvo, por caminhos impraticáveis.

Por isso, se só podes me ofertar, ó dor,

Em lugar da felicidade e do prazer, a verdadeira grandeza,

Vem lutar comigo, num corpo-a-corpo,

Vem lutar comigo, na vida e na morte –

Mergulha no fundo do coração,

Mergulha no mais profundo da vida,

Leva para longe o sonho de felicidade e da ilusão

Leva para longe o que não merecia um infindo esforço.

Nunca triunfarás verdadeiramente sobre o homem autêntico

Mesmo que ele te oferecesse seu peito nu

Mesmo que se aniquilasse, desaparecesse na morte! –

És apenas um pedestal para a grandeza do espírito!

*****

Só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o passar do tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser entendido como uma força vital. Por isso nada é mais inepto em amor que se adaptar um ao outro, se polir um contra o outro, e todo esse sistema de intermináveis concessões mútuas, feitas unicamente para os seres constrangidos, por razões puramente práticas e impessoais, a suportar sua vida em comum, atenuando o mais racionalmente possível este constrangimento. E quanto mais dois seres chegaram ao extremo do refinamento, tanto mais funesto se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, se transformar um no parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em seu solo particular, a fim de se tornar um mundo para o outro.

*****

Ouse, ouse… ouse tudo! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda … a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!

*****

Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento, cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. (…) O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe.

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