Por uma vida menos banal

Texto:  Maria Rita Kehl

Sou psicanalista há mais de vinte anos, mas até hoje me espanta que as pessoas ainda procurem a psicanálise para tentar resolver seus conflitos, sair do sofrimento repetitivo, decifrar seus sintomas. Não que eu duvide da eficácia da psicanálise – pelo contrário.

O que me espanta é que tanta gente ainda escolha o percurso lento e sofrido de uma psicanálise nesses tempos de terapias breves, guias de auto-ajuda, medicações milagrosas.

A psicanálise é o avesso da pressa. Sua eficácia difere radicalmente da eficiência pragmática tão cara à nossa cultura neoliberal.

O psicanalista não aconselha, não promove o ego de ninguém, não alivia quase nada. Numa outra vertente ideológica, o psicanalista diverge também do guru complacente, a conduzir seus adeptos pelos caminhos da morada interior, onde supostamente viveria o ‘verdadeiro eu’ – essa ficção tão cara à modernidade. Por isso ela me parece desajustada à vida contemporânea, na qual se acredita que um ‘ego’ bem cultivado seja condição do sucesso e da inclusão social.

Afinal, a psicanálise também é o avesso do universo de imagens fulgurantes em que vivemos hoje, e com as quais tentamos nos identificar; ela é o império do significante, da palavra com seu fundo falso, sua parcela de vazio e de no sense. Por fim, o objeto da psicanálise é o desejo inconsciente, não o ‘ego’.

Não é confortável habitar o terreno do desejo inconsciente. Não é parecido com o palacete narcísico da ‘morada interior’ abrigo do (suposto) eu verdadeiro que alimenta as aspirações individualistas. No terreno escorregadio do desejo, o sujeito é um eterno sem-teto: vive acampado, nômade, mudando sua tenda de cá para lá de acordo com os ventos e as chuvas. É que o desejo inconsciente não é uma ‘coisa’ de que o analisando possa se apoderar e controlar, como um habitante incômodo da casa ao qual se reserva um quartinho nos fundos para que ele não perturbe o andamento geral das coisas. Nem é o que se chama hoje, vulgarmente, de desejo (sexual), ou seja: as fantasias (explícitas) de consumo e sexo que apelam para nós de fora para dentro, nos objetos e mensagens da indústria cultural. O efeito de uma psicanálise não é o controle racional do inconsciente, nem a ‘realização’ do desejo; não é liberar o sujeito da incômoda presença do desejo inconsciente, e sim propiciar que ele suporte desejar.

Neste sentido, a psicanálise me parece um tanto anacrônica.No aparente império do desejo em que vivemos, onde cada um se acredita no direito (‘você merece’!, dizem as mensagens publicitárias) de realizar imediatamente todas as fantasias, a maior parte das pessoas parece ter vergonha de desejar.

Por isso escrevi que o império do desejo é aparente: vivemos mesmo é no império do gozo – ‘tudo ao mesmo tempo agora’ em que o desejo, que se realiza no trabalho de simbolização e não na posse das coisas, não tem muito lugar. Repito o que escutei em uma conferência do filósofo esloveno Slavoj Zizek: uma das tarefas fundamentais do psicanalista, hoje, é autorizar o analisando a não gozar – e se manter desejante. Nesse sentido, o dispositivo analítico – que mudou muito pouco em um século de existência – deve operar em uma direção oposta à dos tempos de Freud. Hoje já não se trata tanto de permitir a expressão das fantasias inconscientesrecalcadas (cujo conteúdo era impensável para a moral vitoriana), e sim de levar o analisando a se perdoar por não conseguir realizar a profusão de fantasias que circulam nas mensagens e apelos da indústria cultural. Não se trata de proibí-lo de gozar e sim de autorizá-lo a não gozar. Pois o imperativo do gozo é tão severo e tão exigente quanto a proibição a toda forma de gozo. O super-eu, instância crítica e sádica que atormenta o eu com suas normas rígidas e suas ameaças de castigo, tanto obriga a gozar quanto proíbe o gozo. Do ponto de vista do supereu, o imperativo: ‘goza!’ é tão severo quanto a proibição: ‘não goza!’. Autorizar o sujeito a não gozar é muito diferente de proibir o gozo: é trabalhar para que ele possa se libertar da relação e servidão com o superego.

Na contracorrente do senso comum, muita gente continua procurando os consultórios dos psicanalistas atrás de um tipo de tratamento que, se não é o mais eficiente, a meu ver é o mais ético, já que ao sair de uma análise o sujeito deve ser capaz de se responsabilizar pela sua condição desejante. O que me espanta é que a sedução dos dispositivos de adaptação das pessoas à cultura do narcisismo e do consumo ainda encontre resistências entre os que procuram os consultórios dos psicanalistas. Não: a palavra ‘resistência’ lembra sacrifícios, barreiras morais, ascese, recusa do prazer. As pessoas não procuram a psicanálise para ‘resistir’ aos prazeres oferecidos pela sociedade do espetáculo e do consumo. Procuram análise porque não conseguem se adequar a eles. É claro que cada candidato a uma análise tem suas queixas e seus sintomas particulares.

Mas escuto com muita freqüência queixas do tipo: ‘eu não consigo me divertir tanto quanto eu deveria’. As pessoas, maduras ou jovens (acho que os jovens sofrem mais) vivem em dívida com o gozo. Alguém disse, uma vez: ‘é como se em algum lugar estivesse acontecendo uma festa espetacular, onde todos estivessem se divertindo além de todos os limites , só que eu não tenho o endereço’. O neurótico, hoje, não se sente um pecador, um impuro, como no início do século XX: sente-se otário. Barrado no baile.

A psicanálise é a cura dos otários? Talvez sim: só que o psicanalista não oferece o endereço da tal festa a ninguém. Ele nem sabe o endereço. No máximo, o analista sabe que o cara que se imagina otário não está perdendo festa nenhuma; a festa do gozo permanente não é proibida, nem é restrita aos mais espertos. Ela é simplesmente impossível de se realizar. Mas isso, o analisando vai descobrir por ele mesmo – se quiser deixar de ser otário.

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