O dia seguinte é hoje

Texto:  Eliane Brum

Tive a sorte de andar muito pelo país em mais de 20 anos de reportagem. Conheço vários Brasis. E sempre me pareceu que o povo brasileiro, apesar das muitas e profundas diferenças regionais, é unido por algo de muito seu: uma tristeza que ri de si mesma. Nessa alegria triste há na fundura dos olhos que sorriem uma melancolia que vem de muitas dores, das cicatrizes de uma vida arrancada com dificuldade dia após dia, seja nos confins do sertão nordestino, na floresta amazônica ou na periferia de São Paulo. E o que me surpreende, sempre, é que a intensidade desta alma se manifeste como alegria, ainda que triste. Que as pessoas tentem sorrir, ainda que chova salgado nos olhos que sorriem.

…Seja Dilma Rousseff ou José Serra quem governará o Brasil, o que hoje é significativo passará a ser pouco a partir de janeiro de 2011. Nos últimos oito anos o governo Lula melhorou as condições concretas da vida da população, especialmente as dos mais pobres. Para isso, foi fundamental o controle da inflação iniciado lá atrás, com Itamar Franco, e a estabilidade econômica assegurada por Fernando Henrique Cardoso. Mas só seremos o país que sonhamos se o presidente ou a presidente eleita no próximo dia 31, aliados aos governos estaduais que acabaram de ser eleitos ou ainda serão, tiver o mesmo empenho para melhorar radicalmente a qualidade da educação no Brasil. E, assim, ampliar a definição, também do ponto de vista das políticas públicas, do que é viver com condições de viver.

Fazer as três refeições do dia, ter máquina de lavar roupa e até crédito para comprar uma TV de tela plana ou um computador é muito importante. Só quem nunca teve nada disso pode dar a dimensão do que significa. Mas, a partir deste novo patamar, passa a ser pouco. Pouco não só do ponto de vista do que se espera do novo governo, mas pouco para o que esperamos de nós mesmos.

Espero que neste segundo turno, ao contrário do embate de palavras vazias e promessas de ocasião que assistimos no primeiro, Dilma Rousseff e José Serra discutam com a seriedade que se espera de um candidato a presidente o projeto de cada um para o país. Para mim, como cidadã brasileira, o mais importante é a educação. Se quisermos continuar tendo chance, só podemos educar ou educar. Quero saber, concretamente, como cada um dos candidatos pretende dar qualidade ao péssimo ensino público deste país – já.

Se a educação não for de fato uma prioridade dos governos e dos cidadãos, nossos sonhos serão apenas sonhos, porque não teremos sequer mão de obra qualificada para garantir nossa inserção na economia mundial. E se a educação não esteve antes ou não estiver agora no centro do debate eleitoral que começa hoje é porque nós também não ligamos para ela tanto quanto deveríamos – o que apenas demonstraria a indigência da nossa formação e a pobreza de nossas expectativas. Será que precisamos de um Betinho, o homem que nos apontou a fome como uma indecência que nos envergonhava a todos, para acordar para o fato de que esta tragédia causa danos maiores e mais permanentes do que qualquer terremoto?

…Aposto a maior parte da minha esperança nesta população que nos últimos anos pôde comprar carne, geladeira e máquina de lavar. Que ela agora pressinta que a verdadeira emancipação só se dá pela educação e pela cultura, que são estes os caminhos que levam à ampliação da experiência humana. Que descubra que tem direito a mais do que escolas ruins e professores mal pagos. Que tenha menos resignação e mais alegria. É a qualidade do desejo de seus cidadãos que determina a grandeza de um país. Por isso, é fundamental que nosso desejo se alargue.

…Tudo o que seremos vai depender da qualidade que conseguirmos dar ao ensino público nos próximos anos. A educação é também determinante para baixar a criminalidade e melhorar a saúde preventiva. Não temos nenhum tempo a perder, pelo contrário. Por isso, vamos exigir de Dilma Rousseff e de José Serra que digam claramente o que vão fazer – e quanto do PIB vão investir – para que a educação seja de fato prioridade. Precisamos saber o quanto compreendem que a educação depende de professores bem pagos, bem formados e constantemente avaliados. E vamos valorizar o nosso voto.

Talvez interesse menos saber, neste momento específico, se os brasileiros são alegres – e mais saber se vão se resignar ou continuar desejando mais. Não apenas acesso a bens de consumo, mas à riqueza imaterial que ninguém nos tira e que nos faz sonhar com uma vida que valha a pena num país verdadeiramente grande. Construído com a qualidade do nosso desejo, a consistência do nosso sonho e o valor do nosso voto.

A medida do Brasil será determinada cada vez mais por uma outra fome: a de livros.

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