Como se conquista a felicidade?

Texto:  Eliane Brum

Depende de como olhamos para o mundo, para o outro e para nós mesmos.E você? Como olha para a sua vida? E para a do outro?

Sempre fico curiosa com a quantidade de livros, palestras e dvds sobre a fórmula da felicidade. E como isso vende. O próprio título dessa coluna é um chamariz para todos nós, que nos deixamos seduzir pelo apelo publicitário da felicidade, por uma pretensa receita de felicidade como mais um artigo a ser comprado e consumido. É óbvio: não há nenhuma fórmula.  Cada um precisa encontrar o seu modo de olhar para a tragédia grega que é a nossa aventura no mundo. É esse modo de olhar que nos dá a singularidade de nossa experiência, nos torna únicos ao nosso próprio modo.

O que me parece, apenas, é que quanto mais nos fixamos em certezas de certezas, mais longe estamos das possibilidades de descoberta e, talvez, de bocados de felicidade. As receitas de felicidade não fazem nada além de obedecer ao mercado, são mais um objeto de consumo que precisamos comprar para manter as engrenagens funcionando. Somos bombardeados minuto a minuto com receitas embaladas na fórmula: dinheiro + beleza e juventude + poder = sucesso. E sucesso = felicidade. E um pouco mais: precisamos ter sucesso e ser felizes de uma determinada maneira que nos vendem como a única possível. E, sem pensar, vamos comprando devagarinho, com uma pequena rebelião aqui, outra acolá. A alma não se vende de uma vez só, como em alguns clássicos, ela nos é roubada pelos flancos, aos poucos.

Pare por alguns minutos, agora. Se estiver trabalhando, se esconda, nem que seja no banheiro. Vasculhe suas memórias. Quando foi que você realmente foi feliz?  Cada um tem a sua resposta. Eu descobri, neste exercício, que meus momentos de felicidade foram um sentimento profundo de amor por um homem, o gosto desse homem, uma série de feijoadas, o sabor de um vinho, muitos livros e filmes, um banho quente, uma atmosfera na casa de meus pais, compartilhando silêncios, as várias vezes em que percebo a beleza inabarcável da minha filha, as longas conversas com meus amigos mais queridos, uma paisagem passando pela janela do trem, do ônibus, do carro, todas as vezes em que meu irmão tenta me explicar os mistérios do universo com os olhos brilhando mais que as estrelas (acho que nunca aprendo também para que ele possa repetir a explicação), o cheiro do frio da manhã desse último sábado, o sol da manhã desse último sábado. São tantos. E nenhum deles exigiu a aplicação da fórmula com que nos bombardeiam todos os dias, aquela pela qual nos deixamos escravizar.

E você? Qual foi seu último momento de felicidade?

 

 

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: