O tempo vence todas as nossas trapaças

 

Texto:  Ruth de Aquino

Benjamin Button é um filme implacável de David Fincher. Não percebi que haviam se passado quase três horas quando as luzes se acenderam. As lágrimas escorriam como se tivessem vida própria. Recebe 13 indicações ao Oscar. É uma fábula que nos transporta para nossos labirintos e encruzilhadas. Para os amores, as perdas, a beleza, o vigor, a decadência e a memória. O protagonista é o tempo. Vence todas as trapaças.

O curioso caso de Benjamin Button conta a história de um bebê que nasce velho e encarquilhado, com artrite e catarata. Parece um monstrinho. A mãe morre no parto. O pai o abandona na escada de um asilo de idosos. O bebê, branco, com aparência de mais de 80 anos, é adotado pela dona do asilo, uma jovem negra que não consegue engravidar. Contra todos os prognósticos médicos, Benjamin (Brad Pitt) sobrevive, cresce, rejuvenesce e vive a vida ao contrário. Para quem almeja parecer cada vez mais jovem – e essa é uma síndrome dos nossos tempos – , a vida de Benjamin Button pode dar a impressão de ser fascinante. Mas ele acaba de fraldas, novamente bebê e dependente, com a memória zerada dos recém-nascidos, como se nada tivesse vivido. Benjamin acaba rosado, mas, no íntimo, igual a tantos idosos, que esquecem o passado, não pensam mais no futuro e quase perderam a noção do presente.

Dito assim, parece um filme assustador. Não é. Li resenhas que diziam que O curioso caso de Benjamin Button retrata a impossibilidade da paixão eterna. Tive a impressão oposta. A maior beleza do roteiro, e talvez sua maior fantasia, é exatamente acreditar na paixão eterna. A que desafia desencontros e expectativas, transcende diferenças de idade, burla todos os códigos e ignora ressentimentos ou abandonos. O amor verdadeiro existe para sempre, não necessariamente sob o mesmo teto e de acordo com as convenções, é o que nos ensina o casal Benjamin e Daisy, Brad Pitt e Cate Blanchett. Ele numa atuação impecável. O rosto carcomido da primeira metade do filme é de Brad Pitt, mas o corpo não. Ela, ruiva de olhos azuis, mais bela que jamais. A língua inglesa tem um adjetivo muito apropriado para Cate nesse filme: “mesmerizing”. Uma bailarina que fascina e hipnotiza, pelos movimentos e traços perfeitos.

Na verdade, é inútil contar a história, ou onde e quando ela se passa. Tampouco importa. O roteiro é universal, o tempo é psicológico e embaralha nossas convicções com humor e crueldade. Cada um de nós reagirá de um jeito. Dependerá da idade, da experiência e do que se espera da aventura da vida. Os muito jovens na plateia não pareciam comovidos – estavam ansiosos para ver logo o momento do Brad jovem, lindo e sexy, transando loucamente. Deve existir uma idade mínima para apreciar esse filme em suas nuances, e ela não é 18 anos. Na juventude, o tempo é sempre infinito e somos imortais.

O roteiro do filme, de Eric Roth, é uma adaptação livre do conto homônimo do americano Francis Scott Fitzgerald, publicado em 1922. Fitzgerald morreu em 1940, alcoólatra, aos 44 anos. Sua mulher, Zelda, estava internada por esquizofrenia num sanatório. O conto foi escrito quando Fitzgerald tinha só 25 anos – e uma percepção aguda dos dramas da velhice. A ideia aparentemente nasceu de uma citação do romancista Mark Twain (1835-1910): “A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente chegar aos 18”. Twain também dizia: “Sou velho e já passei por muitas dificuldades, mas a maioria delas nunca existiu”.

Algumas frases do filme martelam a alma. “Somos predestinados a perder as pessoas que amamos. De que outra maneira saberíamos como são importantes para nós?” “Nunca se sabe o que nos espera.” “Nossas vidas são definidas pelas oportunidades, mesmo aquelas que perdemos.” “Espero que você leve uma vida da qual se orgulhe. Ou que tenha força para começar tudo de novo.” Tudo é passageiro e do fim não se escapa. O filme nos lembra a tela Lixeiro filósofo, de Roberto Magalhães. Nela, um papel recolhido na rua diz: “Tudo que começa acaba”.

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