O movimento anti-homem

Texto: Ivan Martins

Ontem eu comecei a ler a biografia de Barack Obama, escrita pelo jornalista David Remnick. Chama-se A Ponte, e foi publicada pela Companhia das Letras. Ali se aprende que o pai do presidente dos Estados Unidos era um economista queniano que caberia direitinho no perfil de homem-bicho-papão. Um sedutor ególatra e falastrão, ele enganou três mulheres, casou com as três, fez filhos com todas e não cuidou de ninguém além dele mesmo.

Como ele, há milhões de homens soltos pelo mundo, vários deles na nossa vizinhança geográfica e existencial.

Então eu penso no Obama filho, que parece ser um pai amoroso, um marido dedicado e um cidadão preocupado em transformar o mundo em que vive. Ele é da minha geração, que mudou muito em relação à geração dos nossos pais. Os homens mais jovens, de 20 e 30 anos, estão literalmente reinventando as relações de família – são presentes, participativos, envolvidos de modo prático e afetivo com a casa e os filhos. São os homens novos.

É injusto tratar esse macho solidário como se ele fosse o mesmo predador social das gerações anteriores. Injusto e incorreto.

Tenho a impressão de que por trás desse discurso antimasculino existe (além da incompreensão da mudança) o ressentimento e o medo provocado por um fato da vida: os homens vivem há mais tempo e de forma muito mais profunda a sua própria liberdade. Têm há séculos o poder de escolher o que fazer com a própria existência, de forma radical. Isso está impregnado na cultura masculina.

Ao contrário das mulheres, que têm vivido cercadas por amarras sociais e biológicas, os homens sempre puderam ficar no casamento ou sair andando. Cuidar dos filhos ou virar as costas. Dedicar-se à família ou encher a cara. Arar o campo ou esmolar na rua. Homens puderam ser Buda, Stalin ou Paulo Leminski. Ou ninguém.

Essa liberdade faz dos homens seres humanos menos previsíveis e muitas vezes menos responsáveis do que as mulheres. Assustadores, às vezes.

Quem era o pai do bebê que a garota de Belém jogou no quintal do vizinho na noite de Natal? Ninguém pergunta. Para todos os efeitos, o bebê era apenas dela. A maternidade é um fato biológico, enquanto a paternidade (até mesmo isso) pode ser apenas uma escolha social.

Algum filósofo já disse que o valor moral das virtudes obrigatórias é baixo. O que vale são escolhas feitas em liberdade e relativo destemor. Os homens têm vivido com isso há muito tempo. Agora as mulheres estão chegando à mesma situação.

Suspeito que a compreensão mútua vai melhorar. Os homens parecem estar abraçando de forma voluntária as responsabilidades históricas das mulheres, enquanto as mulheres exploram com menos temor a liberdade que agora pertence a elas.

Já não me parece o caso de insuflar um movimento antimasculino. Precisamos de um movimento por seres humanos solidários e responsáveis. De qualquer sexo. De todos os sexos.

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