Aquele casamento ruim…

Texto:  Ivan Martins (Revista Época)

Um dos meus escritores favoritos, o americano Philip Roth, escreveu uma frase que me persegue desde que a li. Nela, o personagem de um de seus romances constata que fez “aquele casamento ruim que muita gente faz aos 20 anos” – com graves consequências para o resto da sua vida.

Antecipo que esta é uma daquelas ocasiões em que muitas leitoras e leitores irão reclamar das minhas generalizações e alegar, com alguma razão, que seu próprio exemplo sugere o contrário. Ainda assim, tenho de dizer que concordo inteiramente com o teor pessimista do comentário de Roth e, mais do que isso, tendo a me identificar com ele.

Casamentos precoces são a última e devastadora doença da infância.

O sujeito passou incólume pela catapora e pela cachumba, está deixando para trás as dores de adolescência, mas então resolve, sem qualquer fundamento, que já é homem – ou mulher o bastante – para começar uma nova família, e mergulha de cabeça no desconhecido, acompanhado de um estranho ou de uma estranha.

O que uma pessoa sabe sobre si mesmo antes dos 24 ou 25 anos? Pouco. Ao redor dos 20, cada um de nós ainda caminha no vale das sombras da infância, assustado e esperançoso com o que vem pela frente. É um momento difícil para escolher parceiros de longo prazo porque nós mesmos estamos em mudança e ebulição. Corpo e mente pedem experimentação, não repouso. O casamento nessa idade pode ser uma fuga de algo que nem sabemos o que é.

Por razões que não vem ao caso discutir, eu periodicamente sou forçado a pensar na qualidade das escolhas que alguém pode fazer aos 20, 21, 22 anos de idade. Nesse momento sabemos quase nada sobre a pessoa com quem decidimos viver “o resto da vida”. Elegemos parceiros ou parceiras como base em vivências pífias. Essa inexperiência, somada às inseguranças juvenis, faz com que nos liguemos a qualquer tipo de pessoa. Pode ser alguém bom ou especial. Mas pode, do mesmo jeito, ser gente de má índole, ruim. Ou simplesmente oca e egoísta.

Quem viveu tão pouco ainda não consegue distinguir comportamentos que, mais tarde, irão saltar aos olhos como fúteis, abjetos ou patológicos. É por isso que as relações nesse período deveriam ser transitórias. A gente vive, erra, aprende e avança. Mas o casamento precoce interrompe esse processo – e pode nos deixar estacionado por vários anos, em péssima companhia.

E a única certeza sobre a aparência e o caráter das pessoas é que nenhum deles melhora com o tempo.

Estou soando lúgubre? Desculpem. Também eu conheço dezenas de casamentos bonitos que começaram aos 20. Alguns deles, na verdade, iniciaram no colégio e continuam até hoje. Produziram filhos, patrimônio e lealdades profundas. São relações bem-sucedidas, ainda que tenham deixado de ser intensas na acepção romântica e erótica da palavra.

Quando você casa aos 20 pode ter uma relação como essa aí de cima. Ou pode ter a da vizinha com cara de adolescente que insulta o marido aos berros e é tratada por ele com a mesma candura. Ao som dos gritos do bebê. Vocês já notaram que não há casamento disfuncional sem uma criança? Às vezes eu tenho a impressão que a pressa em fazer filhos é diretamente proporcional ao fracasso que vem pela frente.

Claro, não há garantia de que ao adiar o casamento você vá evitar desastres, mas as chances de que eles ocorram são menores. Os casamentos depois dos 30 às vezes são efêmeros, mas raramente são trágicos. As pessoas se conhecem melhor e conhecem melhor os outros. Isso ajuda a selecionar com mais acerto.

Naturalmente, eu falo de uma perspectiva masculina. Embaixo do meu umbigo não há um relógio biológico fazendo tic-tac. O urologista nunca me disse que a melhor idade para ser pai é entre os 16 e os 21 anos, como os ginecologistas dizem para as mulheres. Sei que há na vida feminina uma urgência que a masculina não tem, mas isso tem de ser relativizado pelo bem das próprias mulheres. Gente louca para casar e ter filhos se junta a qualquer bacaba. Com péssimas consequências.

Se ainda não ficou claro a importância de escolher sem pressa, vai um último argumento: você não quer chegar aos 30, aos 40 ou aos 50 ligado pela existência dos filhos a uma pessoa a quem despreza. Esse é o tipo de sentimento que suja e entristece a existência. Pelo menos é o que dizem os romancistas.

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