O imbecil de si mesmo

Texto: Ivan Martins

Domingo fui visitar um casal de amigos que está com um filho pequeno, o segundo deles. Chovia, fazia frio e a família – acrescida dos pais dela e de uma amiga, também com filho – estava reunida naquela gostosa bagunça de fim de semana com crianças.

Passei um tempo com eles, matei saudade de todos e fui embora com a sensação reconfortante de ter deixado para trás uma etapa importante da minha vida: a da criação de filhos pequenos.

Olho para os amigos que têm crianças, e para aqueles que as terão em breve, com enorme ternura e uma pontinha de inveja – mas, ao mesmo tempo, com o alívio de perceber que a minha vida, agora que meus filhos cresceram, voltou a me pertencer.

A expressão parece forte, mas é verdadeira – quem tem crianças não é inteiramente dono de si mesmo.

Crianças e adolescentes exigem tempo, atenção, dedicação, recursos. Quando se está criando filhos, o comportamento e os planos do casal (ou do pai e da mãe, se estes forem separados) são limitados pelo ritmo e pelas necessidades dos pequenos.

As festas, as viagens, os gastos, os namoros – tudo, ou quase tudo, acaba vindo depois, condicionado às prioridades infantis. Quem já passou por isso sabe que é inevitável. Filhos mudam radicalmente a vida das pessoas.

A boa notícia é que o período de quarentena não dura para sempre. Embora esse negócio de ser pai (e mãe) nunca acabe de verdade, os anos de relativa reclusão e sacrifício uma hora terminam.

Crianças crescem e adolescentes se tornam jovens que vão cuidar da própria vida – deixando pais saudosos e, ao mesmo tempo, livres e preparados para repensar radicalmente a própria vida.

É sobre isso que eu queria falar: sobre o que a gente faz depois (ou em lugar) de ter feito uma família.

Outro dia, uma ex-namorada sugeriu que eu, por já ter filhos homens, deveria me preparar para ser avô. De repente soou como se a vida só oferecesse a possibilidade de crescer em uma única direção, sempre na moldura da família. Primeiro você é filho, depois você é pai e logo em seguida você assume a posição de avô e isso mais ou menos determina a sua existência. Certo?

Eu acho que não. A família é uma das dimensões importantes da vida. Nela a gente reproduz os nossos genes e os nossos valores. Mas existem outras dimensões existenciais – públicas e privadas – que não têm lugar no interior da família.

A dimensão íntima, por exemplo. Explorá-la e compreendê-la é uma tarefa pessoal a qual pouco de nós nos dedicamos com a devida atenção.

Na adolescência e na juventude a gente não se compreende direito. Logo depois, como adultos, estamos muito ocupados para pensar nisso. Mais tarde nos aposentamos, nos tornamos avós e logo já não há tempo para mais nada. Inês é morta. Qual é a hora de debruçar sobre si mesmo e entender o que nos puxa e que nos empurra, aquilo que nos faz o que somos?

Tendo vivido algumas décadas, percebi que uma das coisas que mais me incomoda é o imbecil de si mesmo – aquele sujeito que fala de si sem se perceber, aquele que é transparentemente equivocado a respeito de si mesmo, aquele que atravessa a vida interpretando um papel sem entendê-lo, cheio de certezas (ou imerso em dúvidas) que nunca teve a coragem ou a sabedoria de esclarecer.

Eu não quero isso para mim. Decidi que uma das minhas missões no planeta é entender a mim mesmo e melhorar o que puder ser melhorado – até para evitar fazer mal aos outros.

Como se consegue isso? Para mim, através da psicanálise, da leitura, da arte, do convívio, da troca, da exploração dos sentimentos e dos sentidos. Do amor, em suas várias formas, mas não só. Entender a si mesmo exige viver papéis sociais e refletir sobre eles.

Se você salta do papel de filho para o de pai e de avô sem nunca refletir sobre tudo isso, é improvável que aprenda alguma coisa. Se você trabalha 10 ou 12 horas por dia durante 20 anos sem se questionar sobre o que faz e por que faz é – novamente – improvável que descubra alguma coisa sobre seus motivos. Se você está casado há 10 anos, levemente infeliz e resignado, e não tenta entender o que o mantém ali, é provável que não aprenda nada, apesar da duração da experiência.

No domingo, ao visitar os amigos com crianças, ficou claro que a criação dos filhos é, para mim, uma dimensão encerrada. A vida familiar, neste formato, foi concluída. A aventura agora é outra. Talvez seja hora de saltar de pára-quedas ou mergulhar com tubarões a 30 metros de profundidade, como fez um amigo na Polinésia. Ou de sentar diante dos livros e do teclado do computador e refletir sobre a vida e o seu significado. No dia em que eu vier a ser avô, quero ter mais a dizer sobre a vida do que aquilo que se pode aprender enquanto se constrói uma família.

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