Ser jovem

Texto: Artur da Távola

Ser jovem.
Quem não gosta de permanecer jovem?

Ser jovem
é amar a vida, cantar a vida, abraçar a vida,
perdoando até as pedradas que a vida nos joga no rosto.

Ser jovem
é ter altos e baixos, entusiasmos e desalentos.
É vibrar com os momentos bons e
passar por cima do que nos machuca,
com um sorriso fácil apagando os percalços.

Ser jovem
é apiedar-se dos mais fracos,
não ter vergonha de fazer um sinal da cruz em público,
cantarolar uma canção em pleno ônibus.
E apreciar uma piada gostosa.

Ser jovem
é escrever diário, às vezes.
Copiar poesias de amor e remetê-las ao namorado,
à namorada, com assinatura própria.

Ser jovem
é compadecer-se de quem sofre,
com aquela vontade imensa de fazer o milagre da cura,
de restituir a saúde àqueles que a gente estima e ama.

Ser jovem
é beber um lindo pôr-do-sol,
ar livre e noites estreladas.
Não se intrometer na vida alheia,
fazer silêncios impossíveis,
ficar ao lado das crianças,
gostar de leitura,
Ter ódio de guerra e de ser manipulado.

Ser jovem
é ter olhos molhados de esperança e
adormecer com problemas,
na certeza de que a solução madrugará no dia seguinte.

Ser jovem
é amar a simplicidade,
o vento,
o perfume das flores,
o canto dos pássaros.
Ter alegria ao dramático, ao solene.
E duvidar das palavras.

Ser jovem
é vibrar um gol do time,
jogar na loteria esportiva,
emocionar-se com filmes de ternura e
simpatizar secretamente com alguém que a gente viu só de passagem.

Ser jovem
é planejar praias no fim do ano,
sonhar com um giro pela Europa
e uma esticada pela Disneylândia… algum dia.

Ser jovem
é sentir-se um pouco embaraçado diante de estranhos,
não perder o hábito de encabular,
tremer diante de um exame e detestar gente gritona e resmunguenta.

Ser jovem
é continuar gostando de deitar na grama,
caminhar na chuva,
iniciar cursos de inglês e violão, sem jamais terminá-los.

Ser jovem
é não dar bola ao que dizem e pensam da gente.
Mas irritar-se, quando distorcem nossas melhores intenções.

Ser jovem é
aquele desejo de fazer parar o relógio, quando o encontro é feliz,
quando a companhia é agradável e a ventura toma conta do nosso ser.

Ser jovem
é caminhar firme no chão, à luz dalguma estrela distante.

Ser jovem
é avançar de encontro à morte,sem medo da sepultura e do que vem depois.

Ser jovem
é permanecer descobrindo, amando, servindo,
sem nunca fazer distinção de pessoas.

Ser jovem
é olhar a vida de frente, bem nos olhos,
saudando cada novo dia, como presente de Deus.

Ser jovem
é realimentar o entusiasmo, o sorriso, a esperança, a alegria, a cada amanhecer…

Ser jovem
é acreditar um pouco na imortalidade, em vida.
É querer a festa, o jogo, a brincadeira, a lua, o impossível.

Ser jovem
é ser bêbado de infinitos que terminam logo ali.
É só pensar na morte, de vez em quando.
É não saber nada e poder tudo.

Ser jovem
é gostar de dormir e crer na mudança.
É meter o dedo no bolo e lamber o glacê.
É cantar fora do tom, mastigando depressa, mas engolir devagar a fala do avô.

Ser jovem
é embrulhar as fossas no celofane do não faz mal.
É crer no que não vale a pena, mas ai da vida se não fosse assim.

Ser jovem
é misturar tudo isso com a idade que se tenha,
trinta, quarenta, cinqüenta, sessenta, setenta ou dezenove.

É sempre abrir a porta com emoção.
É abraçar esquinas,
mundos, luzes, flores, livros, discos, cachorros e a menininha,
com um profundo, aberto e incomensurável abraço feito de festa,
dentes brancos e tímidos, todos prontos para os desencontros da vida.
Com uma profunda e permanente vontade de ser.

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