Quem sabe o que procura compreende o que encontra

Texto:  Elisa Lucinda

O vento forte lá fora e meu homem dorme ao meu lado. Há nele um monte de certezas que se aninham enquanto ele ronca terno como quem respira com alarde. As certezas dele são as minhas, por isso ficam tão bem comigo. Não me estranham. E as dúvidas podem existir sem opressão até que se cumpram. Sabíamos, cada um na sua estrada, que o caminho era outro, diverso daquele que nos apontavam.
Fincamos na placa oposta o nosso certo, porque éramos, cada um no seu respectivo quintal, dois visionários olhando o mundo e buscando nele nossa semelhança.
Colombos a milhas do sonho, a milhas do certo destino, caímos em desatino pelo chão de terra que dava num asfalto e virava megalópole com luzes mercuriais ao fundo. Anúncios luminosos atravessaram o céu de nosso sonho e sei que desde pequeninos guardávamos cada um a nossa gorda esperança no corpo magro.
Meu homem dorme ao meu lado hoje como dormiu antes dentro da minha goiaba preferida, dentro da fruta da minha vida, ele hoje me namora como fazia dentro de minha amora. Sem demora, lateja firme ao me possuir e é outra vez o velho caroço do abacateiro, consistente eixo de sua polpa. Meu homem me inquieta formigueiro e me fascina tanajureiro me incitando eu formiga trabalhadeira a voar.
Meu homem já morava lá, escondido, liso dentro do cabelo da minha boneca chamada Bonita, e dentro do tronco das árvores que era a imagem na qual eu me lambuzava quando meu pai dizia a palavra caráter. Sempre associei essa nobre palavra a um tronco de árvore genipapal, abacateiral, goiabeiral.
Alguma coisa nova move o olhar dele e suas sombrancelhas. Alguma coisa que me faz reconhecê-lo no meu desejo desde antes da minha avó vir do Egito pra me incluir na história. Pra me fazer Brasil.
Alguma coisa move suas mãos, familiar e sutil no modo, de modo que eu me encaixo no meu homem miúda, a ponto de me esticar no mesmo manequim de menina e mulher sem alterar o centímetro deste sentimento.
Houve um Deus que acreditei, houve um Deus que me desiludiu, houve um Deus que neguei, houve um Deus que achei, houve ainda outro que criei, houve outros que por fim me encontraram. Em todas essas dinastias de Deuses, sempre houve esse homem que hoje dorme amado ao meu lado. Sei pouco das coisas. Há mais coisas que entendo do que coisas que sei; mas viver é só o doce trabalho de reconhece-las. Hoje, respaldada pela fartura de Deuses que não condenam minhas besteiras, posso ser em paz. Posso inclusive compreende-las.
Um caminhão de certezas ressona hoje ao meu lado. Vive comigo todos os bocados no infinito infinitivo de cada dia. Não adia, não escamoteia, não teme, não foge. Tem medos comigo e venho com ele construindo as coragens.
Meu homem não é o ponto final do destino. Meu homem é o amor à passagem, por isso a viagem.
Há muito tempo, cada um vindo de seu escalar, olhamos o mundo do mesmo lugar. Meu homem é de mim, sua mulher, e somos os dois de cada um. A soma dos dois dá mais. É o clamor, o ardor, o sabor, a aragem. Por isso esse gozo. Essa paisagem.

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