A dor das mulheres

Texto:  Ivan Martins (Revista Época)

Faz alguns anos eu passei uns dias no Irã, a trabalho. Era uma época de mais liberdade política do que existe agora e tive boas experiências. Falei com todo tipo de gente, bati perna em vários bairros de Teerã e fui obrigado a jejuar no Ramadã, por falta de quem me vendesse comida. A parte ruim da visita aconteceu na universidade. Eu quase fui preso ao fotografar garotas de xador e rapazes de rabo de cavalo namorando, como fazem os jovens em toda parte do mundo. Quem me arrancou das mãos de dois brutamontes barbados foram os estudantes, a quem pedi ajuda aos gritos, em inglês, quando começaram a me arrastar sabe-se lá para aonde, ignorando a minha credencial de jornalista fornecida pelo governo deles. Nada como o medo para fixar uma cena na memória em seus mínimos detalhes…

Na noite de sexta-feira, no escurinho do cinema, eu fui lembrado de Teerã pelo filme Cópia Fiel, do diretor iraniano Abbas Kiarostami. A história do filme se passa na Itália e sua principal atriz é a francesa Juliette Binoche – mas o Irã está lá, presente como sombra.

O enredo essencial do filme é uma longa conversa entre um homem e uma mulher que passeiam pelas ruas de uma cidade na Toscana. Lembra muito os dois clássicos do cinema romântico recente, Antes do amanhecer e Antes do pôr-do-sol, mas o resultado é incomparavelmente mais intenso e enigmático. Minha namorada quase dormiu no início da projeção de Cópia Fiel e uma colega aqui da redação de ÉPOCA me disse que efetivamente dormiu no final. Decidam se é o caso de assistir. Eis aqui um bom trailer, infelizmente em inglês. : http://www.imdb.com/video/imdb/vi3646593561/

Eu não vou contar o filme a vocês, (algo que sempre me irrita nas resenhas…), mas pegar dele o que me interessa para discutir a visão de Kiarostami sobre o universo feminino ocidental e moderno, aquele que nos cerca.

A personagem de Juliette Binoche é um oceano de dor e ressentimento, ao mesmo tempo em que parece cheia de esperança. Traz na bolsa o batom e os brincos e, num dos momentos mais bonitos do filme, tenta com eles seduzir seu homem. “Eu me fiz bonita para você”, diz a ele, inutilmente. Sua personagem sem nome (em outra evidência da sua importância como símbolo das outras mulheres) sente-se sozinha diante da vida. Ela sofre com a ausência de um companheiro com quem dividir a criação do filho, a garrafa de vinho e as memórias. É beligerante, frágil, comovente. Tem todo conforto material e a liberdade que pode usar, vive em um dos lugares mais lindos do mundo, mas sofre. A certa altura do filme, senta-se na escada de um edifício, descalça os sapatos de salto e descansa a cabeça sobre o ombro do marido/oponente. E pela primeira vez encontra uma espécie de paz. Apoiada.

Essa situação não é estranhamente familiar?

A mim parece que o cineasta iraniano de 70 anos, em seu primeiro filme de ficção feito fora do seu país, está nos dizendo que as nossas mulheres não estão felizes. Ao contrário. Livres da opressão religiosa representada pela burca e das restrições impostas pelas sociedades tradicionais, elas exibem a mesma raiva, o mesmo cansaço e a mesma solidão do filme, assim como a esperança feroz de encontrar e recomeçar.

Kiarostami aproveita a sua posição de estrangeiro e faz aquilo que os estrangeiros fazem melhor – olhar para o nosso modo de vida, identificar nossas peculiaridades e fazer sobre elas considerações que nos iluminam. Ele é amigo de Juliette Binoche e diz que a história do filme foi criada a partir do conhecimento que ele tinha dela e da sua vida. Como todo grande artista, ele se excedeu e transcendeu. Ao homenagear sua amiga, fez um filme sobre a dor das mulheres.

Não é fácil dizer essas coisas sem parecer conservador ou paternalista, mas a dor feminina está por aí, visível. Ela se expressa primeiro na forma de dúvida e, depois, mais tarde na vida, como uma espécie de fatalismo.

A dúvida é sobre o momento e a conveniência de assumir os papéis tradicionais de esposa e mãe. Quantas mulheres de trinta vocês não conhecem que estão aflitas, profundamente aflitas, com a aproximação desse limite invisível? O fato de sermos modernos não impede que a vida das mulheres ainda seja marcada por urgências antigas e poderosas, como a do casamento e da reprodução.

O fatalismo aparece mais tarde, quando os desejos tradicionais foram consumados – ou não – e a vida revela-se mais áspera e vazia do que deveria. Há escolhas e alternativas, mas muitas delas embutem uma grande porção de solidão, que os estudos demográficos mostram ser mais pesada e mais presente entre as mulheres. Como a personagem sem nome do filme de Kiarostami, há milhões de mulheres em sofrimento, mesmo cercadas de relativa abundância. Estão emocionalmente desamparadas.

Claro, essa não é uma situação apenas feminina. A dor da modernidade é humana e universal. Viver fora dos papéis convencionais é um desafio permanente para todos os envolvidos. O sofrimento é dividido democraticamente, mas não de forma igualitária. A mim parece que a mulheres ficam com a parte maior dele. É por isso que no filme de Kiarostami o homem parece reticente, quase blasé, enquanto a personagem sem nome de Juliette é visceral e patética. Eles lidam com cargas existenciais diferentes – e talvez a dela seja maior.

No Irã, lembro da minha surpresa com o número de mulheres que eu encontrei trabalhando. Nos bancos, nos escritórios do governo, nas redações dos jornais. Elas estavam em toda parte, ainda que de cabeça coberta. Conversavam comigo com altivez, olhando nos olhos, e cumprimentavam sem dar as mãos. Não eram as criaturas acuadas e domésticas que eu imaginara lendo sobre o país. Tampouco me pareceram felizes. Havia uma gravidade excessiva em torno delas. Uma reserva melancólica forçada pelas circunstâncias sociais. Nossas mulheres estão livres desse jugo. Sorriem, vestem-se da forma como desejam, têm o poder de se entregar se assim desejarem. Isso tudo é inquestionavelmente bom. Mas talvez não seja o suficiente, como sugere o belo e hermético filme de Kiarostami.

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