Ser real quer dizer não estar dentro de mim

Texto: Alberto Caeiro (Heterônimo de Fernando Pessoa)

Seja o que for que esteja no centro do Mundo,
Deu-me o
mundo exterior por exemplo de Realidade,
E quando digo “isto é real”, mesmo
de um sentimento,
Vejo-o sem querer em um espaço qualquer exterior,

Vejo-o com uma visão qualquer fora e alheio a mim.

Ser real quer
dizer não estar dentro de mim.
Da minha pessoa de dentro não tenho noção de
realidade.
Sei que o mundo existe, mas não sei se existo.
Estou mais
certo da existência da minha casa branca
Do que da existência interior do
dono da casa branca.
Creio mais no meu corpo do que na minha alma,

Porque o meu corpo apresenta-se no meio da realidade.
Podendo ser visto
por outros,
Podendo tocar em outros,
Podendo sentar-se e estar de pé,

Mas a minha alma só pode ser definida por termos de fora.
Existe para
mim — nos momentos em que julgo que efetivamente

existe —

Por um empréstimo da
realidade exterior do Mundo

Se a alma é mais real
Que o mundo
exterior como tu, filósofos, dizes,
Para que é que o mundo exterior me foi
dado como tipo da realidade”

Se é mais certo eu sentir
Do que
existir a cousa que sinto —
Para que sinto
E para que surge essa cousa
independentemente de mim
Sem precisar de mim para existir,
E eu sempre
ligado a mim-próprio, sempre pessoal e intransmissível?
Para que me movo com
os outros
Em um mundo em que nos entendemos e onde coincidimos
Se por
acaso esse mundo é o erro e eu é que estou certo?
Se o Mundo é um erro, é um
erro de toda a gente.
E cada um de nós é o erro de cada um de nós apenas.

Cousa por cousa, o Mundo é mais certo.

Mas por que me interrogo,
senão porque estou doente?
Nos dias certos; nos dias exteriores da minha
vida,
Nos meus dias de perfeita lucidez natural,
Sinto sem sentir que
sinto,
Vejo sem saber que vejo,
E nunca o Universo é tão real como
então,
Nunca o Universo está (não é perto ou longe de mim.
Mas) tão
sublimemente não-meu.

Quando digo “é evidente”, quero acaso dizer “só eu
é que o vejo”?
Quando digo “é verdade”, quero acaso dizer “é minha opinião”?

Quando digo “ali está”, quero acaso dizer “não está ali”?
E se isto é
assim na vida, por que será diferente na filosofia?
Vivemos antes de
filosofar, existimos antes de o sabermos,
E o primeiro fato merece ao menos
a precedência e o culto.

Sim, antes de sermos interior somos exterior.

Por isso somos exterior essencialmente.

Dizes, filósofo doente,
filósofo enfim, que isto é materialismo.
Mas isto como pode ser materialismo, se materialismo é uma ilosofia,
Se uma filosofia seria, pelo
menos sendo minha, uma filosofia minha,
E isto nem sequer é meu, nem sequer
sou eu?

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