Déficit de atenção é sintoma social

Texto: Taeco Toma Carignato (Terra Magazine)

Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é a síndrome do momento. Há décadas o foco estava na síndrome do pânico. A depressão também já foi declarada como a “doença do século”. Outros males se substituem de tempos em tempos. Ou se superpõem em siglas. É o que acontece com TDAH. Poderíamos acrescentar a essas letras o I de impulsividade, o E de esquecimento, outro I de imprevisibilidade e assim por diante. São vários aspectos de desenvolvimento motor e psíquico agrupados sob o mesmo chapéu, geralmente colocado em crianças e adolescentes.

Não que o TDAH não exista. Existe sim, mas não dessa forma padronizada e generalizada. Se uma criança (ou adolescente) se mostra muito agitada e estabanada, não se concentra nas brincadeiras (ou nos estudos), distrai-se facilmente diante de estímulos externos ou internos e interrompe constantemente as atividades ou conversas dos outros, podemos pensar em problemas. Mas não somente em problemas da criança ou do adolescente, mas também dos adultos e do ambiente que os envolvem. Quando falamos de adultos e de ambiente, pensamos em pais, professores, família, escola, sociedade e cultura.

A questão que logo se apresenta é: a quem cabe a responsabilidade de criar e educar uma criança?

Aparentemente as respostas são imediatas. Os pais atribuem a si as tarefas de criar e educar seus filhos. Mas não se encontram disponíveis para isso. Ao pai, a quem outrora cumpria a tarefa de prover o lar dos meios de sobrevivência e dos limites simbólicos que permitissem à criança discernir os lugares que cada um ocupa na estrutura familiar, foi destituído dessa função. A ele estão sendo atribuídas outras tarefas domésticas – partilhar da cozinha, limpeza, cuidados de filhos – sem que as estruturas sociais e culturais tenham sido modificadas. Ou seja, ao pai exige-se que também seja, em parte, “mãe-de-família” ao mesmo tempo em que deve mostrar-se profissional agressivo e cheio de iniciativas masculinas.

À mãe, muitas vezes encabeçando a estrutura familiar, são exigidos atitudes e comportamentos semelhantes aos dos seus companheiros masculinos de trabalho. Ela própria, para não se sentir rebaixada em seus cargos brilhantemente conquistados, exige mais ainda de si mesma no desempenho profissional. O movimento feminista veio para quebrar, mas não conseguiu romper as estruturas da organização do trabalho cada vez mais competitiva. A mulher conquistou o seu espaço no trabalho, mas o homem endureceu mais ainda em suas posições masculinas. Ambos, exaustos, não dão conta de suas posições. Os conflitos explodem no ambiente doméstico.

O problema se agrava ao nível da produção industrial e de serviços repetitivos. O pai tem de se submeter ao excesso de trabalho pois não pode dizer não ao chefe, ao patrão. A mãe, inserida em trabalhos extenuantes, anseia pela restituição do pai à posição de provedor, idealizando sua antiga função de mãe-de-família. Ambos fracassam. A masculinidade e a feminilidade confundidas com os papéis sociais e as posições no trabalho viraram no avesso. Em seus fracassos, pais e mães não conseguem ver as próprias representações nos sintomas e colapsos dos filhos. Daí a busca de curas rápidas.

O TDAH é então a própria representação da falência das imagos paternas e maternas. Mais do que isso, é a representação da falência de organizações sociais como família e escolas que estão à mercê das exigências do mercado competitivo. Pais e mães, levados pela culpa de não participar do desenvolvimento dos filhos, procuram recompensá-los com o excesso de consumo e liberdade. Não conseguem dizer não. Aliás, nem sempre estão presentes para estabelecer os limites. A tarefa é atribuída aos técnicos – médicos, psicólogos, fonoaudiólogos – e aos educadores “profissionais”, os professores. As crianças estão sendo encaminhadas mais precocemente às escolas, não mais para brincar e serem socializadas como acontecia nos antigos jardins-de-infância, mas para serem alfabetizadas e inseridas em modelos padronizados de aprendizagem.

Não somente o pai e a mãe foram destituídos das funções educativas. Também o tio, a tia, o avô, a avó e outros agregados familiares não participam mais do desenvolvimento motor, mental e da linguagem da criança. Quem melhor que os familiares para entender as necessidades das crianças? Mas, ninguém escuta ninguém. Estão presos na TV, na internet, nos jogos eletrônicos. Capturados pelas imagens, ninguém mais pensa. Destinam às escolas as tarefas de pensar e educar. Mas as escolas, excessivamente burocratizadas, também não pensam. Também tentam capturar o aluno e inseri-los nos seus padrões de aprendizagem por meio de imagens informatizadas.

Se a criança ou o adolescente não adere a esses modelos de aprendizagem torna-se problema. A questão, no entanto, pode estar mais na defasagem entre a escola e o cotidiano do aluno. Os filhos da classe média são estimulados precocemente pelos variados brinquedos, jogos computadorizados e meios eletrônicos de comunicação. Passando períodos inteiros diante da TV, na internet ou em atividades automatizadas, a criança e o adolescente não vão prestar atenção em aborrecidas salas de aula onde se exige concentração e raciocínio. Pensar cansa. Os alunos das classes baixas, do seu lado, também não aceitam a passividade das salas de aula das escolas públicas, já que as ruas e as rodas com seus pares são mais estimulantes.

Então surge a síndrome da rebeldia. Essa síndrome pode se manifestar de várias formas, tanto pela agressividade e violência (nas escolas públicas), pela passividade pelo TDAH, se a criança é tolhida na expressão social do seu mal-estar. Então, os professores e educadores que não dão conta dos conflitos recomendam as terapias, medicamentosas e outras. Não que as terapias sejam dispensáveis. Pode ser, sim, que haja disfunções neurológicas. Porém, o foco do problema não está aí. É o descompasso entre escola e aluno, entre pais e filhos que pode trazer maiores danos psíquicos. É a sociedade tecnológica, altamente excludente, que marginaliza os “não aptos”. Portanto, o TDAH não é apenas um problema da criança ou do adolescente. O TDAH é um sintoma social.

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