O preço da auto estima

Texto:  Francine Lima  (Revista Época)

Tenho a impressão de que a vida inteira eu estive em busca não exatamente da felicidade, mas da autoestima. Talvez as duas coisas coincidam em muitos momentos. Ficamos felizes quando nos sentimos capazes de realizar coisas, quando recebemos elogios, quando conquistamos reconhecimento pelo que somos e fazemos. E, principalmente, quando somos queridos. Precisamos que gostem de nós.

Desde a primeira infância, aprendemos a nos basear no quanto agradamos nossos pais para construir uma imagem positiva de nós mesmos. Se eles sorriram, é porque gostaram. Se gostaram, é porque sou bom, sou agradável, sou atraente. Essa conclusão nos apraz, e buscamos repeti-la. E então crescemos buscando essa autoafirmação em tudo que fazemos, com todos com quem nos relacionamos. Ser bom, ser atraente, ser desejado e cobiçado, seja no sentido sexual, social ou profissional, é extremamente importante para todos nós. E, muitas vezes, extremamente caro. Para muitos de nós, a autoestima é difícil demais de conquistar.

Uns acreditam que ela venha do poder sobre os demais. E em muitos casos vem mesmo. Desde os tempos de escola, a disputa pelo poder e pela sensação de vitória no grupo gera brincadeiras de mau gosto e até alguns episódios trágicos de bullying. Quem ataca quer se sentir mais dono do pedaço que os atacados. Quem é atacado sonha um dia ser reconhecido como uma pessoa legal, que não merece aquele tratamento. Quem não consegue reconhecimento pode querer se vingar.

Cada um começa se orgulhando do que as pessoas a sua volta (em primeiro lugar, a família e, pouco depois, os coleguinhas) valorizam. Primeiro a gente quer ser um bebê fofo. Depois, uma criança esperta. Mais tarde, um adolescente descolado. Em seguida, um jovem precoce e abonado, que tem carro, roupas caras e o direito de ir e vir em lugares da moda – além de fazer sexo selvagem e inesquecível. Anos depois, um profissional bem pago e conhecido. Lá pelos 30 anos, um chefe de família equilibrado. Aos 50, um coroa enxuto que ainda desperta desejo em jovens com a metade da idade. O roteiro está traçado. Quem consegue se encaixar nele com perfeição?

Eu não me encaixei. Acho que fui um bebê fofo em muitos momentos (provavelmente não em todos) e dei a meus pais vários indícios de ser uma criança esperta, embora fosse bastante estabanada e perdesse a compostura diante das chatices da minha irmã. Adolescente, fui CDF demais para me verem como descolada, e não lidava bem com o tipo de diversão que a maioria dos meus colegas parecia preferir. Fora do ambiente escolar, procurei me destacar com duas atividades em que eu acreditava ser boa: a escrita e a malhação. Acho que escolhi dois bons caminhos, nos quais progredi e aprendi muito. Mas nem sempre me achei boa o bastante.

Agora, à beira dos 35, depois de publicar centenas de textos e de construir e reconstruir inúmeras vezes fibras musculares, começo a entender um pouquinho melhor de onde vem a autoestima. No último ano, precisei redescobri-la. Por mais que, aos olhos dos outros, eu parecesse bem posicionada na profissão, em forma, com um ótimo relacionamento estável, de bem com a família e os amigos, em vários momentos me senti profundamente frustrada, descrente e desmotivada. Ao investigar internamente o porquê, descobri que só me sinto poderosa quando consigo realizar o que mais quero. É a conclusão mais óbvia a que eu poderia chegar. Mas dizem que as coisas óbvias são mesmo as que levamos mais tempo para entender.

O que eu mais quero não é necessariamente aquilo que está escrito no roteiro que traçaram por mim. O que eu mais quero tem a ver com aquilo em que mais acredito, o que mais fará diferença em minha existência, o que me faz crer que eu nasci para realizar. E dificilmente somos capazes de saber o que nascemos para realizar antes de viver um bocado.

Hoje, o exercício físico não me basta se me der apenas resultados estéticos. Ficar bonita é para os outros. Mas ficar forte, rápida, flexível e resistente é para mim. Mover-me com menos limites amplia o alcance das minhas ações. O que me motiva agora é buscar meus limites, enfrentar o cansaço, realizar mais do que realizava antes e sentir que dentro de mim há um potencial gigantesco. O que eu mais quero com meu corpo é prazer. O prazer do movimento.

Na profissão, meus anseios finalmente cresceram ao tamanho da minha fúria. Não realizei ainda tudo que quero, mas já sei sonhar de um jeito mais concreto. Eu acredito piamente na importância das coisas que quero fazer, e é isso que me faz acreditar que vai dar certo. Eu só quero muito o que é importante para mim.

Ontem tive uma experiência que me clareou essa ideia. Fui fazer meus exercícios no horário de sempre, mas estava mais cansada que o usual. Não pensei em desistir, pois ali o propósito da turma é sempre fazer o melhor que a gente pode, e parar antes de começar está fora de cogitação. Mas, logo depois do aquecimento, o cansaço começou a tomar conta. Insisti. Era preciso ir até o fim. Afinal, era para isso que eu estava ali.

Quando chegou o momento do esforço máximo, eu senti que aquilo já era demais para mim. Eu não queria fazer mais força nenhuma. Queria parar com tudo aquilo, descansar e voltar para casa – e eu ainda teria de fazer alguma força para pedalar a bicicleta até lá. O professor percebia minha lentidão e fazia seu papel de treinador. “Vai, Francine. Bate a barra no chão e já sobe de novo.” Sim, eu tinha de continuar, tinha de dar meu melhor até o fim. Prestei atenção na minha respiração. Estava bem, não era fôlego que me faltava. Era pique mesmo. Vontade. Energia. Eu sentia que já tinha dado tudo de mim, mas não me permiti parar. E então lágrimas começaram a aparecer.

Quando terminei o treino, sentei no chão, abracei os joelhos e chorei. Não era uma derrota. Eu tinha obrigado meu corpo a cumprir com sua missão até o último agachamento. Sem me dar conta, eu tinha acelerado nos últimos segundos da contagem regressiva para realizar minha tarefa completa. Eu tinha me saído bastante bem, dadas as circunstâncias. Mas estava emocionalmente fragilizada. Por quê?

O que eu mais queria naquele momento era outra coisa: descansar. Aquele era meu limite. Nem tanto o limite do meu corpo, que se mostrou capaz de fazer muito, mas o limite do meu sonho. Eu nunca quis ser uma atleta profissional. Não me atrai o grau de exigência a que os atletas se submetem. Eu não preciso me exaurir tanto para me sentir bem comigo mesma. Na véspera, já tinha me esforçado bastante para entregar a matéria da semana num prazo exíguo. Já tinha sido, na minha forma de ver, incrível no trabalho, e não precisava ser mais incrível no exercício. O esforço além do desejado foi como uma forma de abuso, uma exploração. Que eu mesma me impus.

O choro de ontem me trouxe mais uma lição sobre a autoestima ao me mostrar que não é fazendo o máximo que eu puder que vou me sentir a dona do pedaço, mas sim fazendo o melhor que eu quiser. Desconfio que alcançar um sucesso não desejado é provavelmente tão ruim quanto não alcançar nenhum.

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