A falta de políticas de saúde mental

Texto:  Bruno de Pierro  ( Revista Carta Capital )

Para a psicanalista Maria Rita Kehl, o momento favorece uma discussão sobre a situação da saúde mental no país.

Entrevista ao Brasilianas.org

Brasilianas.org A senhora acredita que o assassinato em série foi um fato isolado, uma aberração isolada, ou há implicações sociais, de patologia social nisso, a ponto de se dizer que foi resultado da má assistência à saúde mental por parte do Estado?

Sim, ao que tudo indica a tragédia foi causada pela doença mental, não detectada nem tratada, de Wellington. A princípio, o tratamento das psicoses é uma questão de saúde pública, sim. A psicose não tem cura, mas tem tratamento, que pode ser muito eficaz e estabilizar o sujeito pela vida toda. Mas o Estado não tem como fazer um recenseamento dos psicóticos que não estão sendo tratados. É preciso que a pessoa, ou a família, ao menos procure um serviço da rede de Saúde Mental – só aí começa a responsabilidade do Estado.

Não sei se Wellington fez isso. Claro que vale discutir a qualidade desse atendimento nos Ambulatórios, o baixo orçamento dos CAPS (Centros de Atendimento Psicossocial), o baixo salário dos profissionais e o pequeno número deles para uma agenda carregadíssima etc. – mas isto não tem uma relação tão direta com a tragédia de Realengo. É um problema crônico do Brasil. A Prefeitura do Rio teve dinheiro para fazer o estádio do Pan, a Cidade da Música, mas certamente falta dinheiro para os serviços de saúde, e mais ainda para a saúde mental.

Por outro lado, tudo o que tenho lido a respeito do desencadeamento do surto que levou Wellington a matar doze crianças, nos obriga a admitir que a origem de algumas tragédias seja imprevisível. É terrível pensar assim. Queremos, com razão, saber as causas da violência para prevenir seus efeitos. No entanto, não sei como a passagem ao ato de Wellington poderia ter sido evitada, a não ser que ele tivesse buscado acompanhamento médico e psicológico – que ele não procurou.

Quais os efeitos que a representação dessa tragédia, pela mídia, podem surtir na percepção social de problemas como a depressão e algumas psicoses? Qual sua avaliação da construção da tragédia, em torno de um fato que carece de explicações?

Embora a imprensa em geral tenha sido cuidadosa no tocante ao desencadeamento de preconceitos contra os psicóticos, temo que este seja um dos possíveis efeitos, nefastos, da justa indignação causada pela tragédia de Realengo. Tenho ouvido mais gente se pronunciar contra a reforma psiquiátrica, ou perguntar se os psicóticos são pessoas perigosas que deveriam estar trancafiadas etc. Se já é difícil para o psicótico que se medica e faz terapia encontrar aceitação na sociedade, as coisas podem piorar se eles começarem a ser encarados como matadores em potencial.

Duas coisas devem ser ditas aí. Primeiro: não é comum que atos de violência extrema sejam praticados por psicóticos. Os psicopatas, criminosos sistemáticos e sem sentimento de culpa, são diferentes dos psicóticos, e muitos deles são pessoas aparentemente normais, cujo comportamento não chama a atenção de ninguém. Pense por exemplo no chamado “maníaco do parque”, que matou e enterrou várias adolescentes, em São Paulo, no final da década de 1990. O caráter sistemático, planejado, frio, de seus crimes, não se parece com o delírio de um psicótico. Revela o prazer de uma sexualidade extremamente perversa.

Não vou colocar a depressão neste pacote porque me não vejo ponto de ligação, posso falar disso outra hora. Por enquanto, é bom que as pessoas saibam que a grande maioria dos psicóticos não são perigosos. Vale também pensar sobre o padrão cotidiano de violência presente no nosso cotidiano: no trânsito, na competitividade crescente na escola e no trabalho, nos entretenimentos televisivos que habituam os espectadores a gozar com as soluções violentas para todos os conflitos e na maneira como os telejornais sensacionalistas espetacularizam o crime, de maneira geral.

Isso não causa o surto psicótico, mas pode servir de ancoramento para o delírio que desencadeia o surto, no momento em que o sujeito não consegue dar conta de conter os impulsos e as fantasias que ele não compreende, por isso coloca em ato.

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