A conspiração das mulheres

Texto:  Ivan Martins ( Revista Época )

Quantas famílias vocês conhecem em que os rapazes são protegidos em relação às meninas? Eu conheci algumas. A garota estuda mais, começa a trabalhar cedo, corre atrás da vida e recebe pouca ajuda dos pais. Ela é tão eficiente em cuidar de si mesma que parece nem precisar de apoio, material ou afetivo. Avança sozinha. Enquanto isso, o garoto, ou garotos da casa, têm vida mais fácil. Estudam menos, demoram a buscar trabalho e moram com os pais até casar. Eles têm casa, comida, roupa lavada e, com sorte, até um carrinho. É uma situação muito comum na classe média.

Eu comecei a pensar sobre isso faz alguns anos, ao tomar contato com o ressentimento de uma filha que vivia uma história desse tipo.

Ela estava no início da carreira, tinha uma dívida pesada com a faculdade, e me contava, atônita, que o irmão mais novo recebia tudo de bandeja – a faculdade paga pela mãe, o carro que a minha amiga nunca teve, a facilidade de não ter de trabalhar até terminar o curso de informática… Minha amiga trabalhava desde os 17 anos. Como a historia é antiga, eu pude acompanhar seus desdobramentos. A amiga tornou-se uma profissional muito bem sucedida, orgulho da família e dos colegas. O irmão dela é trabalhador e pai de família dedicado. O que nunca mudou foi a relação difícil da amiga com a mãe. Ela já não reclama, mas acho que ainda se sente menos amada que o irmão. O ressentimento não desapareceu.

Sempre achei que esse tipo de tratamento especial em favor dos garotos era um caso de Édipo descarado. As mães amam tanto seus meninos que não conseguem evitar protegê-los e mimá-los. É uma compulsão. Eu sou filho caçula, único homem, sei do que estou falando. Ao mesmo tempo, sempre me pareceu que essa proteção tinha uma justificativa prática. Nessas casas, os meninos eram mais lentos que as meninas, pareciam precisar dos cuidados que recebiam. É como se as mães intuíssem uma fraqueza e apoiassem quem precisava delas. Quem é forte ganha o mundo, quem é fraco ganha um carro e uma mesada. Faz sentido?

Outro dia eu ouvi uma opinião divertida e provocativa sobre esse assunto.

Uma amiga me disse que o que vem acontecendo, há várias gerações, é uma espécie de conspiração inconsciente das mulheres em benefício das suas filhas. Como as meninas tinham e ainda têm muito a conquistar em relação aos homens, são ensinadas pela mãe destacar-se na escola e lutar pela vida, de uma forma dura e efetiva: as mães, nas palavras da amiga, empurram as filhas para fora do ninho, enquanto os irmãos ficam lá, de boca aberta, piando até por volta dos 30, ou depois. O que parece proteção para os meninos, diz minha amiga, é uma sacanagem de longo prazo contra eles. Se as meninas estudam mais, trabalham mais e são incentivas desde cedo a serem auto-suficientes, quantas décadas vai demorar antes que elas ponham os homens no chinelo e tomem o lugar de privilégio na sociedade?

Essa, conclui a minha amiga, é a conspiração secreta das mulheres. Ela deixa unhas e corações partidos no caminho, mas avança.

Você não precisa concordar com essa teoria para perceber que ela acerta no essencial – as famílias parecem estar preparando melhor as meninas do que os meninos para lidar com o mundo. Por alguma razão, há mais indulgência com eles, e os resultados estão por aí. Muitos homens chegam aos 30 anos achando que a vida é uma balada. A maioria das garotas entra nos 20 sabendo que a vida é uma corrida. Elas podem estar ressentidas com a situação, a relação delas com a mãe pode ser um desastre, mas isso não deve impedi-las de fazer mais com a própria vida, de chegar mais longe. Se elas quiserem e se houver justiça, claro. Mas isso é outra história.

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