Sobre as relações amorosas

Texto:  Contardo Calligaris  ( entrevista à Revista Trip )

Por que é difícil conciliar sexo e carinho?

É possível ter carinho pela pessoa com quem a gente transa e transar com a pessoa por quem sentimos carinho. Mas em uma alternância. O sexo não é o momento do carinho. Quando as relações se tornam totalmente carinhosas e as pessoas começam a falar como bebês, daqui a pouco somos o Mickey e a Minnie e vamos dormir com o pijaminha da Disney. Pode ser legal, mas aí a gente vai acabar não transando mais. Por isso que um bom casal é um casal que briga.

Um bom casal é um casal que briga?!

Eu não acho que as relações “apaziguadas” sejam as melhores. Nem que seja grande problema, num casal, de vez em quando voarem uns pratos. É a briga que permite o sexo. Não que você precise sair brigando para depois transar. Quero dizer que a briga serve para quebrar o nhenhenhém. Porque o sexo implica uma certa distância.

E a idéia muito difundida em revistas femininas de que, com o tempo, é normal o relacionamento esfriar e sobrar só o “companheirismo”?

Para mim é mais uma desculpa que outra coisa. Me parece contrário a tudo o que constato, pois, com poucas exceções, somos bichos extremamente apaixonados pela repetição. Nossa regra geral é a mesmice. Então não vejo por que a mesmice seria broxante. Minha idéia é que o interesse sexual se perde por preguiça.

Preguiça de transar?

É preciso esforço para manter a vida sexual. O sexo é um trabalho. Não no sentido de [aponta para o relógio] “ah, agora vou para o escritório”. Mas, se você não mantém fantasias sexuais andando na sua cabeça, num dado momento a atividade sexual morre. Nossa sexualidade não tem nada de natural, é ligada a fantasias e só funciona com elas. A quantidade de casais que param de transar e se queixam como se fosse “eu deveria tomar Viagra” é imensa. Mas o primeiro Viagra é pensar em sexo.

É mais fácil viver sozinho ou a dois?

[Longa pausa] É difícil responder por causa desse “mais fácil”. Acho que cada um deve descobrir se, para ele ou para ela, é mais agradável viver sozinho ou a dois. Qualquer escolha é legítima, o problema é que todas têm um custo. Eu acabo de pedir um Guaraná Diet e poderia envenenar a bebida com o lamento da Coca que não pedi. A maior lição da psicanálise é esta: qualquer desejo implica perdas.

Em outro artigo você afirma que as pessoas andam “tão preocupadas em preservar suas liberdades individuais que acabam por preservar a sua solidão”. É verdade?

Eu acho que, em vez de fugir dos relacionamentos, seria menos custoso inventar maneiras de convivência em que a gente pudesse pagar um pouco menos do que a solidão. A gente tem muito a inventar na maneira de um casal conviver e negociar a individualidade um do outro. Defendo as uniões duradouras, porque são mais interessantes. Acho que muitas separações — mas, cuidado, não todas, longe disso — são efeito de preguiças diversas. Então, valorizo os esforços dos que tentam ficar juntos.

Ainda sobre relacionamentos, você sempre pergunta: “Qual é a melhor viagem, visitar as capitais européias num ‘tour’ de 15 dias ou passar duas semanas numa cidade só e conhecê-la um pouco?”. O que quer dizer?

Quero dizer que a diversidade das relações é dramaticamente desinteressante. A grande maioria das pessoas vive uma série de monogamias. São poucas as que preferem uma vida de quinze capitais em quinze dias. E a verdade é que isso é muito pouco interessante. Porque não existe nada de mais interessante no mundo do que as pessoas. E, se você inventa um sistema de relações que na verdade é um sistema de não-rela-ções, se priva do que há de melhor na vida.

Mas não há um certo prazer na variedade?

Não é a variedade, mas o desconhecido que tem valor erótico. Se você está disposto a ter uma transa num canto escuro de um parque com alguém que nunca viu, isso é uma fantasia sexual do caramba. Só não esqueça a camisinha. Mas ser galinha e ter um flerte com uma conversa babaca a cada dois dias não tem interesse nenhum, nem sexual, nem individual. Entendo perfeitamente uma atividade sexual de sauna, de clube de swing, mas essa do “eu flerto, bato um papinho, dou dois beijos e passo para outra” não tem nenhuma graça.

Fidelidade é essencial num relacionamento?

[Pensa] Não tenho valores absolutos sobre isso. Mas existe a ideologia, muito cool, de que “tudo bem, nós somos liberados, transa com quem você quiser e eu também”. Só que, na maioria dos casos, os dois vão sofrer uma barbaridade com isso: vão ter ciúmes, morder as unhas, se odiar e acabar numa merda. Na grandíssima maioria dos casos é uma mentira.

Existe uma apologia do não-compromisso?

É possível. O que me espanta na geração dos meus filhos, que têm entre 19 e 24 anos, é que eles se engajam em relações importantes, que duram anos, mas só são possíveis numa espécie de negação absoluta. É evidente que estão construindo uma vida a dois, monogâmica, mas existe uma atuação teatral do não-compromisso, uma negação da retórica do amor. Agora, eles praticam a fala de nenê. Nê-nê-nê! [Gargalhadas] Isso é uma praga!

Uma resposta a Sobre as relações amorosas

  1. Larissa Melo diz:

    Adorei o texto! Abç

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