O bom e o mau caráter

Texto:  Cristiane Segatto  ( Revista Época )

Uma das fraquezas mais detestáveis do ser humano é a incapacidade de reconhecer os próprios erros. Nunca entendi por que é tão difícil dizer: “errei, fui mal, me desculpe, vou tentar fazer melhor da próxima vez”. Para mim, isso é o básico do básico. É o requisito mínimo necessário para manter a boa convivência entre pessoas respeitáveis.

Por muito tempo achei que as pessoas incapazes de fazer isso fossem minoria. Acreditava que esse comportamento fosse fruto de algum desvio de caráter bizarro e relativamente incomum. Estava enganada. Começo a achar que saber pedir desculpas virou raridade.

Quem não reconhece os próprios erros quase sempre usa de outro expediente horroroso: tenta lançar a culpa sobre outras pessoas. Aposto, querido leitor, que você consegue reconhecer muita gente que faz isso no seu trabalho. Ou na família. Ou até mesmo no círculo de amigos mais próximos.

Para essa gente, o erro é sempre dos outros. Quando o outro acerta foi por “sorte”. Nunca por mérito, trabalho duro, dedicação. Pessoas assim tumultuam as relações profissionais, familiares e de amizade. Poderia ser diferente?

Gosto de acreditar que todo mundo merece um voto de confiança. É reconfortante pensar que para melhorar basta estar vivo. O problema é que muitos desses traços de personalidade são relativamente imutáveis. Costumam acompanhar a pessoa por toda a existência. O cidadão pode até aprimorar seu jeito de ser diante das pedradas que a vida lhe der, mas a essência não muda. É aquilo e pronto.

Seria muito útil se pudessemos identificar pessoas assim antes que elas causassem estragos. Existe um check-list capaz de identificar o bom e o mau caráter? Existe uma receita capaz de nos orientar (ainda que minimamente) quando contratamos alguém, somos apresentados a novos colegas ou escolhemos um parceiro?

A edição de junho da revista Psychology Today traz uma reportagem que propõe seis pistas para identificar as características principais da personalidade. Ao observá-las, dizem os psicólogos, seria possível prever que tipo de pessoa o sujeito que está na sua frente vai se revelar.

“Desenvolvimento não é um mistério”, diz a psicóloga Susan Engel, do William College à revista Psychology Today. “É como uma bola de cristal. Você só precisa saber como olhá-la”. É preciso encontrar (ou criar) situações que têm grande chance de tornar explícitas os traços que pretendemos observar. Seis características fundamentais:

INTELIGÊNCIA

É a habilidade e a velocidade de processar informação. A inteligência permite (embora não haja garantia de que isso ocorra sempre) uma maior compreensão da vida, das experiências e de outras pessoas. Tem a ver com a habilidade de lidar com a complexidade.

DICA: Preste atenção à forma como a pessoa pensa. Observe como ela desenvolve um argumento ou como avalia prós e contras. Observe com que rapidez ela absorve informação nova e como entende e lida com situações complexas. Sua habilidade de gerar múltiplas soluções para um problema é um ótimo sinal.

MOTIVAÇÃO

Permite que a pessoa atinja qualquer objetivo desejado, mas ela só existe se houver persistência e paixão. Se a pessoa for muito persistente e apaixonada pelo que faz muito provavelmente ela tem um otimismo acima da média. Mais um bom sinal.

DICA: Observe como a pessoa fala sobre os problemas da vida. O que ela diz quando encontra um obstáculo? É um jeito de descobrir se ela acredita na importância do esforço. Se a pessoa reage com raiva e culpa a falta de sorte quando as coisas dão errado, abra o olho.

SATISFAÇÃO

Muitos psicólogos e filósofos acreditam que a felicidade vem da capacidade de ter um senso de propósito e se sentir útil. Explorar as crenças da pessoa sobre a felicidade ajuda a revelar qual é a chance que ela tem de atingi-la. Se a pessoa relaciona a felicidade apenas ao consumo de bens materiais está fadada ao desapontamento.

DICA: Qual é a capacidade da pessoa de encontrar satisfação? Ela é realista a respeito de suas fraquezas pessoais? Ela age de acordo com suas crenças e valores mesmo em situações em que corre o risco de ser criticada? A tendência de atribuir ao destino tudo o que dá errado distorce a realidade e instala a penúria. Vai sobrar para quem estiver por perto…

SOCIABILIDADE

Pode ser entendida como a capacidade de criar reciprocidade. Crianças e adultos buscam nos outros a bondade, a amabilidade e a certeza de que o outro estará disponível para ajudá-lo quando necessário.Ter pelo menos um bom amigo nos ajuda a enfrentar as agruras da vida. Nem toda pessoa tem o mesmo grau de sociabilidade. Algumas ficam muito confortáveis passando tempo sozinhas e frequentemente preferem estar assim. Não há nenhum mal nisso. Uma medida da personalidade é quanta solidão ela deseja. Igualmente importante é observar se ela pode criar vida social no momento em que deseja.

DICA: Observe a natureza das amizades de uma pessoa. As amizades são genuínas ou baseadas em interesses? São marcadas pela dominância e pela submissão? Talvez o sinal mais forte de problemas seja a existência de rompimentos. Uma sequência de ex-amizades é sinal de rigidez. Significa que a pessoa é incapaz de tolerar conflitos ou lidar com complexidades.

INTIMIDADE

A intimidade é uma importante fonte de equilíbrio, a forma mais profunda de conforto. Os psicólogos concordam: a primeira relação é a base de todas as outras. A natureza do vínculo emocional na família estabelece não somente a habilidade de adquirir um senso de conexão, mas o grau de segurança nas relações posteriores.

DICA: Observe a capacidade de alguém de ser tornar íntimo e você saberá se ela consegue confiar em outra pessoa e revelar sua vulnerabilidade. A capacidade de ouvir – às vezes a mais essencial necessidade numa relação íntima, principalmente nos momenos difíceis – é uma qualidade crucial e fácil de perceber.

BONDADE

A bondade e a maldade vêm de algum lugar. As pessoas seguem modelos que estão ao redor. Alguns aspectos da moralidade são gerados dentro da pessoa e outros fora. A empatia aparece cedo na vida e persiste. Um sinal de moralidade é a boa vontade quando alguém precisa de ajuda.

DICA: Observe se a pessoa consegue controlar suas próprias emoções (especialmente as negativas, como raiva e ansiedade) sem negá-las. Se ela fizer isso, provavelmente será capaz de tolerar os tombos dos outros e ajudá-los.

A reportagem é interessante, mas a vida real é bem mais complexa. Relacionamentos não são guiados por receitas de bolo. Pessoas não podem ser enquadradas em perfis estáticos, embora listas como essa sirvam de guia sobre características importantes a observar. Por conta própria, incluiria outra: o senso de justiça. Se a pessoa se esforça para ser justa, há grande chance de não ser mau caráter.

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