Trair é a pior coisa do mundo?

Texto:  Ivan Martins ( Revista Época )

Jornalistas recebem livros pelo correio. Você está no computador, escrevendo, e alguém põe sobre a sua mesa um pacotinho mandado por uma editora. Semana passada eu recebi um livro de capa verde da Suma, uma marca da editora Objetiva, e dei uma olhada para ver do que se tratava. Gostei do assunto o suficiente para levar para casa e começar a leitura, levemente espantado com o conteúdo. O livro, assinado pela terapeuta familiar e conselheira matrimonial americana Holly Shumas, é um relato em primeira pessoa, extremamente minucioso, de um caso de adultério. Chama-se O amor e outras catástrofes da natureza.

 A história é simples: grávida de oito meses, a narradora descobre que seu marido está “emocionalmente envolvido” com outra mulher. Ele havia transado com uma colega de trabalho, se arrependera, mas ainda assim, passara a trocar emails e ter conversas íntimas com a moça. Há mais de um ano. Sua mulher descobriu quando “a outra” ligou no dia de Ação de Graças, uma data que para os americanos equivale ao Natal para nós, sagrada para as famílias.

A autora constrói tão bem a cena da descoberta – o marido cochichando ao telefone, no quarto, enquanto o resto da família comia – que uma colega da redação a quem emprestei o livro não aguentou. “Parei de ler ali mesmo. Fiquei mal”, ela me disse. “Imagine, estar grávida de oito meses e descobrir uma coisa dessas.”

Para não estragar o prazer dos possíveis leitores do livro, conto apenas que o relato segue todas as indignidades corriqueiras nessas situações – violação de email do marido, as patéticas mentiras do sujeito que tenta negar o inegável – e avança em uma discussão que parece mais importante para as mulheres do que para os homens: a diferença entre traição física e traição emocional. Shumas, baseada em sua experiência de consultório, sugere que menos importante do que o marido ter tido sexo eventual num seminário de trabalho foi o fato dele manter uma relação paralela, íntima e de longa duração com uma estranha – envolvendo troca de emails, telefonemas, desabafos, confissões…

Essa distinção entre físico e emocional me fez lembrar de uma conversa que tive faz alguns anos, depois de uma separação. Magoado, e querendo me magoar ainda mais, perguntei a ex se ela estava transando com alguém. “Transar?”, ela respondeu. “Estou indo ao cinema de mãos dadas!”. Essa resposta ilustra como o que é importante para os homens pode ser quase irrelevante para as mulheres. E sugere que elas, quando querem, são capazes de proteger a própria liberdade com porradas.

Ao ler o livro de Shumas, tive vontade de escrever sobre traições. Mas não como ela faz. Por melhores que sejam as suas qualificações profissionais e suas intenções, ela repete aquilo que a gente já sabe: ser enganado dói de um jeito indescritível, quem engana não é necessariamente um monstro imoral, as consequências da nossa revolta podem ser dezenas de vezes piores do que o ato em si.

Até onde eu percebi, Shumas não discute o assunto como eu acho que deveria. Ela navega nas emoções da mulher traída e constrói seu livro a partir delas. As emoções, claro, são importantes demais nesse assunto, mas há mais do que elas. Há uma ética que poucas vezes é discutida. Não só a ética dos votos de fidelidade rompidos, mas a ética geral, que deveria colocar esses dramas íntimos em sua devida proporção, e não o faz.

Traídos, nos sentimos no direito de fazer coisas que não faríamos em qualquer outra situação, em nenhuma outra circunstância. Desmembrar nossa família, por exemplo. Acabar com uma relação estável e amorosa de anos. Jogar nossos filhos contra o pai ou a mãe deles, fazendo um mal danado às crianças. É como se um ato de traição abolisse tudo de bom que foi feito antes pelo traidor e permitisse tudo que se virá a fazer contra ele no futuro. Parece às vezes que não há nada pior no mundo.

Eu me arrisco a dizer que muitos homens e mulheres que ficariam firmes ao lado de seus parceiros num crime de sangue não tolerariam dele (ou dela) uma traição. Isso significa, em termos morais, que as pessoas são capazes de dormir com um assassino (ou com um ladrão, ou com um corrupto, ou com um agressor), mas não com alguém que fez sexo (ou dividiu sua atenção e seu carinho) com outra pessoa. É isso? Se for, me parece que a nossa escala de valores está quebrada.

No livro de Shumas, assim como na vida, o álibi para toda a comoção em torno da traição é a mentira, a quebra de confiança: eu não conheço a pessoa que vive comigo! Era tudo uma mentira! Não, não era. Qualquer adulto sabe que as pessoas são capazes de amar e se sentir atraídas por outras pessoas ao mesmo tempo. Se elas cederão a isso ou não, é uma questão de circunstâncias e valores, delas e da sociedade. Mas não cabe falar em “falta de amor”. Amor e traição convivem há milênios.

Qualquer adulto, e neste caso qualquer criança, também sabe que as pessoas podem mentir sobre alguma coisa específica sem que isso implique em mentir sobre tudo o mais. Sim, eu não estava jantando com um amigo na terça-feira. Não, isso não quer dizer que eu nunca fui jantar com amigos quando disse que estava fazendo isso. As pessoas mentem ocasionalmente, mas uma traição não transforma o mundo, repentinamente, num oceano de mentiras. Todo mundo já contou uma mentira no trabalho ou em casa, mas isso não faz de todos nós pessoas inconfiáveis. O que há nas mentiras que envolvem o relacionamento que as tornam tão particularmente abomináveis? Eu não sei.

Mas eu sei – ou acho que sei – que ninguém sabe toda a verdade sobre o outro, por mais próximo que esteja dele ou dela. E sei que esse mistério é uma das grandes dádivas da existência. Ele garante, sem artifícios e sem jogos, o nosso interesse permanente pelo outro. Ninguém é devassável. Ninguém é realmente previsível. Ninguém pode ser controlado. Quem não aceitar esses fatos na sua magnitude e no seu significado simples e profundo vai ter uma vida difícil. Pode se sentir enganado o tempo todo.

Minha impressão, resumindo, é que a gente lida com a traição de forma infantil. Queremos os outros só para nós, como as crianças querem só para elas os brinquedos ou a atenção dos adultos que amam. Elas não sabem que isso é impossível, mas nós deveríamos saber. Mas não. Resistimos a admitir emocionalmente que a pessoas que a gente ama têm outras dimensões além daquelas que nos dizem respeito. Outras relações. Eve, a personagem do livro de Shumas, enlouquece ao notar que o marido discutia com “a outra” intimidades que não discutia com ela. Aí está: queremos o monopólio da atenção do outro. Sabemos que ela ou ela trabalha, que tem amigos, que conversa e troca ideias e sentimentos com outros. Mas não podemos ver essas coisas escritas num email. Nem podemos escutar uma conversa íntima do nosso parceiro que não nos envolva. Somos crianças? Talvez.

Advertisements

One Response to Trair é a pior coisa do mundo?

  1. Thaís diz:

    Ótimo texto!!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: