Qual o sexo dos amantes?

Texto:  Elisa Lucinda

Ainda o assunto do amor entre iguais em gênero ulula nos meus ouvidos, na íntima sala de reuniões na casa da razão. Ainda quer entender o nascimento da homofobia e  acho que  tudo que a sociedade não discute , não estuda , não admite, não aprofunda , não encara de frente com  todos os seus conteúdos, tende a alimentar cânceres sociológicos no seu corpo social, a promover renitentes e fatais  embolias  na corrente sanguínea de uma civilização. Acho que é o que nos ocorre em  relação às relações  homossexuais. O preconceito  chafurda na lama das contradições e só faz mal a si e aos outros, só atrasa  a sociedade e só se complica. Roberto Samico, meu amigo, com sua ciência fisioterapêutica  e massoterápica, no auge dos seus vigorosos 70 anos, a subir correndo as escadas do seu trabalho, me dissse: “Eu não tenho preconceito, Elisa!  Tanto que a maioria de meus amigos é heterossexual . Eu adoro eles, respeito seu gosto e modos de viver o amor e não acho que  devam ser iguais a mim, que gosto de homem.” Adorei a inversão de seu pensamento no que se refere ao senso comum e a honestidade , com que proferiu tal reflexão. Então,  existe um véu  que não nos deixa  ver nossos  avessos  códigos, fiquei pensando. Ora, acaso nos importamos se é gay ou não a cantora da trilha sonora do casal de mocinhos da novela? É menos amor porque a voz  é da Cássia Eller? Quantas obras feitas por homossexuais não oferecemos e nos são oferecidas  para enfeitar e confirmar hetero-formas  de amor? E as canções que cantamos? Quais delas não foram feitas por um homem para um outro? De uma mulher para outra?  O que sabemos disso? A palavra amor, por ser comum aos dois gêneros, protege a identidade sexual. Todo mundo  é  meu amor. Não conhecemos as fontes de inspiração dos poetas. Eles podem nos enganar, e bem. Mas isso realmente importa?  Àqueles em cujos versos a humanidade se vê representada, traduzida  até legitimada em seu amor, não interessa a serviço de que tipo de afeição seus versos estarão.  Não há patrulha nisso.

Meus amores, chega de hipocrisia, ninguém é vilão por ser gay, nem sem-vergonha por isso. Comemoremos por vivermos o avanço de um tempo, onde o tapete ficou curto e não comporta mais tantos segredos debaixo dele. Não pode mais ser crime amar seja quem  quer que seja. Não pode mais serem consideradas imorais algumas escolhas do amor. Não é mais tempo disso. Por isso nos matamos uns aos outros, nos ofendemos, excluímos o outro ser humano que está emocionalmente exposto ao desejo e aos romances em sua condição humana, como qualquer outro. Proponho que revejamos o modo como tratamos nossas crianças nesse tema sexual, numa sociedade machista que tanto desprepara o menino para as delicadezas e os ricos detalhes de uma emoção, com medo de que tal educação sensível comprometa-lhe a masculinidade. Vendo meu afilhado Gabriel, no auge de seus oito meses, a brincar com os bonecos de pano, pensei em quanto é saudável para um menino brincar de cuidar do outro. Se é ali que a menina tem seu primeiro ensaio da maternidade, com seu bebê boneco que vem até com mamadeirinha. Por que o pai, que em tese é o que o menino será, não pode ensaiar também? Porque por muito tempo a sociedade achou que brincar de boneca faz o menino “virar”. Como se um brinquedo fosse capaz de decidir o objeto de amor de alguém.

Essa imaturidade nossa sobre a homossexualidade  já fez muitos danos e maltrata demais a saúde do mundo. Vivemos cercados de: engenheiros, arquitetos, bailarinos, juízes, médicos, escritores, cineastas,  militares, atores, padres, empresários e advogados, trabalhamos e tocamos com eles o mesmo mundo besta e bom, sem saber a verdadeira face de sua intimidade, quando a cortina de seu teatro fecha. E seguimos adiante, ignorantes, porque não podemos determinar qual o sexo dos amantes.

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