Em outras palavras

Texto:  Lya Luft  (trecho do livro Em Outras Palavras)

Brinco e trabalho, sonho e me exercito com frases e entrelinhas desde que recordo: são material de minha profissão, de meu encantamento e de minha perplexidade. Pois o que pode separar também liga, o que deveria significar harmonia pode maltratar.

Como nós humanos, palavras se transformam feito pedras roladas em fundo de rio: o vulgar torna-se belo, o comum cai na lata de lixo dos palavrões de mau gosto, o necessário é esquecido e o raro vem para a mesa como a manteiga e o pão.

Silêncios por sua vez promovem contatos amorosos ou erguem barreiras como lanças espetadas. O silêncio pode ser bom de curtir gente, arte ou natureza, ou de fazer descobertas transformadoras em nós mesmos; mas pode ser o silêncio do suicida que queria dizer: venha me socorrer… mas não havia ninguém.

Conheço o silêncio positivo dos casais que não precisam de muitas palavras, porque se entendem pelo olhar, e são felizes simplesmente estando lado a lado. Escutei o silêncio mau das famílias onde não se respeita o outro, dos casais ligados apenas pelo acomodamento; o silêncio humilhante dos locais de trabalho onde a competitividade é cruel; o silêncio perverso da mentira pública, quando culpados enveredam pela trilha da negação do mais-que- evidente e até confessado, que lesou nosso bolso e nossa dignidade.

Mulheres traídas, homens pouco amados, pais arrogantes e brutais ou eternamente críticos (também se bate com palavras), mães amargas ou obsessivamente controladoras, patrões gananciosos, funcionários insatisfeitos… todas as formas de desrespeito expresso ou subliminar tendem a reproduzir atitudes semelhantes. E os conceitos, coração das palavras, vão-se transformando nesse campo de batalha: o dito, o não-dito, o jamais comunicado.

Lançar uma palavra aos quatro ventos, como se entendêssemos do que se trata, não quer dizer que a gente viva segundo ela. A ética, por exemplo, nestes dias há de estar nos contemplando consternada, pobre senhora: não do Olimpo dos deuses inatingíveis, mas nas esquinas da nossa tresloucada humanidade, onde a abandonamos em troca de comportamentos perversos.

Temos dificuldade em lidar com o silêncio: ele ressoa mal no vazio do nosso interior. Embora seja difícil de curtir (ah, a música ao vivo, a praia com alto-falantes, a ginástica dirigida, os brinquedos comandados, a diversão atordoante em casa, no clube, no mar…), é nele que nos humanizamos – pela palavra certa, a palavra boa, a palavra respeitosa mas firme.

O medo de errar muitas vezes nos leva ao erro, e o desejo excessivo de acertar nos rouba a naturalidade: calamos quando seria melhor falar, falamos quando teria sido melhor dizer alguma coisa, qualquer coisa.

Mas nem sempre sabemos a hora, a palavra, a pessoa certa.

Assim como solidão não precisa significar isolamento, silêncio não precisa ser um corte: pode ser nossa melhor maneira de falar, naquele momento, com aquele interlocutor. Aí ele não compreende, e, mais uma vez, somos incomunicáveis.

Calar pode ser um bom exercício para nossa mente aflita de tantas informações, paralisada entre tantas escolhas, dilacerada em transformações vertiginosas como as deste tempo nosso.

Pensar sobre nós e nossa vida é um exercício: o que eu realmente desejaria ser, e o que posso fazer? Como chegar perto de mim, eu mesmo, esse que está sempre por ser descoberto?

Pode ser um bom começo ouvir a chuva no telhado, a pessoa amada vindo pelo corredor, e a consciência que fala ao nosso coração – quando ele está atento.

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