Quando foi que ficamos adultos?

Texto:  Ivan Martins (Revista Época)

Olho em volta e tenho a impressão de que vivemos em estado de confusão.

Um amigo decidiu sair de casa, mas sofre com dúvidas e medo. Outro descasou definitivamente, para viver uma aventura trepidante. Há a colega separada (cujo ex-marido descobriu que a ama), o grisalho apaixonado pela mulher mais jovem (que não sabe o que quer) e aquele outro que insiste em seduzir todas as mulheres do mundo, desde que sejam lindas e não gostem dele.

Eu presencio essas coisas todas e me pergunto quando foi que ficamos adultos.

Ao contrário do que diz a lenda, não me parece que esse estilo de vida reflita imaturidade. Ele é um jeito de ser. Havia uma convenção que nos protegia de nós mesmos e dos nossos desejos. Rompemos com ela e agora o mundo é o da ambiguidade permanente.

De um lado, a esperança atroz de ser feliz. De outro, a dificuldade em construir a felicidade. Aqui, todas as possibilidades do mundo. Ali, a incapacidade em fixar-se em qualquer uma delas. Sonhamos com romance e arrebatamento, mas, ao nosso redor, se multiplica o efêmero e a ansiedade. Permeando tudo, a liberdade e a possibilidade de tentar.

Às vezes tenho a impressão de que fomos expulsos do Paraíso.

Lá, havia um grande amor claramente reconhecível e um plano de vida simples, que começava cedo e se resumia à tarefa grandiosa de construir uma grande família. Em troca, tínhamos de manter sob custódia nossas inquietações e nossos desejos. Era um compromisso de longo prazo que exigia abnegação e disciplina. Não conseguimos. Fomos espiar pela janela, nos apaixonamos pelo mundo, ficamos entediados com o que nos cercava e deixamos fenecer a nossa escolha. Em uma única palavra, pecamos. Agora vivemos do lado de fora do Éden.

Eu gosto. Tendo morado sob a macieira uma longa temporada, descobri que é melhor ser adulto com todas as minhas dores do que viver em estado de graça domesticado. Aliás, nem tinha tanta graça assim. Aqui fora, desde então, a vida tem sido mais sincera. Sem trair as verdadeiras lealdades – a dos princípios, do amor, da fraternidade e da paternidade – é possível ser provisoriamente feliz, seguidamente. O que não quer dizer que não doa.

Outro dia, passando os olhos pela timeline do Facebook, dei de cara com uma provocação: “A diferença entre os homens e os abacates é que os abacates amadurecem”.

Quem escreveu foi uma mulher, claro. Eu ri, mas está errado. Acho que somos todos abacates, embora pensemos o contrário. O outro é imaturo, nós somos apenas verdadeiros e independentes. O outro não sabe o que quer. Nós, quando mudamos de ideia, apenas seguimos os nossos sentimentos. O inferno é o outro. Na forma de abacate, mamão ou beterraba.

Da minha parte, acho que viver os dilemas das relações – aos 20, aos 30 ou aos 60 anos – significa ser adulto. A solução que cada um dá para esses dilemas define personalidade e estilo de vida. Ninguém tem o monopólio da maturidade ou sabe o jeito certo de viver. Somos todos adultos. Cada um de nós sofre ou goza da maneira que escolheu.

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