Família feliz e família real

Texto: Rosely Sayão

Um grupo de amigas, todas mães de crianças com menos de seis anos, pediu para conversar comigo a fim de trocar ideias a respeito da educação dos filhos e da vida familiar.
Ouvindo atentamente essas mulheres -todas profissionais liberais com vida bastante atribulada e, mesmo assim, muito compromissadas com sua função de mães-, posso afirmar que três reclamações centrais foram colocadas no diálogo.
A primeira delas, unânime, foi em relação à participação ainda pequena dos maridos no trabalho doméstico e na lida com os filhos. É preciso dizer que elas reclamaram sobre isso com um pouco de culpa e constrangimento -já que reconheciam a boa vontade de seus companheiros de vida. Uma delas, inclusive, chegou a dizer que não sabia se tinha o direito de manifestar o anseio de ter mais colaboração do companheiro por saber que, na comparação com a maioria dos homens, o marido fazia bem mais do que muitos outros.
Pois é: em pleno século 21, com as mudanças radicais que aconteceram e ainda acontecem nos papéis do homem e da mulher, tanto na sociedade quanto na vida privada, nós ainda não conseguimos alcançar a equidade de direitos e deveres. Principalmente quando se trata da vida em família. Ainda é marcante a herança do antigo modelo no qual ao homem cabia, principalmente, o papel de provedor material do grupo, e à mulher, o de provedora afetiva da família e administradora da casa e da educação dos filhos.
Essa herança é marcante o suficiente para nos fazer usar a expressão “muitas mulheres trabalham fora” (de casa, naturalmente). Isso aponta uma referência: a de que o lugar da mulher seria dentro (de casa, naturalmente).
A segunda reclamação do grupo foi a respeito da necessidade de repetir a mesma coisa para os filhos dia após dia, sem trégua. “Quando isso vai acabar, se é que vai?”, perguntou uma delas, com muito bom humor. Essas mulheres têm sentido na pele que criar filhos, principalmente nos primeiros anos de vida deles, exige um trabalho árduo e, muitas vezes, braçal. É birra, é mordida, é teimosia, é choro. E são noites sem dormir e muito mais, não é verdade? E, como costumo dizer, isso só acaba na maturidade dos filhos. Repetir o mesmo conceito, mudando apenas a forma dele, é algo que só termina mesmo quando os filhos se tornam adultos. Ah! E como isso tem demorado no mundo contemporâneo…
A última queixa delas, mas não em ordem de importância, foi a de que ter família exige muito de seus integrantes. Alguém discorda?
Todos sabemos o quanto é trabalhoso fazer a manutenção do grupo familiar. Atender às necessidades básicas de todos, principalmente dos filhos, não é o mais difícil. Complexo é administrar os conflitos que surgem na convivência e também aqueles que existem, mas não são expressos e, mesmo assim, interferem no relacionamento dos integrantes da família.
Ouvindo tudo o que essas mulheres disseram, me lembrei de um fenômeno recente em nossas vida nas cidades grandes: esses decalques de “família feliz” que agora lotam as traseiras dos carros. O que eles querem expressar, afinal? Talvez um apelo: o de que a família seja mais valorizada, por exemplo. Ou, talvez, uma crítica ao nosso modo de vida atual, em que a família é apenas uma boa justificativa para nossas escolhas. Mas no fundo, bem no fundo, esses adesivos podem estar tentando dizer que essa “família feliz” é a dos nossos sonhos, em nada parecida com a família real que, como acabamos de ver, é complexa até demais.
O problema é que esse sonho parece estar impedindo o enfrentamento da realidade: ter família é bom, mas dá um trabalho danado. Parece que gostaríamos de ficar apenas com a primeira parte dessa afirmação.

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