Mulheres e garotos

Texto:  Ivan Martins (Revista Época)

Algumas das minhas amigas estão namorando homens mais novos. Em geral elas têm mais de 30 e eles têm pouco mais de 20. Às vezes a diferença é menor, mas a aritmética é irrelevante. O que importa, neste caso, é o espírito da coisa: depois de décadas ironizando o gosto masculino por meninas, as mulheres (ou parte delas, pelo menos) descobriram os meninos. E parecem estar gostando – como sugere uma reportagem de revista Marie Claire de outubro, que traz vários depoimentos interessantes sobre esse assunto.

 Dias atrás, liguei para uma amiga que vive uma relação com um rapaz mais novo – ela 37, ele 29 anos. Diante da minha curiosidade, ela reagiu com pedras na mão: “Você também vai falar besteira sobre isso?”… Minha amiga se diz cansada dos comentários que escuta sobre o seu casamento. Reclama que muita gente reduz tudo à atração física. Ou assume que ela é espetacularmente imatura para se apaixonar de forma duradoura por um sujeito mais jovem. Não interessa se o rapaz é inteligente, divertido, crítico ou culto. Basta saber que ele é jovem e bonito. O resto as pessoas concluem sozinhas. Ela parece feliz com a própria escolha, mas ficaria melhor se a relação fosse vista com menos preconceito.

Outra amiga – ela 31, ele 26 – me contou uma história mais íntima. “Ele tem menos medo”, ela diz sobre o namorado. Medo de se envolver, medo de assumir a relação, medo de sofrer. Num mundo em que homens maduros se tornaram afetivamente hesitantes, jovens impetuosos, ainda que inexperientes, oferecem um território cheio de possibilidades: eles querem viver tudo, fazer tudo, partilhar tudo, aqui e agora. Minha amiga acha linda essa coragem. Quando ela mesma fica insegura, temendo ser trocada por uma piriguete de 18, o parceiro mostra sensibilidade. “Eu sou moleque, mas não sou moleque”, diz para ela. “Estou com você e ponto”. Acho bonito.

 Nos dois casos, pelo que eu entendi, há muita atração física, muita cumplicidade e alguma singularidade da parte de cada um dos envolvidos. Os caras não são típicos da idade deles. Tendem a ser intelectualmente precoces, interessados no mundo do trabalho e das ideias, embora emocionalmente ainda sejam garotos de 20 anos. As duas fazem questão de sublinhar que não estão apaixonadas “apenas” por um rosto e um corpinho bonitos. Os caras são mais jovens do que elas, mas, de alguma forma, preenchem aquele estereótipo masculino de inteligência e competência social. Sem um forte componente de admiração pela personalidade do sujeito, parece que o motor afetivo das mulheres não pega.

 Há algo de peculiar também nessas duas garotas: ambas têm temperamento forte. Uma delas me disse claramente que gosta mais de cuidar do que de ser cuidada. Para elas, a maturidade e a segurança de um homem mais velho podem ser trocadas sem susto pela leveza, o entusiasmo e até mesmo a pobreza relativa de um homem mais jovem, que está começando a carreira profissional – uma barganha que nem toda mulher aceitaria, eu acho. Há também reincidência: não é a primeira vez que elas se envolvem com gente mais jovem. As duas já fizeram isso antes, o que revela uma espécie de padrão.

O que se pode dizer sobre esse tipo de escolha?

Em primeiro lugar, claro, que ela é totalmente legítima. Se as pessoas estranham ou fazem ironia, problema delas. As mulheres têm direito a escolher o que quiserem e, crescentemente, farão escolhas fora do padrão histórico de “mulher jovem, homem mais velho”, “homem rico, mulher pobre”, “homem poderoso, mulher dependente”. Os motivos delas não interessam, interessa o direito. Não sei se esse tipo de arranjo vai se transformar em tendência, mas me parece óbvio que vai ocorrer com mais frequência. Os homens descobriram há milênios que é gostoso ter parceiras (ou parceiros…) mais jovens. Cedo ou tarde as mulheres também perceberiam.

 O preconceito de que a minha amiga reclama não é novo – repete a forma convencional de tratar os casais formados por “coroas e gatinhas”, embora a diferença de idade nas novas relações seja menor. As pessoas assumem uma base exclusivamente erótica para esse tipo de arranjo, mas quem já esteve lá sabe que os jovens trazem para as relações com parceiros mais velhos algo mais do que carne dura e feições intactas.

Elas (e assumo que eles também) têm frescor e entusiasmo. Ainda não carregam a amargura (ou os receios) provocada pelas experiências da vida. Metem a cara, se apaixonam, se divertem. Essas coisas muitas vezes compensam a ausência de qualidades que o tempo ainda não trouxe. Outra coisa importante é que os jovens costumam olhar para o parceiro (ou parceira) mais velha com uma admiração e uma deferência que não se acha em gente da mesma idade. A combinação dessas coisas pode resultar num combo fascinante, mais do que apenas excitante. Se for só sexo não dura um mês.

Ontem eu conversava com um amigo sobre isso e ele fez alguns comentários pessimistas sobre o futuro desse tipo de relação: elas seriam duradouras? Os planos de longo prazo de uma mulher de 30 são compatíveis com os de um cara de 20? Não seria melhor para elas investir num tipo de arranjo em que o tempo não as deixe tão vulneráveis?

As perguntas são boas e não há respostas fáceis para elas.

Diferenças de idades criam impasses existenciais que apenas os envolvidos são capazes de resolver. Ou não. O tempo vai demonstrar o que acontece quando a mulher que hoje tem 30 fizer 40 nos e o cara de 20 chegar aos 30. Eles ainda estarão juntos? Não se sabe. Mas algo é certo: estabilidade e relações duradouras não estão facilmente disponíveis em lugar nenhum. Para homens ou mulheres. Foi-se o tempo em que escolher um homem 10 anos mais velho era garantia de estabilidade para uma mulher chegando aos 30. Vocês têm visto os quarentões por aí? Eles certamente têm mais repertório que os jovens, mas não são emocionalmente o que costumavam ser – e nem me parecem loucos para sossegar.

Encerro com outra pergunta: se os 40 para os homens se tornaram os novos 20, o que haveria de errado para as mulheres de 30 em tentar um cara de 20 anos original? Me digam.

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One Response to Mulheres e garotos

  1. Ana Felipe diz:

    Adorei este texto. Tenho 36 anos e namoro um cara de 22. Apesar da diferença, ele me dá conselhos sobre meus filhos, tenho uma de 18 e um de 4. Se preocupa de verdade comigo, percebe meus sentimentos, parece que sabe o que penso, como me sinto, etc.
    Sempre fui super preconceituosa com homens mais jovens, achava que eles não tinham papo, maturidade, que o vigor não compensava a experiencia…
    Fui casada com um homem de 70 anos e sempre me relacionei com homens mais velhos. Digo pela minha experiencia que NUNCA havia me relacionado com um homem tão maduro, sensivel e com todas as qualidades acima citadas. A principal delas não é o óbvio vigor sexual, mas a coragem, a vontade de viver tudo, a total entrega aos sentimentos, emoções, descobertas.
    Amo viajar, passear, descobrir coisas novas.
    Não pensamos muito no amanhã, apenas vivemos!!

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