Brincando de terapeuta

Texto: Rosely Sayão

A criançada está com a saúde mental comprometida, apresentando muitos sintomas, doente. Essa é a conclusão a que chegamos quando tomamos conhecimento da quantidade de crianças e jovens que têm indicação para fazer ou já fazem ludoterapia, psicanálise para criança ou adolescentes e outros tratamentos derivados.
Uma criança de três anos, por exemplo, que apresentou um comportamento considerado diferente ou de difícil trato, o que colocou pais e professores em apuros, já mereceu a indicação para um atendimento psicanalítico.
Outra, um garoto de dez anos, já tem em seu currículo de vida a passagem por três -três!- tratamentos psicanalíticos. O motivo? É uma criança que passou a apresentar dificuldades escolares.
E a menina de oito anos que apresentou o que seus pais chamaram de “erotismo precoce”. Já está em atendimento há mais de um ano. Será que é para tanto?
Recentemente, conversei com uma psicanalista a respeito dessa epidemia de indicação e de tratamentos psicanalíticos (ou chamados de) para crianças. Ela me deu ideias bem interessantes a respeito do assunto. Primeiramente, disse que muitos tratamentos chamados psicanalíticos não o são de fato, porque nem sempre estão fundamentados no aparato teórico psicanalítico, por sinal bem complexo.
Ainda mais hoje, com tantas mudanças já ocorridas no mundo após a publicação dos principais textos que inauguraram a psicanálise. Vamos reconhecer esse fato como verdadeiro. Agora, há até curso de psicanálise pela internet e qualquer pessoa pode se denominar “psicanalista de criança”. Isso na melhor das hipóteses, porque você, leitor, já deve ter visto pela cidade placas em consultórios indicando “psicanálise infantil”. O que será isso?!
Bem, mas a melhor consideração que ela fez, em minha opinião, foi a de que hoje, mais do que nunca, os adultos responsáveis pela formação dos mais novos -em geral os pais- usam as crianças para satisfazer seus próprios desejos. Ou seja: os adultos projetam sobre as crianças que estão sob sua responsabilidade sua busca infantil de prazer imediato.
Um exemplo? Basta observar com atenção pais e seus filhos nos shoppings das cidades se dedicando à compra de brinquedos. Quem sente mais prazer com a compra desses objetos? As crianças -que, na sua imaturidade característica, se submetem sem saber aos apelos do consumismo- ou os pais, que dedicam uma parte polpuda de seu salário para essas aquisições?
Você terá surpresas interessantes, caro leitor, se observar a expressão facial deles nesses momentos. Em resumo: quem deveria, de fato, marcar presença semanal nos consultórios de psicanálise são os adultos. A maioria das crianças que frequentam duas, três ou mais vezes semanais o consultório está lá indevidamente.
Algumas delas precisam desse tratamento? Certamente. Muitas não terão nenhum benefício com isso? De fato, não sabemos. Mas sabemos que um tratamento psicanalítico não deveria ser banalizado dessa maneira.
E sabemos também que muitas das crianças que são tratadas pela psicanálise -ou terapias ditas psicanalíticas- apenas pagam o preço de nossos desvios, de nossa infantilidade, de nossa imaturidade. Ora, deveríamos, então, honrar as nossas próprias contas.

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