Um amor

Texto:  Luciana Saddi (Folha de S.Paulo)

É difícil encontrar um amor. As perguntas que recebo dos internautas e suas manifestações sobre o amor e sobre a desilusão amorosa atestam essa afirmação. Quanto maior a ânsia frenética por encontros, maior os desencontros. Trágico?

Algumas considerações históricas sobre a solidão

A solidão é um fenômeno moderno, está ligada à ascensão da burguesia, à industrialização crescente, à vida urbana e ao capitalismo. Os direitos e deveres de classe social, adquiridos por nascimento, se transformaram depois da Revolução Francesa. A mobilidade social se tornou possível. Os Homens perderam as garantias de classe, as garantias de um lugar e de um protocolo previamente constituído por uma posição social. Ou seja, perderam os roteiros para suas vidas. Cada um passou a ser o autor de sua história, a falar em nome próprio e a lutar por seu sustento.

Já desenhei os contornos e descrevi algumas características da realidade nos últimos 50 anos no post: O mundo em que vivemos e a mentalidade de dieta. Falei sobre a virtualidade gerando descrença nas palavras e nos fatos, elevando os atos à categoria de garantir existência. Daí decorre o regime do atentado, quando os atos substituem o pensamento e se tornam um valor em si, dando um atestado/garantia de ser. Quanto maior a relação entre ato de mínimo esforço com máxima consequência, maior será a idealização e mais rápida a obsolescência programada dos fatos, objetos, atos e pessoas.

Qual a relação entre a solidão e o mundo em que vivemos?

Muitas vezes procuramos curar o mal da solidão pelos mesmos meios que a geram.

Procuramos parceiros “ideais” em lugares propícios à falsificação, como a internet que oferece, muitas vezes, namoros virtuais e grandes mentiras (mínimo esforço/máxima consequência). Passar pela experiência de conhecer alguém real (não importa porque meio) é trabalhoso, se apaixonar ou se distrair na rede é mais fácil e exige menos de nós.

Idealizamos o amor: salvação a tamponar nosso desamparo – isso não permite valorizar as pessoas a nossa volta, queremos um amor que não existe, e descartamos os amores possíveis.

Obsolescência programada: o amor sempre virá com o próximo parceiro. Não há pessoas super homens, alguns combinam mais conosco, outros menos, mas nenhum é perfeito. O amor não dura para sempre, mas pede tempo para se firmar e existir. É diferente da paixão: intensa e fugaz. O amor se revela nos cuidados diários, nos pequenos atos, suporta as diferenças e as faltas.

Li num email essa semana:

“Dizem que tudo o que buscamos, também nos busca e, se ficamos

quietos, o que buscamos nos encontrará. É algo que leva muito tempo

esperando por nós. Enquanto não chega, nada faças. Descansa. Tu verás

o que acontece enquanto isto.” Em Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola.

Acho que há algo interessante sobre buscas frenéticas e desencontros terríveis nesse pequeno parágrafo acima. Em minha experiência, as possibilidades de amor surgem quando as idealizações decaem, quando a busca frenética se esgota e quando a ilusão se vai. Amor é construção, é ceder nas exigências, é exigir, é também companheirismo e generosidade. Pode e deve ser acompanhado de sexo, que tempera a vida de forma inesquecível. Amor é cuidar, além de ser uma ótima diversão e sobretudo, uma surpresa.


Uma resposta a Um amor

  1. tatiana diz:

    Gostei do texto pois diz muito sobre o amor. Este sentimento deve ser cuidado e regado a cada dia. Amei. Bjs

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