Presentes invisíveis

Texto:  Ivan Martins (Revista Época)

Estamos a quatro dias do Natal, época de embrulhar presentes. Sentar no chão, cercado de caixas e sacolas impessoais das lojas, e transformá-las, sem pressa, em pacotes caprichados e coloridos, cada um deles com a cara de quem vai receber. Eu gosto. Não sei fazer compras, mas embrulhar presentes, (assim como engraxar sapatos, aliás) é algo que eu faço feliz, sem entender direito por quê.

Antes de prosseguir, quero fazer um comentário adicional sobre as compras de Natal. As pessoas reclamam, incansavelmente, sobre o quanto é chata, difícil e despropositada essa maratona natalina. Eu tendo a concordar com elas, mas faço uma ressalva importante: parece que as pessoas que menos gostam de escolher presentes são as que têm mais dificuldade em parar de pensar nelas mesmas. Na hora de fazer compras, somos obrigados a pensar no que o outro gostaria de ganhar, naquilo que ele ou ela deseja, e essa parece ser a parte realmente complicada do processo, para muitos de nós. Somos tão auto-centrados, tão intensamente preocupados conosco, que o exercício de se colocar no lugar dos outros, ainda que por alguma horas, provoca exasperação. Quando vai terminar essa palhaçada de Natal para que eu possa voltar, de novo, a me preocupar somente comigo mesmo?

Feito esse desvio, volto ao essencial, que é simples: o melhor presente de Natal é o sentimento que vem com ele. Tenho de fazer um esforço danado para me lembrar do que eu ganhei no ano passado, mas o carinho e o amor das pessoas que estiveram comigo há 10 e 20 anos continuam inesquecíveis. Assim como as mágoas e as dores que elas deixaram. Objetos desaparecem da memória e da nossa vida, mas as felicidades e os agravos a gente carrega para sempre. Hoje em dia, se eu pudesse, daria a cada uma das pessoas que eu amo uma caixinha repleta apenas com um único sentimento invisível, aquele que eu julgasse mais necessário ao momento da vida delas. Acho que seria mais útil que vestidos, camisas ou sapatos. Melhor até que livros.

Eu já desconfiava, mas ficou evidente no filmeAs canções, do Eduardo Coutinho, que as pessoas, sobretudo as mulheres, precisam desesperadamente aprender a deixar as coisas que não deram certo para trás. O dom do esquecimento seria um presente de Natal extraordinário para pessoas que depois de 10, 20,30 ou 40 anos continuam apaixonadas por alguém que nunca as amou. Quem puder, vá assistir ao documentário do Coutinho. Ele entrevista pessoas comuns e pede que elas cantem a canção da vida delas – e explique o que há por trás da música. Em geral são histórias de amor mal resolvidas, que dominam e resumem existência inteiras. Como diz uma amiga que viu o filme, é impossível não chorar diante de uma coisa tão triste. A capacidade de esquecer e recomeçar, portanto, seria um ótimo presente de Natal para milhões de pessoas.

Outra coisa imaterial que anda em falta é a capacidade de escolher afetivamente. Olhe em volta: há muita gente ciscando incessantemente, e não é coisa de adolescentes e jovens. Pessoas de todas as idades não sabem direito o que fazer com elas mesmas. Não conseguem escolher entre o casamento e a bicicleta. Trincam de ansiedade. As possibilidades são tantas, as pessoas tão tantas, as vontades são tantas… que paralisa. Acho que dentro de alguns anos vamos começar a perceber as consequências dessa epidemia de indecisão, na forma de gente inteiramente solta, (pipas ao vento, como eu ouvi uma vez), cuja vida passou ao largo dos compromissos afetivos. Lá na frente elas não terão onde aportar – e nem saberão como, na verdade. Se, com um presentinho de Natal, essas pessoas pudessem aprender a escolher, tenho certeza de que ficariam mais felizes.

O terceiro e último presente que eu gostaria de distribuir em caixinhas com fitas vermelhas é o altruísmo, a capacidade de pensar nos outros. Isso anda muito em falta, na vida dos casais, inclusive. Viramos um bando de egoístas e crianças mimadas. Cada um para si e dane-se o resto. Eu, eu, eu, eu… As pessoas não querem saber de sacrifícios, pessoais ou coletivos. Não podem ouvir falar de deixar seus desejos de lado, ainda que temporariamente. Todos nós temos direito ao gozo já, orgasmo já, realização plena, total e irrestrita, desde logo. Afinal, ralei para isso, não foi? A ideia de apropriação pessoal e instantânea faz parte da nossa cultura, mas está ficando insuportável. A sociedade e o planeta não aguentam sete bilhões de reizinhos batendo o pé e exigindo ser felizes a cada instante. Dentro das famílias acontece o tempo todo, no interior dos casais. Não dá, né? Sem um pouco de doação essa barca afunda – a da vida privada e a da vida pública. Nada de meias, perfumes e gravatas no Natal. Altruísmo para todos, já!

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