O poder é das mulheres

Texto:  Rogério Simões (Revista Época)

A velocidade com que as mulheres do mundo ocidental conquistaram direitos e espaço social é impressionante. Cem anos atrás, na mais desenvolvida nação daquela época, o Reino Unido, as mulheres ainda nem tinham direito a voto. Foi necessária a avassaladora Primeira Guerra Mundial para que a elite masculina britânica aceitasse esse avanço. Em 1918, após terem sido peça fundamental no esforço de guerra (nas fábricas e no tratamento a feridos), as britânicas finalmente passaram a escolher seus representantes.

Hoje, numa sociedade ocidental moderna, da qual o Brasil é um bom exemplo, as mulheres são detentoras de poder e autonomia quase totais. Onde o poder feminino não é completo, o déficit se deve mais a ajustes econômicos ou resistências pontuais de homens que ainda tentam, inutilmente, manter-se hegemônicos (como nas diferenças de remuneração ou participação em cargos executivos de empresas). Ou ainda porque as mulheres simplesmente não têm interesse em controlar todos os espaços disponíveis. Logicamente, existem vários graus de emancipação feminina, de acordo com a classe social e cultura local. Mas as mulheres das faixas mais esclarecidas são hoje, além de donas do seu próprio nariz, comandantes deste navio que chamamos de sociedade.

Se tomarmos como exemplo uma jovem de classe média do eixo Porto Alegre-São Paulo-Rio de Janeiro, é fácil identificar tal poder. Essa moça esclarecida tem hoje diante de si as chances e o direito de ser feliz como bem entender. Tudo lhe é permitido. Ela pode ser cientista, economista, advogada, empresária, ministra de Estado, ginasta, lutadora de judô, atriz, dançarina, modelo, soldado do Exército, policial, juíza, prefeita, governadora ou presidente da República. Pode ser mãe de um, dois, três, quantos filhos quiser – ou de nenhum. Pode fazer uma produção independente, usando um homem de carne e osso ou o banco de sêmen, ou ser mãe aos 60 anos. Pode ainda sair nua em revistas masculinas, trabalhar como atriz pornô ou ser prostituta, sem por isso ser necessariamente estigmatizada – o sucesso de Bruna Surfistinha comprova a tolerância brasileira à mais antiga das profissões.

Se casada, ela também pode escolher não trabalhar – para cuidar dos filhos, estudar ou apenas descansar – ou trabalhar meio período. No mundo do esporte, as mulheres conquistaram o direito de competir em espaços que eram exclusivos dos homens. Até mesmo os tabus que permanecem são, ao menos em parte, favoráveis às mulheres. Uma mulher que decide se separar do marido, mesmo que seja para ficar com outro homem, costuma ser vista como alguém que luta por sua felicidade – e merece aplausos. Aquela abandonada pelo companheiro é considerada vítima de um homem sem escrúpulos ou coração – e merece apoio. Toda e qualquer opção de vida da mulher é aceita pela sociedade atual.

Ainda há espaço para conquistas, muitos. O aborto, por exemplo, não é legalizado no Brasil – o que é apenas uma questão de tempo. Mas sabemos que uma mulher que queira interromper a sua gravidez conseguirá fazê-lo clandestinamente, e o pai da criança pode não ter voz na decisão. Se ela quiser ter o filho, mesmo contra o desejo do homem, a criança nascerá, e o pai biológico será obrigado a lhe dar todo o apoio estabelecido por lei. E assim deve ser: a garantia dos direitos da mulher implica responsabilidade dos homens, o que não é um problema. Tais direitos compensam o grande esforço feminino imposto pela natureza na missão de gerar e alimentar os filhos, tarefas essenciais para o futuro da humanidade. Garantir esses direitos é um sinal de amadurecimento e força de uma sociedade. Com tanto poder em suas mãos, porém, é importante que as mulheres não se esqueçam da outra metade do mundo. Aquela metade que nunca gerará um filho e não pode sair às ruas para exigir direitos, sob o risco de ser ridicularizada, até porque nem tem objetivos óbvios para perseguir.

Os homens desta nossa sociedade moderna não lutam pelo direito de disputar o campeonato de nado sincronizado ou de aparecer totalmente nu em uma revista feminina. Eles não querem trabalhar meio período, ser sustentados pela mulher ou superar o sexo feminino no competitivo mercado de modelos de passarela. Não podem ser pais sem informar a mãe ou realizar o sonho da paternidade por meio de um banco de óvulos – eles só se tornam pais quando uma mulher decide ser mãe de um filho seu. Aos homens resta apenas fazer o que sempre fizeram: trabalhar e ganhar dinheiro suficiente para sustentar uma família, caso venham a ter uma (não conheço mulher alguma que considere atraente a ideia de um homem desempregado, sem carreira, perdido na vida).

Sem reivindicações, objetivos ou clareza sobre seu papel, esses seres básicos contam apenas e tão somente com a compreensão das mulheres. Querem que elas entendam as suas dificuldades em saber como devem se comportar para conquistá-las e – o mais difícil – fazê-las felizes. Os homens – que no fundo desejam, mais do que tudo, ser reconhecidos e valorizados por aquele que já foi conhecido como o “sexo frágil” – acham cada vez mais difícil agradá-las. Poucos sabem quando o romantismo funciona ou quando é necessário ou recomendável perseguir um maior contato físico. Entusiasmo demais pode causar reação adversa ou até aproximá-lo do crime. Entusiasmo de menos pode ser interpretado como falta de masculinidade. Antigamente, telefonar no dia seguinte de um encontro era essencial para causar uma boa impressão. Hoje muitas interpretam o gesto como invasão de seu espaço individual e sinal de que aquele homem, carente e inseguro, quer mais do que ela está disposta a oferecer. Como se comportar diante dessa independente, assertiva e quase auto-suficiente mulher? O que lhe propor? Como lhe dar o amor e a atenção que o sexo feminino parecia buscar sem desrespeitar seu recém-conquistado espaço individual? Como garantir espaço e independência a uma mulher sem que ela se sinta desprezada?

Em uma recente conversa informal com uma experiente psicanalista, ela me disse que as mulheres estão abandonando o seu caráter feminino. Sob a ilusão de que a conquista da liberdade implicava repetir comportamentos dos homens, passaram a amar – ou não amar – de forma tradicionalmente masculina. Livres da obrigação do casamento, agora se libertam também do relacionamento – aquilo que costumávamos chamar de namoro. Tornaram-se demasiadamente auto-centradas, acreditam não precisar de ninguém e estão, também, perdidas.

A verdade é que os códigos, papéis e responsabilidades ficaram confusos demais para um nível satisfatório de comunicação entre os sexos – e a saída está hoje muito mais nas mãos das mulheres. Paralisados diante das mudanças de regras, sem que um novo código de conduta tenha sido estabelecido, os homens sentam-se no fundo da sala à espera de uma nova orientação geral. As mulheres, agora no comando dessa moderna organização social, devem primeiro se lembrar de que são seres essencialmente femininos. Não precisam tentar se comportar como homens. Com isso em mente, devem tomar as rédeas e entender que os homens necessitam de mais atribuições e reconhecimento, em um mundo onde a voz feminina tornou-se determinante. Conquistado o poder, que elas o exerçam sabiamente.

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