Recaídas e o velho dilema

Texto:  Daniel Oliveira

Todo mundo sabe que relacionamentos que se prezem têm sogras, paixões não correspondidas e ex-namoradas como elementos necessários para compor a trama. E nesse cenário em que tudo pode acontecer, uma das coisas que mais se fala é o relacionamento com ex. Existe vida após o término?

A gente se pega pensando sempre no que nos levou ao término de um namoro ou relacionamento estável: dentre milhares de motivos que vão desde os mais bobos (como a mania dela de te chamar de chuchu) até os mais sérios (como a percepção de que vocês não combinam). E daí a procura pelo erro crucial que fez com que aquele castelo de areia desmoronasse é sempre acompanhada por uma boa dose de álcool e DR (seja consigo mesmo, seja com a ex em questão). A ideia que a gente tem de um relacionamento que chegou ao fim por causa de um erro é bem comum e nos leva a milhares de perspectivas pós-término. Eu acredito que, principalmente aqueles que ainda mantém algum tipo de sentimento pela ex, caem na velha armadilha da “amizade colorida” depois de tudo.

Vamos lá: eles eram amigos e começaram a namorar. De antemão vocês já percebem o risco de perder um ao outro caso a coisa fique feia e não funcione entre eles. Um mês, um ano e pronto! Terminaram! E agora eles vão se manter um tempo afastados e tentar recuperar aquela velha amizade de tempos atrás. Ele ainda gosta do sorriso e do perfume dela. Ela ainda acha que ninguém transa como ele e nenhum abraço se encaixa perfeitamente assim. Voltam a se encontrar, a sair juntos, a trocar sms, a relembrar velhas histórias e TCHARAM: recaída.

Recaída é quando a gente sabe que vai cair do penhasco e não vai andando: se joga. Se joga com força e já sabendo a dor que vai ser bater a cara no chão. Mas dessa vez não é surpresa se a gente errar de novo: é repetição de um erro anterior que foi agradável ou prazeroso.

O grave problema da recaída é que ela acende na gente um monte de dúvidas que pareciam ter sigo apagadas muito bem com o extintor no meio do incêndio que foi o término. Você não sabe o que aconteceu, nem se gosta mais da pessoa. Você não sabe se foi um monte de beijos de uma noite só, ou se aquele abraço e olhar carinhoso significam alguma coisa a mais. O erro da recaída consiste no envolvimento emocional que (mesmo que não se queira) acontece. Acontece porque é bem provável que você não vá descartar um sentimento, mesmo que de lembrança, ligado a todos os momentos bons que você viveu com outra pessoa. Se você tiver a sorte e a evolução espiritual de não sentir mais nada, a recaída mostra seu lado positivo. Ela também pode servir para mostrar que o que passou já foi e não volta mais. Ponto e sinal pra seguir adiante de vez.

Muito bonito e muito poético. Mas e daí? A recaída tem o poder de fazer com que a gente pense em milhares de frases de efeito e situações novas. Se o tempo de término e o da recaída forem distantes, rola aquele bom e velho: será que eu devo tentar de novo? Talvez ela seja uma pessoa diferente agora…  Ela sorri da mesma maneira, ele larga o jogo de futebol para vê-la. Eles vão jantar num restaurante novo e ela percebe que ele aprendeu a contar piadas engraçadas. Ela fez as unhas e usou um vestido daquela cor estranha que ela dizia odiar. “Ela mudou/Ele mudou”. Bingo! Os dois estão com a sincronia perfeita de pensamento que os faz cair diretamente na emboscada do “Acho que dessa vez vai ser diferente. Talvez seja bom tentar”.

Medo, insegurança, mãos suando frio e um riso frouxo na cara. O dilema entre voltar ou não é mais complicado do que se imagina. Por um lado, existe a possibilidade de o tempo ter mudado os dois a ponto das coisas serem diferentes agora e realmente dar certo. Por outro lado, existe a comprovação da experiência anterior de que vocês não funcionaram e que isso tudo pode ser perda de tempo (ou pior: pode ser mais uma chance provável de quebrar a cara e reviver toda a dor e mágoa de outro término com a mesma pessoa). É um momento de colocar na balança o que o coração diz de novo e o que a experiência já disse uma vez. Alguns preferem respeitar o sinal de um suposto destino e deixar o passado no passado. Outros preferem acreditar em segundas chances e se permitem tentar mais uma vez em prol da alegria e das lembranças boas.

No final, o que vale mesmo é pesar a vontade. Por experiência própria, eu digo que fazer o que se quer nesse momento desvairado pode trazer resultados bons. Mas também entendo quem prefere se manter na retaguarda e ficar atrás do escudo pra não se machucar mais ainda. A recaída te dá duas opções que formam um dilema. Mas quem escolhe a experiência que vem a seguir é única e exclusivamente você.

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