A porta

the melody of the night

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto:  Cris Guerra

 
Thiago dorme no chão. Não é sem-teto nem está juntando dinheiro para comprar um colchão. Desde pequeno, dorme no chão por escolha. Ai de quem lhe oferecer uma cama macia.

Na hora de se casar, Thiago se viu diante de um dilema. Como encontrar uma forma de dormir que fosse confortável para as duas partes? A solução veio durante uma reforma. Uma porta sem serventia passou a compor o seu lado do colchão. A porta promovida a cama e o romance alguns degraus acima depois daquele passo. Cada um encontrou seu canto confortável para viver a dois, ora num quadrado, ora noutro – porque o amor também vira para o lado e dorme.

Thiago não convidou sua mulher para dormir no chão. Preferiu levar seu chão para a cama. Mentiria quem dissesse que o mérito é só dele. Coube a ela acolher uma porta. Poderiam ter se demorado em longas discussões, sem enxergar uma saída. Teriam visto nuvens, gramas, carpetes e tampos almofadados, certos de que para o impasse não haveria solução. Mas decidiram que iam encontrar um jeito.

É nessa escolha que mora o encanto capaz de fazer portas virar camas. A matéria do amor não é espuma ou madeira, que se toca com a mão. Nem é tão etérea que não se possa nominar ou sentir. Para alcançá-la, fecham-se os olhos em silêncio. E do escuro surgem imagens em alta resolução, aromas e vozes capazes de um abraço longo.

É preciso amor para enxergar a porta, colocar a mão na maçaneta e fazer dela uma saída. Contudo, amar não é esforço. Tampouco só desejo. Amar é vontade, esse desejo disciplinado e disposto, que não mede o perigo pois nem sequer o enxerga. Amor não é certeza rasa nem dúvida pairando no ar. O amor é.

Seu cultivo é cheio de mistérios, como o das orquídeas. Trabalho duro para quem não aprecia, prazer sem medida para os que se entregam. Vale decifrar o tempo de sol e sombra, a dose de água e adubo, em nome da alegria de ver surgir a flor. Difícil para os indecisos, assustador para os medrosos, como dizia Cecília Meireles. Para os amorosos, é simplesmente amor. Um motivo e tanto para se arriscar. Não é com alguns riscos que se desenha uma porta?

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