A culpa é do estuprador, não da saia

saia curta

Texto:  Ricardo Coiro

“O TRANSPORTE É PÚBLICO, O CORPO DA MULHER NÃO.”, é o que está escrito em um cartaz colado no Metrô de São Paulo. Parece informação demasiadamente óbvia para virar cartaz, não acha? Mas não é. Infelizmente. Pois, de acordo com a pesquisa feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e recentemente divulgada, 65,1% dos brasileiros concordam – inteiramente (42,7%) ou parcialmente (22,4%) – com a frase“Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. A pesquisa também fez o favor de colocar em evidência, para dar razões irrefutáveis àqueles que fingiam não acreditar e para dar mais solidez aos argumentos dos que já lutam para o fim do machismo, a existência de máximas culturais extremamente desfavoráveis ao equilíbrio social entre os gêneros e que, diretamente, colaboram para que as mulheres continuem a sofrer violência moral, psicológica, patrimonial e não apenas física e sexual – como os que têm pouco conhecimento ainda pensam. O que a pesquisa mostra é que, além da monstruosidade conhecida como “estupro físico”, as mulheres também vêm sofrendo, comumente, diversas formas de “estupro psicológico”, ou seja, elas estão sendo forçosamente invadidas por ideias e posturas que as ferem tanto quanto um membro sexual não autorizado. Acredite: certas posturas têm o poder de machucar almas.

De acordo com a pesquisa, percebemos que a maioria dos brasileiros ainda – apesar de já estarmos bem perto da inteligência artificial – pensa à moda burra dos machões dominantes do passado e – o que é pior – continua a propagar os mesmos absurdos que deveriam ter sido enterrados, em caixões fechados, junto com os nossos tataravôs que se achavam os maiorais. Acredite se quiser: tem gente que ainda discorda de punir, com cadeia, o homem que bate em mulher. E, assustadoramente, muitos malucos(as) acreditam que o culpado pelos estupros é o comportamento das mulheres. Então quer dizer que existem animais, à solta e considerados racionais, dizendo que a culpa do estupro é da saia curta e não do estuprador? Sim! Confesso que saber disso me faz pensar que a racionalidade é um privilégio de poucos e não uma característica comum à raça humana. Antes que você vomite mais – se é que já colocou todas as tripas para fora -, eu vou contar mais um dado da pesquisa: tem gente que acha que a mulher casada deve satisfazer o marido na cama, mesmo quando ela não tem vontade. Não é piada! Tem gente que realmente acredita nisso.

Gostaria de descobrir, de repente, que toda a pesquisa não passou de uma pegadinha inconsequente do João Kléber ou de um viral de alguma marca de desodorante. Porém, quando mais vasculho a minha memória e nela procuro fatos capazes de mostrar que a pesquisa pode não representar a realidade, mais percebo que ela – a pesquisa – é de fato um retrato fiel do Brasil de hoje e de tudo que as mulheres vêm reclamando e muitos, enquanto gargalham, continuam a considerar “mimimi” de moça malcomida. Mas não é: gente morre e se mata por isso.

Se pararmos para pensar, perceberemos que o desrespeito tem acontecido, também, dentro de nossas próprias casas e que, muitas vezes, sem que sequer notemos o quão danosos à sociedade estamos sendo, somos – homens e mulheres – os responsáveis pela perpetuação de ideais nocivas à mulher. Cuidado! Você, apesar de achar tudo isso horrível, pode, de alguma maneira – por menor que seja, estar contribuindo para que o machismo não seja extinto. Todos, sem exceção, precisamos repensar nas coisas que acreditamos e naquilo que pretendemos deixar como herança ao futuro.

Está na cara que o machismo é cultural e que a solução, embora não seja fácil e nem imediata, é cortarmos o cordão umbilical que mantemos – às vezes até sem perceber – com a pior parte do pensamento antigo. Como fazer isso? Não é tão simples, mas, em minha opinião, além da já óbvia necessidade de punições extremamente severas aos que cometem crimes contra a mulher, precisamos encontrar formas de conscientização efetivas e sem violência desacompanhada de informação – pois os tapas, sozinhos, dificilmente conseguem formar uma mentalidade melhor e geralmente fazem com que aquele que apanhou se feche ainda mais às ideias novas – para fazermos com que a nossa própria geração pare de enxergar uma coisa MUITO séria como “frescurite aguda” de menininha mimada. Pois não é: muitos maridos, – talvez até mais do que você imagina -, ancorados em uma mentalidade machista, ainda se acham no direito de bater nas mulheres e – o que é pior – de não responder legalmente por isso. Como se eles, por terem casado com elas, tivessem adquirido o inadmissível direito de puni-las fisicamente.

É natural e completamente compreensível que uma mulher que, todos os dias, sofre violências absurdas como as que foram apontadas na pesquisa e como as que são mostradas no noticiário, queira agir com violência contra qualquer um que esteja em algum grau contaminado pela cultura machista, porém, não creio que assim conseguiremos, realmente, mudar o cenário e deixar um mundo melhor para nossos filhos.  Os pontapés, mesmo os bem-intencionados – se é que algum pontapé pode ser classificado assim – acabam aumentando a repulsa que alguns homens e também mulheres, infelizmente, possuem em relação às ideias feministas. Repito: eu entendo a revolta e não acho que vocês – mulheres que apanham feio da nossa cultura desde o útero – não tenham razões para perder a cabeça e deixar o sangue quente influenciar na hora de escolher a forma para tentar mudar o jogo. Mas, agora é a hora de virarmos, de verdade, a mesa. E para isso, melhor do que começarmos uma guerra entre os sexos – coisa que a ideologia feminista não busca, já que ela luta contra o machismo e não contra o homem – é encontrarmos maneiras de trazermos os seres, uma a um, para o lado de quem já percebeu a enorme seriedade do assunto. Claro que em situações como uma “encoxada” no trem, por exemplo, não vejo solução melhor do que uma porrada bem dada no agressor, seguida de cadeia. Porém, precisamos ter a sabedoria para perceber que em alguns casos – como na hora de mudarmos a mentalidade de alguém que faz piadas que colocam a mulher em posição social inferior ao homem – ainda é mais eficiente respirar fundo, contar até cem e, apesar da vontade lógica de coibir a ignorância com socos, tentar explicar o quando uma simples piada tem o poder de manter viva uma chama ruim. Assim, como eu realmente espero, talvez consigamos mais um para o nosso lado – alguém capaz de fazer com que as futuras gerações, em nenhum nível, tomem conhecimento das babaquices que hoje, tristemente, são maioria numérica em pesquisa.

Ainda acho que a educação – não apenas a escolar – é a melhor maneira para escorraçarmos o que há de pior em nossa cultura. E, como estamos em uma época na qual tudo pode ser compartilhado, não devemos desperdiçar as chances de divulgar os bons pensamentos e de, assim – ensinando o lado humano da moeda -, fazer com que as ideologias machistas percam totalmente o espaço e com que passem a ser enxergadas, por 100% do universo – e não apenas pela amostra pesquisada -, com nojo e como vergonha do passado. Chegou a hora de descriminarmos o machismo.

Antes de findar este texto, sinto-me obrigado a falar sobre algo importante que também foi levantado pela pesquisa: o machismo que afeta negativamente a vida de inúmeras mulheres, em muitos casos e ironicamente, também é propagado por mulheres. Ou seja, não é por ser mulher que você não precisa – assim como eu -, da maneira mais imparcial possível, reavaliar seus pensamentos. Pois você, sem notar, pode ser mais uma das brisas que fazem o desfavor de manter o fogo do machismo aceso.

A cultura, por pior que seja, pode ser mudada por gente disposta a não perpetuar, nem através de brincadeiras, ideias ruins.

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