Quanto vale uma avó?

avó

Texto:  Ricardo Coiro

Ela se foi e, diferente das tantas outras vezes em que já havia saído de casa, não exagerou no perfume doce e não armou, com laquê, o inusitado cabelo roxo. Apenas partiu, sem deixar bilhete de “volto-logo” ou pegada olfativa no elevador social.

Ela se foi, de repente, sem me pedir para vigiar a torta de frango no forno ou para mexer bem, com a colher de pau, o arroz-doce. “Mexa bastante para não empelotar!”, era o que ela me dizia, todas as vezes, antes de me deixar incumbido de cuidar, enquanto ela fofocava no telefone, daquilo que ela fazia para garantir a alegria estomacal da “netada” (coletivo de netos) e pelo prazer de me fortalecer – como ela costumava se referir, fingindo não perceber a diferença entre a gordura e o músculo, ao ato de me engordar. E girar a colher, sem parar, como se ela fosse o ponteiro de um incansável relógio suíço, com certeza, valeu a pena. “Aquilo sim era arroz-doce de verdade!”, é o que eu costumo dizer, ensopado de nostalgia, quando arrisco comer outro – nunca tão doce – arroz-doce. “Aquilo sim era torta de frango de verdade!”, é o que eu faço questão de falar, sem medo de parecer repetitivo, depois de engasgar com a secura de uma torta de frango feita por qualquer outra. Mas ela, para a minha tristeza, partiu sem deixar as receitas completas, ou melhor, deixou tudo, tim-tim por tim-tim, escrito em um caderninho, mas levou, para sempre, o ingrediente mais importante e aquele que dava um sabor único e insuperável a tudo que ela fazia: o sorriso que ela não conseguia esconder sempre que eu repetia o prato, pela terceira vez. Hoje sei: claro que eu repetia porque era extremamente gostoso. Mas eu repetia, principalmente, para vê-la sorrir satisfeita. Melhor do que o mais delicioso arroz-doce, do que a mais molhadinha das tortas de frango, do que a lasanha que me fazia desafiar as queimaduras na língua e do que o bife à milanesa mais crocante do Brasil, sem dúvida, era vê-la sorrir. E para isso, bastava dizer: “Só mais uma colherada, vó.” E ela, apesar de ouvir muito bem, sempre colocava duas.

Ela, apesar de tricampeã de crochê e da inquestionável habilidade de fazer com que panquecas dessem perfeitos mortais, no telefone, antes de partir, digitou apenas o “1″ e o “9″. Infelizmente, não conseguiu digitar o “2″. Não, apesar da idade, ela não se esqueceu do número. Apenas teve que ir, apressadamente. Ela que tanto teve tempo para ver a vida passar na janela, no dia mais triste da minha vida, teve que sair apressada.

Ela não pôde nem usar os muitos potes de molho de tomate que, até hoje, ainda estão no congelador e que eu, nem mesmo para tentar matar a saudade que sinto da macarronada dela, tenho coragem de tirar de lá. Aliás, ainda não tenho coragem nem para abrir o congelador. Também não consigo, de jeito nenhum, tirar da cabeça a última vez em que a vi, já sem vida: ela estava lá, no exato canto do sofá em que sempre ficava, porém, não arregalou os olhos quando eu gritei “Vó!” e não mexeu as pálpebras nem quando eu a balancei, imprudentemente, esquecendo-me completamente de que ela possuía ossos porosos. Continuou imóvel e, para quebrar a rotina que parecia imutável, naquele dia, ela não viu Cidade Alerta e não me pediu para tomar cuidado com o mundo. “Cuidado! O mundo anda muito violento!”, ela sempre me dizia, quando eu já estava de saída. “Violento? Que exagero, vó. É tudo culpa dos programas de tevê que a senhora vê e que só mostram coisas ruins”, eu retrucava, antes de dar tchau e de tentar evitar que ela beijasse o meu ouvido. E acredite: sinto saudade daqueles beijos ensurdecedores

Além da saudade imortal, dos potes de molho, do caderninho de receitas e das lembranças da melhor parte da minha infância, ela deixou, também, uma enorme coleção de violetas e de samambaias – plantas que até hoje faço questão de regar com a mesma dedicação que eu demonstrava ao mexer o arroz-doce. Rego, pois sei que ela, se tivesse tido tempo para solicitar algo antes de partir, certamente, teria me pedido para que eu não me esquecesse de aguar as plantas e para, como ela diariamente fazia, continuar dialogando com aquele monte de vegetais. Por isso, hoje eu rego, carinhosamente, cada vaso e – que o meu psicólogo não me leia – falo com cada uma das verdinhas que minha avó deixou. Eu digo: “Sinto muita saudade da minha avó!” e elas – as violetas e as samambaias -, impotentes como eu me sinto diante da evidente finitude da vida, apenas escutam e pingam. Elas fingem que é orvalho e eu finjo que é cisco no olho.

Uma resposta a Quanto vale uma avó?

  1. Glenda Cardelly diz:

    Que texto lindo, chorei. rs Lembrei da minha avó agora. Um beijo.

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