Sexualidade Masculina: Medicalização, Virilidade e Fragilidade

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Texto: Carla Andrea Ziemkiewicz

( Artigo produzido na Pós graduação em Educação Sexual da UNISAL – 06/2014 )

Introdução

Uma das características dos tempos atuais que mais tem promovido mudanças significativas no comportamento sexual dessa geração é a crescente utilização de medicamentos para disfunção erétil, o Viagra e seus similares. A função para a qual destinava sua indicação, que por si só traria enormes benefícios aos reais portadores de disfunções, foi enormemente extrapolada pelos diversos meios de comunicação de massa e pelas amplas campanhas de marketing das indústrias farmacêuticas, com claros interesses lucrativos.

Este artigo pretende discutir questões ligadas ao uso destes medicamentos como artifício para aplacar inseguranças masculinas relacionadas ao crescente liberalismo feminino, ao medo do desempenho e à negação do processo de envelhecimento.

Sexualidade, medicalização, questões de gênero e relações de poder

A sexologia pode ser analisada através do mapeamento de 3 fases históricas do seu desenvolvimento enquanto “scientia sexualis”, conforme Russo. A primeira centrada nas sexualidades periféricas ao casal heterossexual, as chamadas perversões. Surge na virada do século XX na Europa, especialmente na Alemanha e seriamente afetada pela Segunda Guerra Mundial. Era dominada pelo estudo das perversões e na patologização do sujeito.

A segunda sexologia surge entre 1922 e 1948, segundo André Béjin, com foco no sexo marital, que ocorre logo no pós guerra.  Em 22 com Wilhelm Reich e a descoberta da potência orgásmica e em 48 com Alfred Kinsey com a publicação do Sexual Behavior of the Human Male, passando a tema central dos estudos da sexologia o orgasmo.

Ocorre um deslocamento geográfico da Europa para os Estados Unidos da América e uma transformação nos estudos, fazendo uma distinção entre sexualidade e reprodução. Inicia-se, segundo Béjin, a concepção de uma sexualidade autônoma cujo objetivo é o prazer.

Nos EUA, nas décadas de 60 e 70, destaca-se o importante trabalho de William Masters e Virgínia Jhonson,  com suas pesquisas.

Vale à pena ressaltar que neste período histórico, intensas transformações políticas e culturais ocorreram, com início neste mesmo cenário dos EUA, como os movimentos feministas, movimento gay, festivais como Woodstock etc. Todo o universo da sexualidade humana é marcado por esta palavra de ordem: “liberação”

As pesquisas de Masters e Jhonson estabelecem a chamada “Resposta Sexual Humana”. Ela constitui os parâmetros da fisiologia sexual “normal” e indica o tratamento das “inadequações” através de aprendizagem e treinamento do comportamento, ou seja, no âmbito psicológico e envolvendo o casal.

Russo destaca o importante conceito, até então, das inadequações como orgânicas e  também relacionais, sendo que, segundo a autora, a partir dos anos 90, a concepção da “função sexual”, que diz respeito à relação entre o casal, é substituída e reduzida ao funcionamento do aparelho genital.

Conforme analisa Russo em seu artigo, “ocorrem dois caminhos paralelos: intensa politização da sexualidade e uma não menos intensa psico-medicalização da sexualidade”.

Ocorre a biomedicalização da sexualidade concebendo uma visão puramente orgânica do sexo. No início do século XX, Wilhelm Stekel formulou um conceito psicogênico da impotência, ou seja, diz respeito à totalidade do sujeito, aos fatores situacionais e históricos de sua vida. Em 61, Lombardi Kelly propõe uma definição médica da impotência, ressaltando a incapacidade de ter ou manter relações sexuais através de uma ereção satisfatória. Assim, a impotência genital passa a se distinguir por sua causa (física, funcional ou psicogênica).

Paulatinamente toda a concepção da sexualidade como um complexo humano envolvendo corpo físico, funções, sensações, emoções, imaginário, relações, cultura e sua interação, reduziu-se a um aspecto puramente físico, funcional, cuja medicação promete curar ou melhorar o desempenho.

Durante os anos 80 e 90, as terapias sexuais promovem uma biologização do psicológico, especialmente na psiquiatria e ocorre uma grande expansão dos avanços tecnológicos na indústria farmacêutica.

A medicalização é definida como “um processo pelo qual problemas não médicos se tornam definidos e tratados como problemas médicos, usualmente em termos de doenças e desordens” (Conrad, 2007:4).

Conforme aponta Keneth, Rohden e Cáceres em seu artigo Ciência, gênero e sexualidade :

“ De modo complementar, preconceitos de toda ordem podem ser legitimados por olhares enviesados da ciência, contribuindo … na construção de discursos essencializados sobre diferenças de gênero que inevitavelmente colocam as mulheres em condição ‘naturalmente’ inferior, ou que transformam aspectos do ciclo de vida das mulheres em doenças – como a desordem disfórica pré-menstrual- ou, no mínimo, como objeto incessante do esquadrinhamento das pesquisas epidemiológicas.

A medicalização da sexualidade também se expressa pela produção de drogas para ‘disfunção sexual’ (originalmente masculina, com imenso sucesso de vendas que tem levado, até o momento, a repetidas tentativas de produção de quadros diagnósticos comparáveis para as mulheres), que reduzem a expressão da sexualidade à performance, sem nenhuma consideração quanto ao desejo e à produção e compartilhamento do prazer.”

Ao contextualizar o fenômeno da medicalização e a enorme influencia dos meios de comunicação de massa, nas diversas mídias, além do forte investimento da indústria farmacêutica nas campanhas publicitárias, junto ao público leigo e aos profissionais médicos, encontramos em Azize uma interessante análise antropológica de três importantes medicamentos, de uso frequente a partir do final dos anos 90 pela classe média urbana. “Prozac, Xenical e Viagra,  se destacam na multidão de fármacos à venda nas farmácias, seja por seu sucesso comercial, seja pelo grande apelo simbólico junto ao público consumidor, ou ainda por ambos os motivos. … Apesar de terem funções muito diferentes, estas pílulas foram reunidas pelos meios de comunicação de massa sob um mesmo rótulo que me interessou muito, os “remédios do estilo de vida” ou “life-style drugs”. Estas três marcas não são as únicas, mas são as de maior visibilidade, chegando a funcionar como representantes ou sinônimos do seu tipo de medicamento.”

Ao longo das últimas décadas uma lenta, porém progressiva transformação vem operando na sociedade como um todo. Os modelos sobre os quais foram construídas as relações entre os gêneros, seus papéis até então forte e rigidamente estabelecidos, a questão do poder, em toda a sua amplitude e enraizamentos, estiveram sob constante pressão e destituição.

A absoluta falta de modelos com os quais se identificar e seguir, representou, sobretudo para os homens, detentores do patriarcado, fonte de angústias e inseguranças. Frente à situações sobre as quais não possuíam habilidades psíquicas para lidar, porque também não foram educados para isso, encontraram na ciência a via de resposta com a qual poderiam se reapropriar e se reempoderar não apenas da sua sexualidade mas do seu papel dominante na sociedade. Ao afastar as questões emocionais e relacionais como causas exclusivas ou concomitantes das suas disfunções sexuais, ele nega sua fragilidade, suas inseguranças diante de uma parceira “potente” e “exigente” sexualmente, seu profundo receio diante do seu próprio corpo envelhecido sob a ilusão do “eterno” desempenho sexual e poder viril.

Referências:

Russo,J. A Terceira Onda Sexológica: medicina sexual e farmacologização da sexualidade. Revista Latino Americana – Sexualidad, Salud y Sociedad n.14-ago.2013-pp.172-194

Cherman, S. Ejaculação precoce; sintoma ou mito? Revista Brasileira da Sexualidade Humana, vol.10,n.2,p.207-216,1999

Kenneth,C. ,Rohden,F & Cáceres,C  Ciência, gênero e sexualidade  The Sexuality policy watch report

Azize,R A química da qualidade de vida: uso de medicamentos e saúde em classes médias urbanas brasileiras Portal das ciências sociais brasileiras

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