Senhas de amor

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Texto:  Mô Amorim

Enquanto vasculho meus papéis para apresentar ao homem carrancudo da Receita Federal, encontro um bilhetinho dela dizendo: ”Passo aqui depois das seis para beijar teu corpo inteiro”. Estremeci, não por causa da iminência do homem carrancudo pegar o bilhete, mas porque ela não está mais comigo.
Ainda lembro dela entrando na sala e rindo. Que risada gostosa que enchia toda a casa! Lembro do seu jeito de falar dos cabelos, tão inimigos dela, por ela mesma. Lembro dela espiando o apartamento da vizinha e preocupada dizia que a tal deveria ter morrido, afinal estava há oito horas na mesma posição. Lembro do seu jeito de beber vinho e ficar bêbada fácil e dizer que nunca mais iria beber. E depois disto, querer me beijar e passar os dedos em minhas pálpebras delicadamente. E rir doida entre os beijos.
E de encostar em mim à noite, com medo da noite. Talvez fosse apenas desculpa, mas ela segurava a barra do meu pijama como se não quisesse sair daquele sonho que era a gente.
Ciumenta e chata, muito chata! Deliciosamente implicante. Eu ficava bravo e ela, depois ria. No café, sem açúcar, ela me olhava devagar. Olhava pra mim e gostava de me ver falar, como nenhuma outra. Eu palestrava e ela assistia a tudo, vidrada em mim.
E de repente, eu tinha uma ideia e ela topava, fosse o que fosse: cinema, jardim, banquinho de praia. Eu não sabia que era ela, que era ela, que era ela a mulher da minha vida.
Mas fui achando tudo aquilo normal, e não dei muita bola. Eu a tratei exatamente como o Manual de Macho ensina.
E sem perceber, tudo foi ficando meio cinza, fosco. E ela já não achava graça. Na verdade, não era de mim que ela não achava graça, mas da situação, do leite que eu deixei derramar, do mimo que eu deixei de dar, de como eu deixei de sonhar.
Ela foi ficando ressentida, um misto de doente e de cismada. Eu fui ficando bravo, distante e irritado.
Ela já não me ouvia, não estava mais ali. De tão transparente que era, eu a vi longe de mim. E em vez de abraçá-la, de pedir que voltasse, eu a deixei ir. Eu não insisti.
E ela foi aos poucos e me deixou louco. Nem bilhete deixou, mas também, nem precisou. O último foi este aqui, dizendo que beijaria todo meu corpo depois das seis.
Agora cá estou, aguardando meu número na senha do visor para apresentar meus papéis ao homem carrancudo, no meio de uma vida normal, sentindo saudade de uma garota fenomenal.
Ontem ainda pensei em ligar, escrever uma carta, sei lá! Como entrar em seus poros de novo? Como reconquistar seu olhar? Eu soube que ela foi para Floripa, foi morar lá. Eu ainda penso nela. Ainda levanto pensando em lhe fazer café. Será que ela dorme esparramada? Será que ela tem outro cara? Será que ela ainda acorda à noite assustada? Ás vezes, tão frágil parecia. Noutras vezes, tão rainha me inspirava. Seus tímidos sentidos me arrepiavam.
Meu número é chamado e eu derrubo todos os papéis. Seu bilhete some no chão extremamente branco de mármore. Eu começo a gelar. O número acende de novo no visor de senhas. Outra pessoa vai em meu lugar. Eu preciso achar… foi o último bilhete, a senha de amor que eu deixei passar.

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