Do que morrem os relacionamentos?


desencontrosTexto: Ricardo Coiro

Do que morrem os relacionamentos? Hein?
Morrem de falta de tesão? Com certeza.
Morrem de excesso de ciúme? É claro.
Morrem soterrados pelo comodismo? Todos os dias.
Morrem por causa de fios de cabelo encontrados em paletós? Sem dúvida.
Mas os relacionamentos morrem, principalmente, porque permitimos que a nossa vaidade nos transforme em pessoas incapazes de evitar pequenos atritos e de tolerar minúsculos deslizes.
Ao contrário do que você pensa, irmão, a maioria dos relacionamentos não vai a óbito por causa da descoberta de amantes ou devido à ocorrência de grandes tragédias: a morte de uma relação, geralmente, é consequência direta do desgaste gerado por pequenos – mas muito frequentes! – arranhões.
Não entendeu? Serei mais claro: a expressão “Não enche o meu saco!”, por exemplo, quando desferida apenas uma vez, não nos parece muito nociva a uma relação. Certo? Agora pense no poder destrutivo que a mesma expressão adquire quando repetida mais de vinte vezes. Pensou? Agora some isso a outras atitudes estúpidas recorrentes e, sem dúvida, terá a receita perfeita para a corrosão de um laço.
Não só isso: envenenamos as nossas relações aos poucos, em doses homeopáticas, com a ajuda dos microscópicos sapos que insistimos em não engolir, “De jeito nenhum!”, “Nem morto!”, “Nem fodendo!”. E sabe por que não engolimos? Por causa do nosso orgulho, cara. Só por isso! Somos demasiadamente orgulhosos para notar que, a cada vez em que nos esforçamos para transformar esbarrões em guerras, mais uma gota de sangue drenamos da relação. E assim – de picuinha em picuinha, de pelo em ovo em pelo em ovo, de grito em grito, de acusação em acusação e de aspereza em aspereza – vamos minando as chances de as nossas relações darem certo, sobreviverem a nossos braços intorcíveis.
Matamos os nossos relacionamentos com o auxílio das inúmeras miudezas que, em vez de simplesmente deixarmos “pra lá” – e fingirmos que nunca aconteceram! -, afiamos até que se tornem um argumento para ofensas cortantes e uma justificativa que nos iluda a ponto de acharmos que temos o direito de elevar o tom de voz.
O que eu sugiro? Sugiro que faça mais vista grossa, que deixe mais escorregões “pra lá”, que seja mais tolerante em relação aos defeitos dela, que controle essa sua vontade de provar que você está sempre certo e que não se esqueça de que mesmo um perdão pedido de joelhos, muitas vezes, é incapaz de apagar da memória as palavras ditas sem pensar. Sacou? Não, meu caro, isso não é fazer papel de otário. Pelo contrário, irmão, pois aprender a domar o ego em prol da sobrevivência de uma relação, com certeza, é uma das atitudes mais inteligentes que conheço.

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