Uma Baleia Azul em um oceano de sofrimento subestimado

Texto: Amanda Mont’Alvão Veloso-HuffPost Brasil

.

“Eu confiava no jogo. Eu acreditava que aquilo ali ia me fazer ter coragem de me suicidar.”

Estas são palavras de Mariana (nome fictício), de 15 anos, moradora do Rio de Janeiro, em uma entrevista, gravada em vídeo ao jornal O Globo. Segundo a garota, ela passou a achar que a mãe não a amava. Mariana estava participando do desafio da Baleia Azul – uma série de 50 “tarefas” ordenadas nas redes sociais por um “curador”, sendo a última delas o suicídio. A mãe da adolescente, porém, descobriu a participação da filha a tempo de a impedir de continuar.

“A morte é o que eu mais procurei. É o que eu mais queria”, explica Mariana, que foi internada em hospital da zona oeste do Rio após desistir do desafio. Ao deixar a internação, ela tentou o suicídio. Desistiu quando percebeu o sofrimento da mãe e voltou a se tratar – ela relata sofrer de depressão. Estar no desafio da Baleia Azul parecia, para a garota, a saída para a dor insuportável que vivia.

Com o tratamento, ela fala em possibilidades que não envolvam a morte:

“Se eu fosse ela [a pessoa], não entraria [no jogo]. Isso só vai causar coisas ruins. Ao invés de parar sua tristeza, só vai aumentar. E vai acumular, acumular. Quando você vir, já vai estar vazio por dentro e por fora. Eu pediria a ela pra poder apostar uma única chance numa coisa que ela gosta. Talvez, sei lá, uma música boa que ela ouviu na rádio e de que ela goste. Talvez ela possa escutar aquilo e se sentir melhor. Porque eu sei o quanto que dói, mas não vai ser um jogo que vai fazer você parar de sentir dor. Nem a morte.”

Ao longo desta semana, os brasileiros têm debatido sobre os aspectos macabros, assustadores e sensacionalistas da Baleia Azul. Mas pouco se mergulha no oceano que possibilita sua existência, que é o sofrimento de quem adere ao desafio, nascido como um boato e feito real por alguns adolescentes no mundo, incluindo o Brasil.

“Quando os jovens encontram, no meio virtual, possibilidades de circulação social, por um lado os pais acham ‘ah, meu filho está dentro de casa, protegido’. Mas, ao mesmo tempo, eles estão expostos a uma série de outros estímulos que os pais desconhecem”, pondera ao HuffPost Brasil o psicanalista Tiago Corbisier Matheus, doutor em Psicologia Social pela PUC-SP e autor do livro Adolescência: Clínica Psicanalítica (Casa do Psicólogo, 2012).

“O jovem vai se experimentando em situações de risco em um espaço que ele poderia estar em tese mais preservado. Mas ele está mais exposto em um outro sentido”, completa Corbisier.

Dois casos de morte estão sob investigação policial, em Mato Grosso e na Paraíba, além de uma tentativa de suicídio no Rio de Janeiro e cinco em Curitiba, o que levou a Secretaria Municipal de Saúde da capital paranaense a emitir um alerta aos pais e responsáveis de crianças e adolescentes. Uma vendedora em Bauru (SP) descobriu a participação do filho e buscou tratamento especializado.

De fake news a uma realidade de horror

O desafio da Baleia Azul surgiu como uma notícia falsa divulgada na Rússia e que se espalhou a partir de 2015, explica o presidente da Safernet, Thiago Tavares, a uma reportagem do G1. O psiquiatra Daniel Martins de Barros, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC) de São Paulo, destaca que o site de verificação de boatos Snopes.com chegou à notícia original, publicada pelo periódico russo Novaya Gazeta. O serviço mostrou como a fake news era recheada de inferências e suposições, sem fatos apurados.

Lembremos que a “pós-verdade” (post-truth) foi eleita a palavra do ano em 2016 pela Universidade de Oxford. Segundo o dicionário, o substantivo “se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais“. Ou seja: Se o desafio da Baleia Azul não existia, se materializou a partir dos medos que ele encapsula. Tais pavores foram amplamente reverberados, e as redes sociais são palco fértil para que manifestações assim proliferem.

O medo tem trânsito fluido entre o virtual e o real. Em 1938, a população da costa leste dos EUA entrou em pânico quando Orson Welles, em um programa de rádio, noticiou uma suposta invasão de marcianos. Era véspera de Halloween (Dia das Bruxas). Milhares tentaram fugir, com aglomerações nas ruas e congestionamentos, além de sobrecarregarem as linhas telefônicas. A narração da invasão, feita em forma de programa jornalístico, como Welles habitualmente apresentava, nada mais era do que uma dramatização do livro de ficção científica A Guerra dos Mundos, do escritor inglês Herbert George Wells.

Longe do lúdico e colada no horror, a História recente do Brasil tem uma lamentável tragédia provocada pela divulgação de boatos nas redes sociais. Fabiane Maria de Jesus, 33 anos, casada, mãe de duas meninas, morreu depois de ter sido linchada por uma multidão de pessoas no Guarujá (SP), em 2014.

Um boato espalhado no Facebook dizia que uma mulher estava sequestrando crianças da região para realizar rituais de magia negra. A mesma página de onde surgiu o post alarmista chegou a divulgar que se tratava de um boato, mas os compartilhamentos do desmentido pelos usuários da rede não foram tão intensos quanto a disseminação da mentira. Ao ser vista na rua, um morador associou Fabiane ao retrato divulgado, e as agressões começaram. A foto em questão pertencia a uma página de humor.

Sem oceano, não há baleia

Apesar de todo o tabu envolvido no suicídio, pensar em se matar não é atributo exclusivo dos adolescentes e está presente em toda a História da humanidade. Pensar é diferente de querer e de tentar. Inclusive, pensar em se matar pode fazer que o sujeito redescubra valor em viver, e pelo que viver.

Porém, o pensamento suicida tem possibilidade de se transformar em um suicídio em situações de vulnerabilidade. Para uma vida cujo sofrimento se tornou insuportável, intolerável, ele se apresenta como o ato derradeiro. É querer morrer para fazer a dor de viver parar. Por isso é um ato tão ambivalente, “entre o querer morrer e o querer viver de maneira diferente”, explica a Associação Brasileira de Psiquiatria.

Em uma sociedade que aplica regime de silêncio ao suicídio, fica difícil abordar a questão em suas complexidades e estabelecer políticas de prevenção. Não deve parecer surpresa que 13 Reasons Why, uma série de ficção, tenha se tornado extremamente popular entre adolescentes e adultos que não podiam externar seus pensamentos “proibidos” de morte.

A recusa do sofrimento em nossas vidas tem sido uma regra geral da cultura ocidental. Pensar o sofrimento de adolescentes, então, torna-se impraticável. Entre dores não ouvidas ou abafadas por não saberem como expressá-las, jovens muitas vezes se veem confinados a uma vivência de emoções subestimadas.

Por mais angustiante que seja, eliminar o “jogo” da Baleia Azul não soluciona o que desperta o interesse. Há pelo menos dez anos, as redes sociais, e também a dark net (parte da deep web), oferecem diversos canais de incentivo à automutilação e à morte. Em 2006, Vinícius Gageiro Marques, o “Yoñlu”, de Porto Alegre (RS), se matou depois de ter sido estimulado ao suicídio e auxiliado por pessoas anônimas na internet. Ele estava passando por um tratamento de saúde mental.

O desafio da Baleia Azul tem um viés criminoso preocupante, uma vez que os chamados “curadores”, por meio de mensagens enviadas pelas redes sociais, estimulam ou instigam o suicídio entre os participantes. O funcionamento do jogo tem uma lógica voyerista, pela qual um jovem cumpre tarefas, como se automutilar, e as registra em vídeos enviados ao curador. Não há como avançar no desafio sem submeter vídeos ou fotos que comprovem o cumprimento de cada um dos passos.

A má intenção dos curadores aliada à predisposição dos participantes é que fazem do desafio da Baleia Azul um perigo real. Porém, a mesma estrutura que acolhe o crime tem sido infiltrada por pessoas dispostas a alertar os adolescentes envolvidos. Ao se cadastrar no jogo, um blogueiro da Gazeta do Povo foi abordado por diversos jovens se passando como curadores com o objetivo de conversar com os participantes e convencê-los a abandonar o desafio.

Além de ser necessário punir os criminosos que fomentam a incitação ao suicídio de internautas fragilizados e acompanhar, com proximidade, os ambientes virtuais frequentados pelos adolescentes, é preciso debater com urgência as causas da fragilização. O número de suicídios entre adolescentes e jovens no Brasil aumentou 15,3% entre 2002 e 2012, segundo a mais recente edição do Mapa da Violência, de 2014. É a terceira maior causa de mortes nessa faixa etária, perdendo apenas para homicídios e acidentes de trânsito.

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), tirar a própria vida é a segunda principal causa da morte para pessoas de 15 a 29 anos e já mata mais que o HIV. A cada 40 segundos, uma pessoa se mata no mundo. A cada dia, pelo menos 32 brasileiros se matam. Para cada caso fatal há pelo menos outras 20 tentativas fracassadas.

Se houvesse prevenção, 9 entre 10 pessoas ainda estariam vivas, de acordo com a OMS. “Como podemos prevenir o suicídio se não falarmos sobre ele? Como podemos perder o medo da morte se não falarmos sobre isso?”, questiona ao HuffPost Brasil o psicólogo chileno Marco Antonio Campos, representante do Chile na Associação de Suicidologia para América Latina e Caribe.

Segundo Corbisier, psicanalista especialista em adolescentes, o desafio da Baleia Azul ocorre tanto em um cenário de incerteza, com poucas perspectivas para os jovens em meio à crise social, política e econômica, como em um contexto de segregação. “O suicídio seria uma tradução mais literal daquilo que metaforicamente faz parte do processo adolescente contemporâneo, que costumo chamar de um ritual singular de passagem do infantil ao adulto”, explica.

“Vale a pena pensar para qual adolescente caberia esse desafio. Não seria para jovens que crescem em uma cultura com segregação intensa, com toda a preocupação diante da insegurança? Jovens que, na sua infância, deixam de frequentar a rua e têm muito menos convívio com o espaço público em função da preocupação dos pais? Mas a adolescência é exatamente esse momento em que o jovem gostaria de deixar esta condição de subordinado, que é associada à condição de filho, e passar ser visto como semelhante. Ele se vê convocado a se desprender das referências familiares. Se ele tá cerceado por isso, esse momento de transição pode se tornar vertiginoso. É o que me parece que está acontecendo por aqui.”

Nesse contexto, a depressão, cuja epidemia já foi alertada pela OMS, é fator a ser destacado, acrescenta Matheus. “Ela é uma patologia ampla a ser enfrentada, mas é pouco visibilizada. Diante das dificuldades de enfrentá-la, na própria complexidade do problema, os governos falam menos do que o problema pede.”

Particularmente nas metrópoles brasileiras, Corbisier diz ser perceptível um adoecimento generalizado em várias faixas etárias. Algumas vezes, esse adoecimento é constatado, mas em outras, é silencioso.

A busca por sentido

A dimensão da morte na adolescência não se restringe a um perfil socioeconômico, mas pode se apresentar de maneiras distintas. Para Corbisier, os jovens moradores de bairros mais afastados do centro, com menor presença do poder público e, consequentemente, com maior violência, tanto por parte da polícia quanto por parte dos grupos de crime organizado, já estão confrontados por desafios que têm uma dimensão mortal em seus cotidianos.

“Nesse sentido, desafios como este da Baleia Azul aproximariam, de alguma maneira, jovens privilegiados a um universo que já é enfrentado por jovens menos privilegiados, em espaços não muito distantes uns dos outros.”

O educador comunitário Alex Mauser percorre escolas da periferia de São Paulo para conversar com jovens. Ao HuffPost Brasil, ele diz perceber que os adolescentes querem atenção dos adultos, mas não a recebem. “Sinto que um jogo assim os atrai pela falta de atenção, de estrutura familiar ou por revolta.”

“O Baleia Azul me faz pensar no recrutamento do Estado Islâmico. Há uma grande preocupação na Europa quanto ao que faz jovens, nascidos em estados de promoção de bem-estar social, se disporem a ir para uma situação que flerta com a morte e que traz desafios que, em última instância, são mortais”, acrescenta Corbisier.

“Parece-me que existe uma dimensão de fazer alguma coisa que faça sentido para esses jovens, abraçando uma causa, um ideal ou uma utopia em uma imagem de heroísmo.”

Com o Baleia Azul, muitos pais têm buscado informação sobre como prevenir a entrada dos filhos no desafio ou como convencê-los a abandonar o jogo, mantido sob a ameaça de os “curadores” fazerem mal à família do participante. O diálogo se destaca como uma necessidade urgente, destaca o psicanalista:

“Os pais estão sendo postos à prova. O percurso que o jovem realiza é fruto de uma construção familiar. Filhos que têm interlocução com os pais vão estar menos suscetíveis a essas tentações e atrações. Os jovens que têm nos pais uma referência que não é nem autoritária nem infantilizante, no sentido de fazer tudo pelo filho sem que ele possa tomar decisões gradualmente ao longo do seu desenvolvimento, provavelmente não serão impelidos a darem passos radicais como esses jogos. Pais que têm um canal de diálogo com os filhos podem estar atentos ao que está mobilizando esses jovens.”

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV – Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é sigiloso e não é preciso se identificar. O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar redes de apoio disponíveis.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: