Que sejamos atropelados

crianças

Texto: Gustavo Gitti

Todos nós provavelmente compartilhamos uma mesma motivação: ser feliz e ajudar as pessoas. Mas com qual felicidade? Casamento, viagens, apartamento financiado, ideias bonitas sobre a vida… Só isso? Poderíamos aspirar pela estabilidade de nosso mundo interno independente de fatores externos, pela sabedoria de reconhecer a realidade além dos nossos jogos e comentários, pela compaixão capaz de beneficiar qualquer um que se aproximar… Somos pouco ousados. Mal nascemos e já fomos entulhados de tarefas, quase sem tempo para sonhar quem podemos ser — muito menos mirando lá em cima. E quando sonhamos não temos tempo de nos dedicar, de praticar.

Damos um olhar tão inferiorizante para nós mesmos porque ficamos o tempo todo prestando contas a eus passados, atrelando nosso desenvolvimento a uma história bem costurada, a novelas que contamos para nós mesmos antes de dormir e ao acordar.

A própria sensação de “eu” surge inseparável de uma visão narrativa da vida, como se tudo só acontecesse de modo causal e coerente, bloco a bloco, o que nos faz imaginar qualquer transformação humana ou espiritual como uma espécie de epopeia do eu em se tornar um “super eu”, turbinado, 2.0, construído em um percurso heroico, cheio de histórias cruzadas e insights geniais. (Ainda vou falar mais sobre como pensamos que ser feliz é poder chegar ao fim da vida e contar uma bela narrativa…)

Mais do que celebrar os feitos de 2013, quero abrir espaço para não me identificar tanto com conteúdos mentais e histórias pessoais. Em vez de me preencher do passado, do mesmo modo que me estufo de comida no Natal, quero colocar todas as experiências na mesa e liberá-las de uma só vez: “Isso aí não sou eu.”

Que nosso planejamento dê errado. Que 2014 seja extremamente caótico a ponto de sair do controle. Que não tenhamos tempo de resolver cada draminha. Que sigamos vazios e despreparados — só assim a vida nos atravessa por inteiro. Que nenhum cantinho nosso permaneça trancado, escondido da realidade. Que você e eu desistamos logo de se aperfeiçoar, de se lapidar, de aprender novos truques para parecer uma pessoa melhor. Que a gente troque mil motivos de se alegrar pelo sorriso panorâmico que não precisa de motivo. Que a transformação seja pela raiz, dissolvendo o autocentramento com métodos poderosos, até não sobrar ninguém obstruindo o céu.

Que não dê tempo de acabar o que começamos. Que sejamos atropelados por seres de olhar profundo e coração desperto.

* Publicado originalmente na revista Vida Simples (janeiro 2014).

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