Um lugar pior que o fundo do poço

Junho 29, 2017

kelly vivanco

Texto: Paula Abreu – Revista Vida Simples

Era um dia comum, cinco anos atrás. Eu trabalhava tranquilamente no departamento jurídico de uma grande multinacional de petróleo e gás. Era um dia como outro qualquer, e eu não fazia a menor ideia do que estava por acontecer. Horas depois, meu chefe me chama. Avisa que a empresa estava passando por uma reestruturação e algumas vagas estavam sendo extintas. E a minha era uma delas. No mesmo momento, tive que entregar a chave do carro da empresa que eu usava, o laptop, o blackberry. Uma amiga recolheu alguns pertences meus e colocou na minha bolsa, e me entregou tudo na sala de reunião onde eu estava sendo demitida. Sim, eu nem sequer voltei mais à minha mesa. O resto das minhas coisas seria entregue em uma caixa alguns dias depois, na minha casa. Recebi um voucher para poder ir embora de táxi. Lembro da sensação daquele momento como se fosse hoje: um alçapão se abrindo sob meus pés e meu coração caindo, caindo, caindo… num poço sem fundo! (É, nesse dia eu descobri que há um lugar pior do que o fundo do poço!). Talvez você saiba do que eu estou falando… Já tive clientes e alunos que disseram ter sentido o mesmo ao ouvirem de seus maridos que queriam o divórcio, ou ao receberem a notícia da morte de alguém querido, ou no diagnóstico de uma doença grave. São instantes em que parece que deixamos de ser nós mesmos.
No instante da minha demissão, eu não era mais a minha versão advogada. No momento do divórcio você deixa de ser a sua versão “casada”. Na hora do diagnóstico de uma doença deixamos de ser a nossa versão “saudável”. As reações possíveis são inúmeras quando estamos nesses momentos de encruzilhada da vida. Eu poderia ter me revoltado. Xingado Deus (ou, no mínimo, o meu ex-chefe). Poderia ter me entregado ao desânimo e à desesperança. E, olha, se você me perguntar por que isso não aconteceu, não sei explicar. Mas tenho uma teoria. Hoje eu acredito que lá, no poço sem fundo, é o lugar onde vivenciamos o sofrimento na forma mais profunda que a alma é capaz de sentir. Mas, talvez por isso, é o lugar onde a graça se torna mais acessível. O poeta sufi Rumi escreveu que “a ferida é o lugar por onde a luz entra em você”. Há cinco anos, uma ferida profunda me abriu finalmente para uma luz infinita. Foi a partir daquela ferida que eu percebi que não queria mais trabalhar apenas para pagar contas e comprar coisas caras para impressionar pessoas. Percebi que trabalho sem se colocar a serviço do outro não valia nada. E isso mudou a minha vida. Se hoje você está em queda livre no poço sem fundo, está tudo bem. Agradeça. Se abra para a luz. Porque a escolha que você vai fazer agora – por mais difícil que pareça – é que vai definir a sua vida daqui a cinco anos.
Anúncios

Vida a dois

Junho 19, 2017

afinidade1

Texto: Leandro Quintanilha – Revista Vida Simples

Relacionar-se é como estacionar um carro sedã numa vaga bastante apertada. É preciso manobrar com precisão o automóvel, entender onde se está a cada momento, olhar para a frente e pelo retrovisor quase ao mesmo tempo, considerar os pontos cegos. Só que, às vezes, você é o motorista e, às vezes, o flanelinha, cuja função é dar alguns toques ao condutor, com a vantagem de quem vê (o outro) de fora. Do lado de dentro do carro (ou de si), o motorista nunca sabe ao certo quando avança muito ou recua demais. Tem de contar, então, com a orientação externa para evitar colisões. Viver a dois é se dedicar a essa alternância numa baliza que nunca termina completamente. Ora parece que coube direitinho, ora é preciso recomeçar. A metáfora do relacionamento estável como um estacionamento difícil, expandida aqui, foi citada pelo psicólogo paulista Frederico Mattos durante a entrevista concedida para esta reportagem. “De modo geral, as pessoas buscam um parceiro por um motivo oculto, seja para preencher a falta de amor na infância, seja para fazer do outro o tutor de sua felicidade”, conta o especialista, que é o autor do livro  Relacionamento para Leigos (Alta Books). Mas não dá para se abster dessa responsabilidade – é preciso também compartilhar o volante. No curta de animação Why Our Partners Drives Us Mad (Por Que Nossos Parceiros Nos Tiram do Sério), disponível no YouTube, o filósofo suíço Alain de Botton explica que cada pessoa ama com uma parte muito vulnerável de si. A visão romântica do amor sugere que as pessoas ingressam em relacionamentos problemáticos por engano, enquanto uma leitura psicológica do assunto entende que essas escolhas expressam necessidades inconscientes – o modo precário com que se aprende a amar e a ser amado na infância. Por isso, tem cônjuge que depende o tempo todo da aprovação do outro, como um filho inseguro, e parceiros que se provocam até que um deles sucumba em uma explosão de raiva, como uma criança birrenta. Terminar um relacionamento construído nessas condições talvez não seja a melhor resposta, porque o problema seguiria mal resolvido, disponível para reprise com o próximo parceiro. Em vez disso, o filósofo sugere uma pausa para a reflexão, uma pergunta crucial: o que uma pessoa madura faria agora? Às vezes, é o que basta para recobrar o cuidado com o outro e o respeito consigo mesmo, cada um invocar a melhor versão de si. Os dois não são mais crianças indefesas, vitimadas pelas falhas dos pais. Podem agora pensar e agir como adultos, desde que se lembrem disso. Sem essa consciência, os parceiros podem se tirar do sério até pelo que parece banal, como um impasse na escolha de um filme ou uma camiseta esquecida fora do lugar. A comunicação fica truncada, reduzida a cobranças, acusações e silêncios. Na verdade, se algo incomoda, é importante. “Em geral, esses pequenos desencontros dizem respeito a desentendimentos maiores que ainda não são verbalizados”, pondera a psicanalista e terapeuta de casais Anna Burg. É por isso que terapia ajuda tanto, individualmente ou em dupla. Cônjuges que têm acesso a esse recurso tendem a tomar mais consciência de suas reais motivações e podem, dessa maneira, tratar delas diretamente em vez de se aterem aos pretextos que as mascaram. Se não cuidada, a falta de comunicação gera frustração, raiva e culpa num ciclo que se retroalimenta. Os antigos companheiros passam a sabotar a relação e podem se tornar agressivos, indiferentes, desleais. Por outro lado, quando o casal consegue administrar bem suas questões, pormenores como o volume da televisão ou o paradeiro do saca-rolhas perdem importância.

Insights úteis
Mas como ser, ao mesmo tempo, um motorista mais atento e um flanelinha de fato prestativo quando a terapia está fora de questão para o casal num determinado momento? Insights da psicologia, da filosofia e até da neurociência podem ser de grande ajuda. Porque compreensão é sempre um belo começo – seja de si, do outro, do ideal do amor romântico ou dos relacionamentos conjugais como realmente são. Os mecanismos orgânicos do amor estão atrelados a um relacionamento íntimo vigente em nós, nunca mencionado em contos de fadas e comédias românticas – o casamento entre a mente e o cérebro. A sensação de aperto no coração, o disparar, tudo isso é real, mas desencadeado por neurotransmissões e descargas hormonais. Tudo começa na cabeça – o coração é apenas o mensageiro, só dá o recado. É preciso separar a base biológica da qual somos feitos do que é cultural e pode ser desconstruído. O ideal do amor romântico só faz bem quando inspira a delicadeza com o outro, a valorização da união. Quando se torna um catalisador de expectativas extravagantes e fantasiosas, só favorece a decepção e o ressentimento, como a fraude do “felizes para sempre”. A verdade é que relacionamentos têm fases porque cumprem ciclos psíquicos já claramente identificados pela ciência: a paixão, o amor romantizado e o amor companheiro, nessa ordem, conforme enumera o neurocirurgião Fernando Gomes Pinto. “Ao entender essas etapas, é possível tomar decisões melhores por si mesmo e pelo relacionamento”, argumenta o médico. Fernando é autor da obra Neurociência do Amor (Planeta), em que apresenta uma visão menos romântica – porém bastante elucidativa – das dinâmicas da vida a dois pela perspectiva cerebral. “Entre todas as espécies, o Homo sapiens é o único que tem circuitaria cerebral suficiente para sentir e perceber emoções tão elaboradas como o amor”, afirma. É tempo de fazer uso desse vasto conhecimento.

Amor de fases

Uma pessoa desfruta, em média, de aproximadamente 86 bilhões de neurônios, capazes de realizar um número insondável de sinapses. É essa extraordinária engenharia em você que se apaixona e ama. A fase da paixão, mais motivada, ansiosa e sexualizada, costuma durar de seis meses a dois anos e é exaustiva para a mente. “O cérebro tende a simplificar qualquer tarefa com o tempo – inclusive a paixão”, explica Fernando. Na sequência, vem o amor romantizado, em que a libido ainda é um componente importante e presente, mas na qual a relação tende a ser vivida com mais serenidade. Na terceira fase, a do companheirismo, o desejo perde espaço, ao mesmo tempo em que aumentam o vínculo e o compromisso. Bem, no melhor dos cenários. “Essa virada é o que os norte-americanos chamam de ‘coceira dos quatro anos’, um ponto de transição ao qual um terço dos relacionamentos não resiste.” O problema é que a cultura não compactua com a biologia e muitas pessoas se frustram com a dissipação do furor inicial. Além disso, a progressão das fases não ocorre em sincronia – um dos cônjuges pode mudar de estágio antes do outro, favorecendo o desencontro.
Com o aumento da expectativa de vida, a fase do companheirismo pode se prolongar por décadas – para os que chegam a conhecê-las, claro. Ao mesmo tempo, os parceiros são hoje cada vez mais expostos à felicidade editada de outros casais, compartilhada à exaustão nas redes sociais. Como se sabe, no entanto, é sempre fora do enquadramento que os relacionamentos enfrentam seus maiores desafios. O trunfo dos casais contemporâneos é a possibilidade de poder compreender toda essa complexidade – e conversar abertamente sobre ela. Saber de tudo isso, conhecer e também aceitar os processos biológicos e sociais atrelados ao amor pode ser de grande ajuda para qualquer relacionamento. É o que o psicólogo americano John Flavell, professor da Universidade de Stanford, batizou nos anos 1970 como metacognição. Para ele, o conhecimento que as pessoas adquirem sobre as próprias emoções pode ajudá-las a manejar esses sentimentos para realizar objetivos concretos. Como o tema aqui em questão: preservar um grande amor. Não se deve, contudo, contar com um amor para sempre. É um pressuposto perigoso, porque põe pressão sobre os cônjuges, ao mesmo tempo em que despreza circunstâncias ainda a se redefinirem. No Brasil, segundo o IBGE, um a cada quatro casamentos termina em separação. Por isso, a melhor estratégia talvez seja manter uma perspectiva racional diante do tempo – é possível que acabe eventualmente; se calhar de uma conexão verdadeira persistir até que a morte os separe, que seja uma grata surpresa.

Paliativos importantes

A diminuição gradual da libido, queixa frequente em relacionamentos longevos, pode ser contida com uma combinação de estratégias. Uma delas é a prática regular de atividade física, que estimula a produção da testosterona no organismo, hormônio diretamente relacionado ao tesão. Uma dieta balanceada que inclua alimentos afrodisíacos, como o cacau e a pimenta, é outro recurso a considerar – pode aumentar tanto o desejo quanto o prazer sexual. Desfrutar de bons momentos juntos também funciona: o prazer compartilhado ao ver um filme, sair para jantar ou fazer uma viagem também estimula o interesse mútuo, renovando em cada parceiro memórias felizes relacionadas à união. Outro elemento crucial é a presença de contato físico. Muitos casais já fazem uso desse recurso inconscientemente, com o chamado “sexo de reconciliação”, intenso o bastante para restabelecer a conexão em momentos de fragilidade. Mas há outras abordagens. Pesquisas mostram que casais que se comunicam bem – que se expressam e se ouvem – também tendem a se manter juntos por mais tempo. O mesmo vale para aqueles que se valorizam: a admiração mútua, demonstrada pela troca regular de elogios sinceros, fortalece o vínculo.

Amor persistente

Juntos desde a adolescência, os publicitários Raphael Ramos e Marcello Rullo, hoje com 29 e 26 anos, vivem precocemente um relacionamento duradouro. Eles se conheceram em 2006. Conversaram por seis horas num parque de Bragança Paulista, interior de São Paulo, antes do primeiro beijo e não se desgrudaram mais. Foram morar juntos ainda muito novos, dois anos depois. “Foi muito faseado”, lembra Marcello. É que, naquele início, compartilharam o teto de forma atípica, em quartos diferentes de uma mesma república, dividida com colegas que não sabiam dos dois. Era como se estivessem numa fase preparatória, estagiários no próprio relacionamento. Em seguida, mudaram-se para uma quitinete, para dar início a uma vida a dois. Deu certo e, em seguida, migraram para São Paulo, onde fizeram carreira, cada um a seu modo: Marcello, político e sociável; Raphael, racional e organizado. No tempo livre, compartilhavam afinidades culturais e gastronômicas, mas mantinham particularidades: Marcello sempre foi workaholic, caseiro e bagunceiro, e Raphael era organizado em casa, onde preferia não passar tanto tempo. Os dois viveram a crise dos sete anos pontualmente e se separaram. A retomada da convivência ocorreu quatro meses depois. Eles perceberam que ainda se amavam, mas que precisavam ajustar a comunicação. Decidiram parar de falar uma coisa querendo dizer outra e de levar adiante discussões apenas pela simples competição retórica. Só deu certo porque se mantiveram determinados. “Amadurecer junto é uma experiência profunda demais para se pôr um fim assim do nada”, explica Marcello. O sociólogo polonês Zygmund Bauman, que morreu recentemente, sempre foi um crítico do que chamava de “amor líquido”, a fluidez dos relacionamentos contemporâneos. Se hoje o casamento não é mais uma condenação
perpétua, se agora as pessoas têm liberdade para mudar de ideia e seguir em frente – o que, em muitos casos, é louvável –, também há o perigo denunciado pelo sociólogo de nunca se estabelecerem conexões verdadeiras e vagar em busca de uma satisfação que jamais se concretiza. Talvez, no entanto, possa haver uma outra forma de amor líquido. Não aquele que apenas flui sem se deter em vale nenhum, mas um que se transforme no caminho. Um dos exemplos mais emblemáticos de um amor em constante reformulação foi o relacionamento dos filósofos franceses Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, retratado na biografia Tête-à-Tête (Objetiva), de Hazel Rowley. Eles nunca se casaram nem tiveram filhos; optaram por manter uma parceria amorosa autoral que durou mais de 50 anos. Desde 1986, quando ela morreu, seis anos depois dele, os dois compartilham o mesmo túmulo no Cemitério de Montparnasse, em Paris. Ao longo das décadas, Simone e Jean-Paul adaptaram as regras de seu contrato íntimo, chegando a um modelo próximo do que se conhece hoje como amor livre, em que mantinham namoros paralelos sem ressentimentos – em geral, davam-se bem com os amantes um do outro. Às vezes, até compartilhavam romances passageiros. Num dado momento, quando o desejo se mostrou desgastado pelo tempo, foi acordado que não manteriam mais relações sexuais entre si, mas prosseguiriam como parceiros de vida até o fim, como de fato aconteceu. Simone escreveu certa vez que relacionamentos longevos nunca ficam prontos, porque desfrutam de um equilíbrio fugaz, que nunca se estabelece em definitivo. Por isso, quem ama precisa sempre se manter atento. Nada está dado.  Quando a vaga parece segura, sob a sombra oportuna de uma árvore exuberante numa tarde de sol, o casal pode reclinar os bancos para se permitir um descanso temporário, lado a lado. Que seja restaurador… Porque, de tempos em tempos, será preciso manobrar outra vez.

Atração e energia

Junho 5, 2017

areia

Texto: Patrícia Gebrim

Recebi uma pergunta muito interessante:

_ Atraímos pessoas na mesma frequência em que vibramos, ou atraímos pessoas com vibrações diferentes, algumas vezes com vibrações inferiores, para que as ajudemos a evoluir?

Não penso que exista uma regra. O Universo não cabe nas nossas caixinhas.
A meu ver, atrairemos aquilo que for magnetizado na nossa direção por esse nucleo divino que nos habita. A nossa alma atrairá exatamente as pessoas e experiências necessárias para a nossa evolução.
Não temos controle disso.
Nossa liberdade estará em escolhermos a forma como lidaremos com o que se materializa em nossa vida.

Se atraímos alguém em uma vibração inferior, podemos pensar que podemos sim ajudar

essa pessoa a evoluir, mas não creio que aqui estamos apenas para ensinar.

Temos também algo a aprender com essa experiência.

Então aceitem o que quer que venha.
E aprendam.
Tudo está a serviço da evolução.
O Universo é sempre perfeitamente orquestrado e ninguém surge em nossa vida sem que exista um potencial de crescimento para ambos nesse encontro.

Apesar disso, embora não tenhamos controle, creio que podemos “interferir”no processo de criação, naquilo que se materializa em nossas vidas através da observação e da elevação de nossa vibração.
Quanto maior a nossa consciência, mais nos tornamos capazes de fazer isso. Quanto mais vamos elevando nossa vibração, mais vamos purificando nosso campo energético e abrindo espaço para atrairmos alguém que vibre numa frequência também mais elevada, se isso estiver de acordo com os propósitos de nossa alma.

Há tanto que não sabemos… Podemos ter um breve vislumbre desse mundo que pulsa por trás das ilusões, mas é preciso que aceitemos e honremos o divino mistério da vida.
O grande desafio da evolução, a meu ver, seria o de seguirmos adiante, na direção da luz, mesmo sem conhecermos exatamente o caminho.
Pensarmos menos e nos dispormos a dar o nosso melhor ao que quer que se apresente.
Fazermos a escolha de seguir na direção da luz, acreditarmos que exista um sentido por trás desse aparente caos, e uma inteligência amorosa nos acompanhando silenciosamente em cada passo de nossa viagem de volta para casa.


Amor em gerúndio

Junho 1, 2017

casal

Texto: Diana Corso – Revista Vida Simples

Lembro de suas mãos de ruivo, muito brancas, sarapintadas de sardas. É um detalhe, mas para mim marca do começo. Erguendo os olhos delas, um cabeludo silencioso, barbudo, cujo olhar parecia não perder nada. Ele era amigo dos amigos com quem eu morava. Tínhamos uns 20 anos. Foi um início tão simples que não tenho muito claro como começamos a conversar. Fora das mãos, que lembro com precisão, o resto é um território de cenas esfiapadas. Foi a essas cenas que recorri quando nossas filhas começaram a perguntar como foi que nos conhecemos. A história das mãos é vaga para contar a uma criança, nem sei se a mencionei. Falei de uma carona de caminhão para a praia, de reuniões em que nos víamos, da sua frequentação à casa, que foi transformando-se em visitas para mim. A pergunta acabou virando motivo de piada, elas gostavam de repeti-la em separado para ambos, para ver-nos atrapalhados, desfiando a cada vez uma história diferente, na tentativa de explicar o inexplicável: como começa um amor, como duas pessoas se escolhem. Elas diziam que inventávamos, afinal ter tantas versões para um fato era sinal de que era tudo mentira. O problema é que uma escolha amorosa não é um fato, é um processo, e acabaram entendendo isso mais tarde, quando lhes tocou amar. Preferimos um começo de cenas inesquecíveis de paixão arrebatadora, só depois
elas cederiam espaço a uma percepção mais realista denominada amor. Esse é o protótipo, embora talvez seja mais comum que o amor vá chegando sorrateiro e se instalando feito um posseiro no coração. O amor acontece em gerúndio. As crianças querem saber como seus pais se conheceram porque devem sua concepção a esse acaso. Seria um alívio pensar que há um destino tramando para que esses amantes fossem conduzidos um para o outro. Que uma vez tendo-se visto, os pais tenham ficado hipnotizados um pelo outro. Algo deveria garantir que elas estavam fadadas a nascer, pois aquelas criaturas não deixariam de encontrar-se e perceber que se amavam. Odiamos ser fruto de um acaso, do imponderável. Já nós, adultos, temos tanta fé na paixão para não admitir quantas oportunidades de amar perdemos enquanto ficamos esperando ser fulminados pela flechada de cupido. No amor costumamos fazer quase tudo errado, por isso ele deve sua existência menos ao encontro inevitável, mais à persistência do interesse. Quando vou a uma loja e interesso-me por comprar algo, mas fico em dúvida, os vendedores dizem que é o último e se vacilar vou perdê-lo. Respondo que preciso de tempo, se for para ser meu, vai me esperar, se não, é porque não era para ser. No amor, se pudermos ir percebendo-o aos poucos, vacilando até, se for para ser nosso, ele terá tempo de nos esperar.