Amor em gerúndio

casal

Texto: Diana Corso – Revista Vida Simples

Lembro de suas mãos de ruivo, muito brancas, sarapintadas de sardas. É um detalhe, mas para mim marca do começo. Erguendo os olhos delas, um cabeludo silencioso, barbudo, cujo olhar parecia não perder nada. Ele era amigo dos amigos com quem eu morava. Tínhamos uns 20 anos. Foi um início tão simples que não tenho muito claro como começamos a conversar. Fora das mãos, que lembro com precisão, o resto é um território de cenas esfiapadas. Foi a essas cenas que recorri quando nossas filhas começaram a perguntar como foi que nos conhecemos. A história das mãos é vaga para contar a uma criança, nem sei se a mencionei. Falei de uma carona de caminhão para a praia, de reuniões em que nos víamos, da sua frequentação à casa, que foi transformando-se em visitas para mim. A pergunta acabou virando motivo de piada, elas gostavam de repeti-la em separado para ambos, para ver-nos atrapalhados, desfiando a cada vez uma história diferente, na tentativa de explicar o inexplicável: como começa um amor, como duas pessoas se escolhem. Elas diziam que inventávamos, afinal ter tantas versões para um fato era sinal de que era tudo mentira. O problema é que uma escolha amorosa não é um fato, é um processo, e acabaram entendendo isso mais tarde, quando lhes tocou amar. Preferimos um começo de cenas inesquecíveis de paixão arrebatadora, só depois
elas cederiam espaço a uma percepção mais realista denominada amor. Esse é o protótipo, embora talvez seja mais comum que o amor vá chegando sorrateiro e se instalando feito um posseiro no coração. O amor acontece em gerúndio. As crianças querem saber como seus pais se conheceram porque devem sua concepção a esse acaso. Seria um alívio pensar que há um destino tramando para que esses amantes fossem conduzidos um para o outro. Que uma vez tendo-se visto, os pais tenham ficado hipnotizados um pelo outro. Algo deveria garantir que elas estavam fadadas a nascer, pois aquelas criaturas não deixariam de encontrar-se e perceber que se amavam. Odiamos ser fruto de um acaso, do imponderável. Já nós, adultos, temos tanta fé na paixão para não admitir quantas oportunidades de amar perdemos enquanto ficamos esperando ser fulminados pela flechada de cupido. No amor costumamos fazer quase tudo errado, por isso ele deve sua existência menos ao encontro inevitável, mais à persistência do interesse. Quando vou a uma loja e interesso-me por comprar algo, mas fico em dúvida, os vendedores dizem que é o último e se vacilar vou perdê-lo. Respondo que preciso de tempo, se for para ser meu, vai me esperar, se não, é porque não era para ser. No amor, se pudermos ir percebendo-o aos poucos, vacilando até, se for para ser nosso, ele terá tempo de nos esperar.
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