Separar para não divorciar

Julho 3, 2018

Texto: Vera Iaconelli

A psicanálise tem as melhores e as piores notícias sobre o amor. Os românticos que me desculpem, mas o amor pode ser bem melhor quando encarado sem nenhuma firula. Um amigo dizia: “minha vida já é ótima e junto com minha mulher é excelente. Sem ela, volta a ser ótima”.

A mim soa como uma boa forma de encarar o amor. Um psicanalista seria menos otimista quanto à vida ótima, mas está valendo. Em “A Trégua” (1960), romance de Mario Benedetti, o amor é um oásis efêmero no deserto da vida. Por vezes encontramos esse outro em quem apostamos para tornar a vida menos árida ou, se preferir, excelente.

Na clínica psicanalítica, no entanto, são recorrentes os casais que se odeiam há décadas sem abrir mão do casamento, acusando o parceiro de ter lhes roubado os melhores anos de suas vidas. Alguns seguem o raciocínio de que foram traídos, pois quando casaram a pessoa mostrava-se de um jeito, para depois revelar-se o oposto

Casal de Barueri (SP) decidiu trabalhar em escritórios diferentes para aprender a separar o pessoal do profissional – Renato Stockler – 24.nov.2011/Folhapress
Sentem-se enganados há anos, mas não assumem que reiteram o engano do qual se queixam a cada dia que permanecem casados. Vale a pena reler o conto de Rubem Alves (Retorno e Terno, 1992) no qual ele descreve um diálogo com o Diabo sobre a melhor cola para manter o casamento.

O Diabo argumenta que o ódio é a cola mais potente. Justifica sua tese afirmando que quem odeia não quer ver o outro livre e feliz. Daí a insistência em permanecer infelizes juntos. Já no amor, a separação pode ser mais fácil, pois prioriza-se a felicidade e a liberdade do outro.

A vida de casal pode funcionar como um álibi desconfortável, no qual justificamos o fato de não fazermos o que queremos porque o outro nos impede. Caso estivéssemos sozinhos faríamos tudo e algo mais. Daí a dificuldade de ficar só e ter que assumir que talvez a covardia nos assole. O uso do álibi só não é confortável por que causa ressentimentos e frustrações cada vez maiores conforme os anos avançam.

Nos casais é comum acusarmos o outro de ser ele mesmo! As características de cada um são alçadas a defeitos. O tímido passa a ser acusado de ser tímido e o exuberante de ser exuberante. Quem gosta mais de sexo é tarado/insaciável, quem gosta menos é frígido/impotente. Usamos o outro para afirmar nosso jeito como o jeito certo e, ainda por cima, viver através dele sua vida de tímido ou exuberante, por exemplo.

Uma relação na qual o outro não seja usado como desculpa para nossas escolhas, nem para reafirmar nossa forma de ser, tampouco para reencenar nossas fantasias inconscientes, implica num certo grau de separação. Implica em assumir que não somos capazes de fazer uma pessoa feliz, nem ela terá o poder de nos fazer feliz, ainda que a vida possa ficar bem melhor tendo alguém bacana ao lado.

Muitos casais chegam juntos à análise desejando “ou temendo” que o analista lhes diga quem está certo e quem está errado. Nada mais equivocado do que imaginar vítimas e algozes num casal que se mantém como tal.

Aos poucos, vão percebendo que a melhor forma de permanecer casados é separando as questões de cada um, desenganchando suas fantasias e correndo o risco de estar juntos apesar do ódio, não por causa dele. Correndo o risco porque quando o que une é o amor e não o ódio, como dizia o Diabo, a cola é mais frágil. O filme “Desobediência”, em cartaz, dá uma aula sobre o assunto.

A melhor forma de se divorciar também é aprendendo a se separar. Todos conhecemos casais divorciados há anos que nunca se separam de verdade, permanecendo fiéis ao ex seja na adoração, seja na execração.

Para quem sofre porque acha que o parceiro é a última bolacha do pacote ou a causa de todos os males, a sugestão é simples. Tenha uma vida.

Anúncios