Armadilhas

Fevereiro 1, 2013

mulher-caminhando-na-praia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto:  Ana Jácomo

Vamos combinar que muitas vezes não há segredo algum, inimigo algum, interrogação alguma, nenhuma entidade obsessora além da nossa autosabotagem. A gente sabe que esticar a corda costuma encolher o coração, mas a gente estica. A gente sabe que nos trechos de inverno é necessário se agasalhar, mas a gente se expõe à friagem. A gente sabe que não pode mudar ninguém, que só podemos promover mudanças na nossa própria vida, mas a gente age como se esquecesse completamente dessa percepção tão sincera. A gente lembra os lugares de dor mais aguda onde já esteve e como foi difícil sair deles, mas, diante de circunstâncias de cheiro familiar, a gente teima em não aceitar o óbvio, em não se render ao fluxo, em não respeitar o próprio cansaço.
Eu pensava em todas essas armadilhas enquanto caminhava na Lagoa, um dia de céu de cara amarrada, um tiquinho de sol muito lá longe, tu…do bem parecido comigo naquela manhã. Eu me perguntei por que quando mais precisamos de nós mesmos, geralmente mais nos faltamos. Que estranha escolha é essa que faz a gente alimentar os abismos quando mais precisa valorizar as próprias asas. Como conseguimos gostar tanto dos outros e tão pouco de nós. Eu me perguntei quando, depois de tanto tempo na escola, eu realmente conseguirei aprender, na prática, que o amor começa em casa. Por que, tantas vezes, quando estou mais perto de mim, mais eu me afasto. Eu me perguntei se viver precisa, de fato, ser tão trabalhoso assim ou se é a gente que complica, e muito. Como conseguimos ser tão vulneráveis, ao mesmo tempo que tão fortes. Somos humanos, é claro, mas ser humano é ser divino também.
Eu não tenho muitas respostas e as que tenho são impermanentes, como os invernos, os dias de céu de cara amarrada, os lugares de dor, os abismos todos, o bom uso das asas, os fios desencapados, as medidas e as desmedidas. Tudo passa, o que queremos e o que não queremos que passe, a tristeza e o alívio coabitam no espaço desta certeza. Eu não tenho muitas respostas. O que eu tenho é fé. A lembrança de que as perguntas mudam. Um modo de acreditar que os tiquinhos de sol possam sorrir o suficiente para desarmar a sisudez nublada de alguns céus. E uma vontade bonita, toda minha, de crescer.

Anúncios

Plenitude

Janeiro 4, 2013

plenitude

Texto:  Ana Jácomo

Quando a minha mente está calma, eu acesso uma confiança que é descanso e proteção. Uma fé genuína na preciosidade da vida. Sinto que tudo em mim se reorganiza, silenciosamente, o tempo todo. Que isso tem mais a ver com o meu olhar, com a natureza das sementes que rego, do que eu possa perceber. Minha expectativa, tantas vezes ansiosa, de que as coisas sejam diferentes, dá lugar à certeza tranquila de que, naquele momento, tudo está onde pode estar. Em vez de sofrer pelas modificações que ainda não consigo, eu me sinto grata pelas mudanças que já realizei. E relaxo.
Quando a minha mente está calma, eu acesso uma clareza que me permite sentir, com mais nitidez, que há uma sabedoria que abraça todas as coisas. Que o tempo tem uma habilidade singular para reinventar nosso roteiro com a gente, toda vez que redefinimos o que, de verdade, nos importa. Que há um contentamento perene no nosso coração. Um espaço de alimento amoroso. Uma fonte que buscamos raras vezes, acostumados a imaginar a felicidade somente fora de nós e a deslocá-la para distâncias onde não estamos.
Quando a minha mente está calma, os sentidos se expandem e me permitem refinar sensações e sentimentos. Posso saborear mais detalhes do banquete que está sempre disponível, mesmo quando eu não o percebo. Nesse lugar de calma e clareza, não há nada a desejar. Nada a esperar. Nada a buscar. Nenhum lugar onde ir. Eu me sinto sentada sob a sombra de uma árvore generosa, numa tarde azul sem pressa, os pássaros bordando o céu com o seu balé harmonioso. O meu coração é pleno, nenhuma fome.

Plenitude não é extensão nem permanência: é quando a vida cabe no instante presente, sem aperto, e a gente desfruta o conforto de não sentir falta de nada.


O menino e o avô

Outubro 2, 2012

Texto:  Ana Jácomo

Intrigado com algumas coisas que ouviu, o menino perguntou para o avô enquanto caminhavam:

– Vô, no inferno tem passarinho cantando?
– Inúmeros. A perder de ouvido.
– Tem flor?
– Milhares e milhares delas, as mais lindas que podemos imaginar e outras tantas que a gente nem consegue.
– Tem mar?
– Muitos. Aliás, praias, conchinhas, ondas e surfistas também.
– Tem abraço?
– Dos melhores.
– E o céu fica todo azulzinho quando faz sol?
– Fica. Céu assim é tão bonito que chega até a comover, né?
– As pessoas amam?
– Amam. Gente é feita pra amar, embora geralmente erre um monte de exercícios enquanto está aprendendo.
– Tem pipa?
– À beça.
– Tem chocolate?
– É claro! Pode existir algum lugar onde não haja chocolate?

O menino silenciou por alguns segundos, a expressão dizendo um desconcerto dos grandes, muito maior do que aquele que mostrou no tempo da primeira pergunta.

– Ué, vô, eu não entendo… Ouvi dizer que o inferno é tão ruim!
– E é.
– Mas se tem tudo isso…
– Tem, sim, amado, as mesmas coisas do céu que você imagina estão também no inferno. Todas elas.
– Então, é tudo igual?
– Não. A diferença é que no inferno as coisas todas do céu continuam presentes, mas, por temporária impossibilidade, a gente não consegue percebê-las.


Acender a estrela

Setembro 18, 2012

 

Texto:  Ana Jácomo

– Mãe, é Deus quem acende as estrelas no céu pra gente quando fica de noite?

Olhavam para o céu, sentadas lado a lado no balanço, quando a menina fez a pergunta. A mãe a olhou com um sorriso que parecia maior do que o próprio rosto. Do que o próprio corpo. Do que aquele jardim.

– É. Ele acende as estrelas no céu todas as noites para nos lembrar que cada um de nós, aqui na Terra, precisa acender a estrela que dorme no próprio coração. Ela só acende quando acorda. Cada pessoa que consegue acendê-la também vira um pontinho luminoso para quem olha lá de cima.

A menina ficou bastante atrapalhada com aquela novidade: ninguém nunca havia lhe contado que existia uma estrela dormindo no coração das pessoas. Já sabia que existiam algumas coisas com nomes esquisitos dentro dela, coisas que não podia ver nem tinha idéia de como eram. Mas, uma estrela?! Muito curiosa, silenciou um pouquinho para imaginar a tal estrela dorminhoca. Será que ela também dormia com edredom? Vai ver sentia frio, já que ainda estava apagada.

– E como é que a gente faz pra acordar essa estrela, mãe?

A mãe lhe deu um abraço demorado, daqueles que adorava dar, capazes de criar calor mesmo em noites frias como aquela. Depois, olhou bem dentro dos olhos intrigados da menina, pousados nela o tempo todo, ansiosos pela resposta.

– Ela acorda quando a gente ama.


Responsabilidade

Maio 3, 2012

Texto:  Ana Jácomo

Cansei de me flagrar em circunstâncias em que eu jurava que havia ocorrido uma falha do cenógrafo na montagem do ambiente: tudo o mais poderia estar no lugar correto, mas não era para eu estar ali. Aí era um tal de listar os supostos culpados, lamentar a má sorte, um blablablá triste toda vida, sob o fundo musical de “Ó, Deus, como sou infeliz”. Muitas cenas depois, porque só o tempo é capaz de nos dar olhos que veem um pouco além das aparências, comecei a encaixar as peças daquelas tais circunstâncias e a perceber que estive exatamente onde eu me coloquei. Nem um centímetro a mais nem a menos. Eram os meus sentimentos, minhas dores pendentes de cura, minha resistência à mudança, minhas crenças equivocadas sobre mim, que me atraíam para aqueles cenários. Peças encaixadas, descobri que, no fim das contas, a roteirista o tempo todo era eu.
Se a história não me agrada, preciso aprender a reescrevê-la até que se torne parecida com a ideia que passa pelo meu coração. O roteiro só muda quando eu assumo a minha responsabilidade por ele e me trabalho para ser capaz de modificá-lo. Não adianta culpar o cenógrafo.