O amor adulto

Maio 22, 2014

Couple Walking Hand in Hand on Beach

Texto:  Carla Andrea Ziemkiewicz

O amor é sempre um mistério. É único, singular.

Razões , tais como as entendemos, não explicam e nada dizem sobre o porquê amamos uma pessoa. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, tratando-se de amor adulto e saudável, não é absolutamente gratuito e abnegado, do tipo incondicional, que se sente pelos pais e filhos.

Em uma relação amorosa existe um caldeirão em que se misturam diversos ingredientes e a reciprocidade é a colher que permite a burilação de todos eles.  Sem ela, tudo desanda, queima, perde o sabor.

Entre tantas pessoas, dois olhares se cruzam e algo acontece. Pode ser apenas um momento efêmero.

Pode ser o início de um encontro, de um namoro, de uma paixão.

E /ou de um grande amor.

Ou de um desencontro, de um engano, de uma decepção. De uma ilusão criada pela sua desesperada ânsia em vestir no sapo as vestes de um príncipe.

Como saber? Serenamente… vivendo, conhecendo, percebendo.

Desbravando esse universo desconhecido em que se constitui o outro e esse novo par do qual voce faz parte.  Porque não basta estar atento ao parceiro, mas também a voce, ao que ele te desperta.  Se ao seu lado voce  se sente pleno, se deseja ser alguém melhor do que foi até então,  se consegue imaginar passar horas jogando conversa fora ou no mais silencioso diálogo, em que palavras são dispensáveis… E uma doce ternura parece abraçar seu coração quando seu pensamento ou seu olhar subitamente o alcança.

Como sabiamente disse Guimarães Rosa: “o real se dispõe é no meio da travessia”

Respeite o tempo. Saboreie a travessia.


(in)completude

Maio 3, 2013

santos anna mello

 

 

 

 

 

 

 

 

.

Texto:  Carla Andrea Ziemkiewicz

Estamos acostumados com a idéia da falta, da perda e da quase impossibilidade de alcançar desejos e metas por deficiência de recursos, especialmente os internos. Como se o copo nunca ficasse cheio pela falta de líquido para completa-lo. Estar aquém nos inquieta e angustia e todos conhecemos bem esta sensação. Mas também existe o oposto. Possuir muito mais recursos à oferecer do que a possibilidade de realizá-los ou de alguém disposto a receber. Ter mais líquido do que aquele copo comporta e esse transbordamento significar um triste desperdício. Pode-se pensar em encher outro copo ou guardar, conter para outra ocasião. Mas esse não era o desejo real, aquele manancial de recursos voce ansiava designar àquele fim e não à outro. Tanto quanto a falta, o que inadequadamente chamemos de excesso, causa angústia, frustação, desamparo. Digo inadequado porque para quem é possuidor desse manancial, não o sente como excesso, apenas como seu repertório. Pode ser criatividade, inteligencia, amorosidade, generosidade entre outras. Ter de conter, reprimir torna-se tarefa muitas vezes insustentável, a causar sofrimento. Como lidar com essa dor? Assim como a falta busca ser preenchida, esse manancial precisa de um espaço que lhe dê continência. Espaço suficientemente bom. Esperá-lo pacientemente, ao invés de desperdiçar. Ou quem sabe encontrar novas possibilidades de realização. Outros rios por onde possa fluir livremente sem represar tanta potencialidade. Adaptações necessárias, embora frustantes…


Inimigo interno

Agosto 7, 2011

 

Texto:  Carla Andrea Ziemkiewicz

Não existe pior inimigo que aquele que se alimenta intimamente dos nossos monstros, nos sabotando sorrateiramente. Sendo nossa sombra, nosso avesso, dele não podemos nos livrar. Muito menos fugir. Há que se enfrentar com coragem.

Voce já deve ter ouvido de pessoas à sua volta, amigos e amores, que voce é muito bom em algo, ou tem uma qualidade especial, ou uma habilidade ou dom que encanta.
A única pessoa que duvida, que realmente não acredita nisso é voce. E não é falsa modéstia. É medo. Voce simplesmente não se acha capaz, não enxerga no espelho o que todos estão vendo. E isso te paralisa. Voce não segue em frente, não tenta, não arrisca.
Pura sabotagem do seu inimigo interno.
Enfrente-o.
Se ele for o Golias, seja o Davi.
Com certeza voce pode muito mais e muito além dele.
Basta querer. Basta acreditar.
Potencialidade não é nada sem trabalho e fé.
Descobrimos o diamante após a primeira lapidada.


Amor x Poder

Julho 30, 2011

Texto:  Carla Andrea Ziemkiewicz

A obstinação de estar certo, de vencer discussões e disputas, é tão somente um esconderijo. Onde se refugia a insegurança sob as vestes da suposta autoridade, de quem pretende ver aceitos seus argumentos de qualquer maneira, mesmo que sob ameaça e imposição. Estabelece dicotomias: um é forte o outro fraco, um certo outro errado, um algoz outro vítima, um sujeito outro objeto…

De que modo uma relação se constrói ou se mantém nessa perspectiva? A isso podemos chamar amor? Ou algo patológico sob um disfarce socialmente aceitável?

Relações desiguais. E não se trata de idade, cor da pele, religião, nada disso. É outro o significado. O de um sobreposto ao outro, num acordo tacitamente velado em que um se considera o dono do outro, de seus pensamentos, atitudes, decisões. E outro que permite-se dissolver no parceiro, deixando sua própria existencia em mãos alheias.

O amor maduro e verdadeiro dá as mãos, caminha junto, segura nos tropeços, alternadamente um e outro mostra-se generoso e desprendido. Alegra-se com os voos solitários do parceiro a alcançar montanhas cada vez mais altas. Compreende e acolhe docemente suas dores. Respeita as escolhas individuais. Permanece livre.

Amor verdadeiro portanto é conquista construída e sedimentada no tempo, com o frescor de águas cristalinas fluindo através de mútua reciprocidade.

Ninguém perde. Todos ganham.



Amizade

Julho 20, 2011

Texto:  Carla Andrea Ziemkiewicz

Amizade.

Preciosidade a enriquecer a vida.
Ter a sorte de possuir um amigo,
aquele que aconteça o que acontecer, estará sempre ali,
de braços abertos para o colo necessário nos momentos de dor
e para o aplauso entusiasmado pelas nossas conquistas.
Amigo amoroso e leal,
capaz de compreender os momentos de isolamento e solidão,
como espaço igualmente necessário do viver.
Amigo generoso, desmedidamente disponível para os gritos de socorro.
Ouvido atento à fala desabalada pela dor ou pela euforia.
Palavras sábias a despertar nossa lucidez.
Memória fiel da nossa história a lembrar das lições arduamente aprendidas.
Incentivo a instigar coragem no furacão da fragilidade.
Olhar perspicaz a enxergar o melhor de que se é  capaz.
E a mostrar-nos isso do modo mais gentilmente firme.

Como sabiamente disse Quintana : A amizade é um amor que nunca morre.



Tempo amigo

Julho 17, 2011

Texto:  Carla Andrea Ziemkiewicz

Todas as coisas tem seu tempo, e quase sempre não conseguimos entender isso.

Queremos que o tempo seja o nosso, enquadrando-o no espaço das nossas aflições e ansiedades. Atropelando tempo atropelamos vida. Violentamos sonhos que poderiam ter sido reais, não fosse a nossa destemperança.

Tempo é aliado não inimigo. É ele que permite a maturação, o desabrochar da verdade.

Porque ao tempo a verdade se rende, se revela, seja qual for a sua cor ou suas vestes. À ele a verdade se desnuda, se entrega irremediavelmente…

As mentiras contadas ao outro e à nossa consciencia não vencem à prova do tempo. Os enganos com os quais nos deixamos iludir são frágeis cristais que os bons ventos temporais fazem derrubar.

Subverter as demandas do tempo é torná-lo sagaz inimigo a devorar vida, sonhos e esperanças.

Para usufruir do momento de provar os melhores vinhos, foi necessário a sabedoria e paciência de preparar o solo, até colher as melhores e mais saborosas uvas.


Fogo precisa de ar

Junho 27, 2011

Texto:  Carla Andrea Ziemkiewicz

Quantos enganos são cometidos pela idéia do amor romântico. Duas metades que se completam; se ele não for eu não vou; se pintar desejo por outro é porque acabou o amor; ” eu não vivo sem voce” e por aí vai. Vai pro espaço o ar e fica o sufoco, o controle, o desejo reprimido pela culpa. Vai embora o encanto, o mistério, o prazer. E muitas vezes fica o prazer mas perde-se o amor, o companheirismo, a alegria de estar junto.

Acredita-se que a fusão do casal seja a realização desse sonho idealizado, tão alimentado pelos nossos contos de fada. Tudo terá que ser feito a dois, partindo do princípio de que cada um é apenas uma metade, que só se completará através do outro. Dissolve-se a identidade de cada parceiro, exatamente aquilo que foi o encanto, a atração. Falta o ar. O fogo arrefece e apaga. Fogo precisa de ar.

Não encontraremos a perfeição. Sequer encontramos tudo o que queremos e desejamos em uma única pessoa. Enfim, não temos respostas prontas, nem modelos.
Sem script precisamos criar. E a criação exige liberdade, espontaneidade, ousadia. Auto-estima.

Ninguém pode ser para o  outro a única fonte de interesse e prazer. E para saber o que me desperta o interesse e o prazer, preciso olhar para mim. Tudo se inicia a partir de se saber inteiro, mesmo que sempre haja um outro tanto a desvendar. Porque também para que nos mantenhamos apaixonados por nós precisamos do mistério, da dúvida, da eterna busca. Precisamos ser inteiros, plenos, livres, para que nossa alma receba sempre o frescor de novos ares. Em um jogo de esconde-revela, em que o véu areja o ar de que o fogo tanto precisa para queimar.

Lindo processo de ser cada vez mais o que somos e sermos capazes de despertar no outro e em nós mesmos

a paixão de viver.