Amores imperfeitos

Setembro 22, 2012

 

Texto:  Cristiane Segatto (Revista Época)

Quantos dos seus amigos descrevem o parceiro (ou parceira) de uma forma estranhamente dúbia? A pessoa é o amor da vida dele e, ao mesmo, o ser que mais o incomoda. É uma reclamação tão corriqueira que começo a achar que estranha é a minoria que parece satisfeita com o que tem em casa.

Tolerar os defeitos do companheiro e entender que, ao firmar uma parceria, compramos um pacote completo (com tudo o que há de agradável e desagradável) parece, cada vez mais, uma esquisita característica de uma subespécie em extinção.

O grupo majoritário parece ser o dos apaixonados intolerantes.

Há quem se dedique a tentar entendê-los. Li nesta semana uma reportagem interessante sobre isso. Foi publicada na revistaScientific American Mind. É baseada no livro Annoying: The Science of What Bugs Us (algo como Irritante: a ciência do que nos incomoda), dos jornalistas Joe Palca e Flora Lichtman.

Uma das pesquisadoras citadas é a socióloga Diane Felmlee, da Universidade da Califórnia. Ela conta a história de uma amiga que vivia reclamando que o marido trabalhava demais. Diane pediu que a mulher se lembrasse das qualidades que enxergava nele quando o conheceu na universidade. A resposta foi sensacional : “A primeira coisa que chamou minha atenção foi o fato de que ele era incrivelmente trabalhador. Logo percebi que se tornaria um dos melhores aluno da classe”.

Não é curioso? Por alguma razão, uma característica que é vista como uma qualidade no início do relacionamento se torna, com o passar do tempo, um defeito. Exemplos disso estão por toda parte. No início do namoro, o cara parece muito atraente porque é desencanado, tranquilão. Não perde a chance de passar o dia de bermuda e chinelo, ouvindo música e bebendo com a namorada e os amigos. Quatro anos depois passa a ser visto pela amada como um sujeito preguiçoso, acomodado, que não tem objetivos claros na vida e veio ao mundo a passeio.

Em outra ocasião, a socióloga Diane perguntou a um garoto por que ele gostava da última namorada. A resposta foi uma lista de várias partes do corpo da moça – incluindo as mais íntimas. Quando a professora perguntou por que o relacionamento havia acabado, a justificativa foi: “Era uma relação baseada no desejo. Não havia amor suficiente”.Uma aluna disse que se sentiu atraída pelo ex porque ele tinha um incrível senso de humor. Algum tempo depois, passou a reclamar que “ele não levava nada a sério”.

Novamente, o que era qualidade virou defeito. Deve haver alguma explicação para isso. Nas últimas décadas, Diane vem realizando estudos com casais para tentar entender o fenômeno que ela chama de atrações fatais.Ela observou que quanto mais acentuada é a qualidade reconhecida pelo parceiro no início da relação, mais incômoda ela se torna ao longo dos anos. Até virar um traço insuportável.

Diane acredita que a explicação está relacionada à teoria da troca social.Essa teoria parte do pressuposto de que as relações humanas são baseadas na escolha racional e na análise de custo-benefício. Se os custos de um dos parceiros superam seus benefícios, a outra parte pode vir a abandonar a relação, especialmente se houver boas alternativas disponíveis. “Traços extremos trazem recompensas, mas também têm custos associados a eles, principalmente numa relação”.

Um exemplo é a independência. Ela pode ser muito valorizada numa relação. Um marido independente é capaz de cuidar de si próprio. Mas se ele for independente demais, pode significar que não precisa da mulher. Isso acarreta custos para a relação.

A receita para evitar que as relações naufraguem é a boa e (cada vez mais) escassa tolerância. É preciso aprender a relativizar os hábitos irritantes para continuar convivendo com uma pessoa que tem muitas outras qualidades.

Ninguém é totalmente desprovido de qualidades e defeitos. Temos os nossos, aprendemos com eles e com os deles. Além de tolerância, precisamos exercitar a capacidade de apoiar o parceiro quando as coisas vão mal e de celebrar quando ele tem alguma razão para isso. Inventar programas novos e interessantes (zelar para que isso aconteça com frequência) pode realçar as qualidades de quem você gosta e amenizar as características e manias irritantes. Irritante por irritante somos todos. Mas também podemos ser incrivelmente interessantes.


O bom e o mau caráter

Maio 7, 2011

Texto:  Cristiane Segatto  ( Revista Época )

Uma das fraquezas mais detestáveis do ser humano é a incapacidade de reconhecer os próprios erros. Nunca entendi por que é tão difícil dizer: “errei, fui mal, me desculpe, vou tentar fazer melhor da próxima vez”. Para mim, isso é o básico do básico. É o requisito mínimo necessário para manter a boa convivência entre pessoas respeitáveis.

Por muito tempo achei que as pessoas incapazes de fazer isso fossem minoria. Acreditava que esse comportamento fosse fruto de algum desvio de caráter bizarro e relativamente incomum. Estava enganada. Começo a achar que saber pedir desculpas virou raridade.

Quem não reconhece os próprios erros quase sempre usa de outro expediente horroroso: tenta lançar a culpa sobre outras pessoas. Aposto, querido leitor, que você consegue reconhecer muita gente que faz isso no seu trabalho. Ou na família. Ou até mesmo no círculo de amigos mais próximos.

Para essa gente, o erro é sempre dos outros. Quando o outro acerta foi por “sorte”. Nunca por mérito, trabalho duro, dedicação. Pessoas assim tumultuam as relações profissionais, familiares e de amizade. Poderia ser diferente?

Gosto de acreditar que todo mundo merece um voto de confiança. É reconfortante pensar que para melhorar basta estar vivo. O problema é que muitos desses traços de personalidade são relativamente imutáveis. Costumam acompanhar a pessoa por toda a existência. O cidadão pode até aprimorar seu jeito de ser diante das pedradas que a vida lhe der, mas a essência não muda. É aquilo e pronto.

Seria muito útil se pudessemos identificar pessoas assim antes que elas causassem estragos. Existe um check-list capaz de identificar o bom e o mau caráter? Existe uma receita capaz de nos orientar (ainda que minimamente) quando contratamos alguém, somos apresentados a novos colegas ou escolhemos um parceiro?

A edição de junho da revista Psychology Today traz uma reportagem que propõe seis pistas para identificar as características principais da personalidade. Ao observá-las, dizem os psicólogos, seria possível prever que tipo de pessoa o sujeito que está na sua frente vai se revelar.

“Desenvolvimento não é um mistério”, diz a psicóloga Susan Engel, do William College à revista Psychology Today. “É como uma bola de cristal. Você só precisa saber como olhá-la”. É preciso encontrar (ou criar) situações que têm grande chance de tornar explícitas os traços que pretendemos observar. Seis características fundamentais:

INTELIGÊNCIA

É a habilidade e a velocidade de processar informação. A inteligência permite (embora não haja garantia de que isso ocorra sempre) uma maior compreensão da vida, das experiências e de outras pessoas. Tem a ver com a habilidade de lidar com a complexidade.

DICA: Preste atenção à forma como a pessoa pensa. Observe como ela desenvolve um argumento ou como avalia prós e contras. Observe com que rapidez ela absorve informação nova e como entende e lida com situações complexas. Sua habilidade de gerar múltiplas soluções para um problema é um ótimo sinal.

MOTIVAÇÃO

Permite que a pessoa atinja qualquer objetivo desejado, mas ela só existe se houver persistência e paixão. Se a pessoa for muito persistente e apaixonada pelo que faz muito provavelmente ela tem um otimismo acima da média. Mais um bom sinal.

DICA: Observe como a pessoa fala sobre os problemas da vida. O que ela diz quando encontra um obstáculo? É um jeito de descobrir se ela acredita na importância do esforço. Se a pessoa reage com raiva e culpa a falta de sorte quando as coisas dão errado, abra o olho.

SATISFAÇÃO

Muitos psicólogos e filósofos acreditam que a felicidade vem da capacidade de ter um senso de propósito e se sentir útil. Explorar as crenças da pessoa sobre a felicidade ajuda a revelar qual é a chance que ela tem de atingi-la. Se a pessoa relaciona a felicidade apenas ao consumo de bens materiais está fadada ao desapontamento.

DICA: Qual é a capacidade da pessoa de encontrar satisfação? Ela é realista a respeito de suas fraquezas pessoais? Ela age de acordo com suas crenças e valores mesmo em situações em que corre o risco de ser criticada? A tendência de atribuir ao destino tudo o que dá errado distorce a realidade e instala a penúria. Vai sobrar para quem estiver por perto…

SOCIABILIDADE

Pode ser entendida como a capacidade de criar reciprocidade. Crianças e adultos buscam nos outros a bondade, a amabilidade e a certeza de que o outro estará disponível para ajudá-lo quando necessário.Ter pelo menos um bom amigo nos ajuda a enfrentar as agruras da vida. Nem toda pessoa tem o mesmo grau de sociabilidade. Algumas ficam muito confortáveis passando tempo sozinhas e frequentemente preferem estar assim. Não há nenhum mal nisso. Uma medida da personalidade é quanta solidão ela deseja. Igualmente importante é observar se ela pode criar vida social no momento em que deseja.

DICA: Observe a natureza das amizades de uma pessoa. As amizades são genuínas ou baseadas em interesses? São marcadas pela dominância e pela submissão? Talvez o sinal mais forte de problemas seja a existência de rompimentos. Uma sequência de ex-amizades é sinal de rigidez. Significa que a pessoa é incapaz de tolerar conflitos ou lidar com complexidades.

INTIMIDADE

A intimidade é uma importante fonte de equilíbrio, a forma mais profunda de conforto. Os psicólogos concordam: a primeira relação é a base de todas as outras. A natureza do vínculo emocional na família estabelece não somente a habilidade de adquirir um senso de conexão, mas o grau de segurança nas relações posteriores.

DICA: Observe a capacidade de alguém de ser tornar íntimo e você saberá se ela consegue confiar em outra pessoa e revelar sua vulnerabilidade. A capacidade de ouvir – às vezes a mais essencial necessidade numa relação íntima, principalmente nos momenos difíceis – é uma qualidade crucial e fácil de perceber.

BONDADE

A bondade e a maldade vêm de algum lugar. As pessoas seguem modelos que estão ao redor. Alguns aspectos da moralidade são gerados dentro da pessoa e outros fora. A empatia aparece cedo na vida e persiste. Um sinal de moralidade é a boa vontade quando alguém precisa de ajuda.

DICA: Observe se a pessoa consegue controlar suas próprias emoções (especialmente as negativas, como raiva e ansiedade) sem negá-las. Se ela fizer isso, provavelmente será capaz de tolerar os tombos dos outros e ajudá-los.

A reportagem é interessante, mas a vida real é bem mais complexa. Relacionamentos não são guiados por receitas de bolo. Pessoas não podem ser enquadradas em perfis estáticos, embora listas como essa sirvam de guia sobre características importantes a observar. Por conta própria, incluiria outra: o senso de justiça. Se a pessoa se esforça para ser justa, há grande chance de não ser mau caráter.


A dor da uma tragédia

Abril 9, 2011

Texto:  Cristiane Segatto (Revista Época)

Nenhum outro assunto nos mobiliza tanto nesses dias tristes quanto a tragédia de Realengo. Nos perguntamos por que um ex-aluno entrou armado numa escola municipal, matou 12 adolescentes, feriu outros 12 e se matou. Nos solidarizamos com a dor das famílias e nos perguntamos como o horror poderia ter sido evitado. Nesse momento de grande comoção, não posso fugir do assunto.

Não vou, porém, cair na tentação de tentar traçar o perfil psicológico do assassino Wellington Menezes de Oliveira, um rapaz aparentemente atormentado de 23 anos. Quem sou eu para tentar entrar na mente de quem quer que seja? Quem são os psiquiatras e outros “especialistas” que se apressam a apresentar na TV diagnósticos baseados em informações pífias e desencontradas?

Relatos de vizinhos e parentes não bastam para revelar os sentimentos mais íntimos de Wellington. A mente é um domínio sinuoso, feito de luz e sombra. É cheia de cantinhos inacessíveis até mesmo aos psicólogos e psiquiatras que acompanham um paciente por um longo período. Esses cantinhos, muitas vezes, estão fora do alcance da própria pessoa. São como uma teia de aranha que cresce atrás de um armário antigo. A vassoura não a alcança, mas ela está lá, avançando. Só se torna visível quando já é grande o suficiente para incomodar.

Não pretendo fazer a defesa de Wellington, mas chamá-lo de facínora e colocar uma pedra sobre esse caso não evitará que a história se repita. É preciso refletir sobre o que é possível fazer para identificar o sofrimento mental precocemente e tratá-lo antes que o sangue de outras vítimas seja derramado. A atenção à saúde mental no Brasil é tão ruim que, sinto dizer, veremos esse filme muitas outras vezes.

O que é possível fazer, agora, para reduzir o impacto da crueldade de Realengo? Como ajudar as famílias que perderam seus filhos e as crianças que sobreviveram a superar esse trauma? Como explicar uma história dessas a qualquer outra criança que, um dia depois de exposta às imagens de horror, terá que pegar sua mochila e entrar numa escola em qualquer lugar do Brasil?

Acho que o mais produtivo e útil, nesse momento, é entender o que ajuda e o que atrapalha a superar o chamado stress pós-traumático. Ele é decorrente de um trauma emocional de grandes magnitudes, como guerras, catástrofes naturais, massacres etc. Quem sofre disso revive o trauma por meio de sonhos e pensamentos; evita situações que o façam reviver o episódio; sente medo; apresenta sensações físicas de desconforto e ansiedade. O tratamento costuma ser feito por psicólogos, por meio de técnicas de apoio e encorajamento. Muitas vezes o tratamento requer medicações e acompanhamento de psiquiatras.

Uma forma de contribuir, nesse momento, é relatar experiências de quem já passou por situações semelhantes. Muita dessa experiência está concentrada nos Estados Unidos, onde ocorreram vários ataques a escolas e universidades nos últimos anos

Procurei a psicóloga Amanda M. Vicary, da Universidade de Illinois. Ela resolveu pesquisar se as mensagens instantâneas enviadas pela internet e as redes sociais (em especial, o Facebook) contribuíram ou não para aplacar o sofrimento de alunos depois dos ataques ocorridos no campus de Virginia Tech e da Northern Illinois University, em 2007.

No primeiro ataque, um rapaz matou 25 estudantes e cinco funcionários e se suicidou. Um vídeo deixado por ele comprovou a premeditação do crime. Alguns meses depois, algo semelhante aconteceu no Dia dos Namorados, na Northern Illinois University. Um ex-aluno matou cinco estudantes e deixou 18 feridos.

Minutos depois dos dois ataques, os alunos encontraram um meio rápido e acessível para expressar a dor e a confusão: o Facebook. No dia do primeiro ataque, um estudante criou um grupo chamado “Um tributo aos mortos de Virginia Tech”. Até o final da noite, mais de 100 mil pessoas haviam se juntado a ele. O mesmo aconteceu na outra universidade.

A imprensa, em especial o New York Times e o Washington Post, especulou que esse comportamento traria mais prejuízos do que benefícios. A tese era a de que o processo de superação seria prejudicado porque os envolvidos estavam fixados no assunto. Não conseguiam pensar ou falar sobre outra coisa.

Amanda decidiu investigar. Selecionou perfis mantidos no Facebook por 1,8 mil alunos das duas instituições e enviou a eles formulários da pesquisa acadêmica que realizava. Desse total, 124 estudantes da Virginia Tech e mais 160 da outra universidade aceitaram participar. Amanda descobriu que 71% dos participantes tinham importantes sinais de depressão duas semanas depois dos ataques. Sintomas de stress pós-traumático foram observados em 64%.

Os voluntários tinham, em média, 21 anos. Na rede social, participavam ativamente dos grupos criados para lembrar a tragédia. Um terço conhecia pessoalmente uma das vítimas. Mais de 80% conhecia alguém que era amigo de uma das vítimas.

Oito semanas depois dos ataques, Amanda testou a condição mental dos mesmos voluntários. O índice de deprimidos havia caído de 71% para 30%. O grupo com sinais de stress pós-traumático havia sido reduzido de 64% para 22%.

Ao contrário do que a imprensa dizia, o Facebook fez bem? Não exatamente. Ao analisar o tempo de uso da rede social, o tipo de mensagem postada e outros parâmetros, a psicóloga não encontrou nenhuma relação entre o Facebook e a recuperação dos alunos. “O Facebook não ajudou nem atrapalhou”, disse Amanda a ÉPOCA. “Muitos estudantes disseram se sentir melhor depois de falar sobre o assunto na rede, mas os sintomas deles não melhoraram. Entre os que apresentaram recuperação, não foi possível associá-la ao uso da rede”, afirmou.

Há algumas possíveis explicações para a discrepância entre a sensação de alívio relatada pelos alunos e a real condição psíquica deles:

1) É possível que os alunos tenham se sentido bem logo depois de usar a internet, mas esse efeito não tenha durado mais do que poucos minutos.

2) Talvez os alunos tenham observado uma pequena melhoria depois de algumas atividades on-line, mas essa melhoria não tenha sido forte o suficiente para influenciar na redução dos sintomas.

3) Quando uma pessoa espera que uma medida ou um tratamento seja benéfico, essa expectativa é capaz de produzir sensações de melhoria. É o conhecido “efeito placebo”.

Pessoalmente, acho que falar é sempre melhor do que guardar. O ideal é poder falar sobre a dor, a insegurança, a culpa, a fantasia com quem é capaz de ouvir sem fazer julgamentos. Se essa pessoa não está ao alcance da mão, talvez compartilhar pensamentos pelas redes sociais traga algum alívio. Ainda que essa sensação seja enganosa e passageira. Hoje é um daqueles dias em que até o Facebook parece acanhado diante da dor de Realengo.

 


Coleira para criança, berço para cachorro

Março 19, 2011

Texto:  Cristiane Segatto (Revista Época)

Na última semana, tão fortemente marcada pela dor dos japoneses e pelas tentativas de evitar um desastre nuclear, uma notícia menor, à primeira vista sem maiores consequências, também mexeu comigo. Em reportagem publicada na Folha de S. Paulo, Mariana Versolato descreve a mais nova onda entre as mães de crianças pequenas: colocar os filhos na coleira.

A guia para conter crianças é mais uma invenção neurótica importada dos Estados Unidos. Ela começa a ganhar adeptas nas ruas, nos shoppings centers, nos aeroportos brasileiros. O argumento para usá-la, tipicamente americano, é a garantia de conforto e segurança. A coleira não é colocada no pescoço. É um objeto de repressão travestido de acessório fofinho e infantil. A criança coloca uma mochilinha nas costas (alguns modelos vêm com um bichinho de pelúcia acoplado). Da mochila sai uma cordinha que a mãe segura para evitar que a criança se afaste demais. Como os cachorros espoletas, as crianças amarradas à coleira arrastam as mães.

Ainda não vi essa cena, mas posso imaginar o quanto de bizarrice há nela. Um garoto correndo pelo shopping obriga a mãe a dar pinotes enquanto ela grita, em vão: “Pare. Não corra. Aqui não. Eu disse para parar”. Se a mãe não consegue controlar o filho sem coleira porque ele deveria obedecê-la justamente na hora em que a situação parece perseguição de desenho animado? Imagino que a criança só poderia dizer: “De novo. Mais rápido. Outra vez”. E a cara da mãe quando o shopping inteiro comentar o vexame? Como dizem as meninas de 20 anos, isso “é muito vergonha alheia”. Mico total.

A vergonha é o que menos interessa nessa história. O que está implícito na decisão de comprar uma coleira? Os pais querem ter comodidade para olhar outras coisas sem se preocupar se os filhos estão por perto? É recurso para quem não consegue estabelecer limites? “A coleira é um instrumento ideal para quem não sabe dizer o que pode e o que não pode”, diz a psicoterapeuta Maria Teresa Lago. Se tivessem construído a autoridade que precisam ter, bastaria que os pais dissessem ‘não corra’, ‘fique quieto’, ‘aqui não é lugar para isso’. Essa autoridade é desafiada pelas crianças o tempo todo, mas é o tipo de embate do qual não se pode abrir mão. Dele depende a formação de um cidadão que aprende o que é aceitável e o que não é.

Segurar na mão da criança não seria mais simples, barato e natural? “Não pegamos os filhos pela mão só por pegar”, diz Maria Teresa. “Fazer isso é uma tentativa de tê-los conosco no sentido afetuoso da coisa.” A segurança que a mão do pai ou da mãe nos dá é um patrimônio emocional que não deve ser desprezado. Quem teve pai e mãe desempenhando seu verdadeiro papel provavelmente vai se lembrar, décadas depois, da mão que conduzia à sorveteria numa tarde de domingo ou que ajudava a atravessar a rua movimentada num dia cinza.

Enquanto o contato entre pais e filhos é substituído pela coleira, os cachorros ocupam o espaço que até há pouco tempo era exclusivo das crianças. A tentativa de humanizar os animais é estimulada pelo lançamento de produtos que – se não fossem tão pequenos — poderiam ser vendidos em lojas de produtos para bebês. Há berço e carrinho de passeio para o pet que ganha nome de criança. A dona o chama, sem o menor constrangimento, de filhinho. “O cachorro é um prato feito para quem precisa ter uma garantia na relação.”, afirma Maria Teresa. “A garantia de afeto é total: quando o dono chega em casa o cachorro sempre vai pular no colo.”

Não vejo nenhum problema no amor destinado aos animais. Mas quem gosta deles deve amá-los pelo que são. Cachorro tem que ser amado como cachorro. Gato como gato. E não como o filho que não existiu ou que se foi. Ao tentar humanizar os bichos, os donos produzem aberrações. Sinto pena do cão quando o vejo vestido com roupinhas, enfeites de cabeça e outras peruices que o transformam numa cópia desajeitada da dona. Fico mais aflita ainda quando percebo que sofreram intervenções radicais ao bel-prazer dos donos.

Como se não bastasse cortar as unhas e arrancar as sobrancelhas dos bichos, chegam ao cúmulo de castigá-los pelos latidos. Vi na internet uma coleira antilatido que me deixou assustada. Ela funciona por meio do condicionamento pavloviano clássico. Quando o cachorro late, a coleira emite um sinal sonoro. Se ele latir outra vez nos trinta segundos seguintes, o aparelho apita e o coitado recebe um choque suave. A cada latido adicional, o choque se intensifica até ficar cinco vezes mais forte que o primeiro.

O cão é condicionado a ficar calado, aprende a não exibir nenhum sinal revelador de sua natureza. Os bem comportados ganham comida e afagos. E, dependendo do gosto e do exibicionismo da dona, ganha também uma coleira Louis Vuitton. “Vi num shopping do Leblon um cachorro que exalava perfume e tinha o pelo mais brilhante que o cabelo da dona. Ficava solto, deitado ao lado dela como se fosse uma criança”, diz Maria Teresa. “A humanização dos bichos é patológica, mas parece que ninguém reflete sobre isso.”

O mundo me espanta, me surpreende. Tenho mania de observar e refletir sobre pequenos sinais que parecem não dizer nada, mas que podem significar muito. Inversões de papéis me intrigam. Assim como invenções estranhas que prometem comodidade e vão se imiscuindo na nossa vida até parecer absolutante normais. Alguma coisa está fora do lugar quando colocamos a criança na coleira e o cachorro no berço.

 


O cisne negro de cada um

Março 13, 2011

Texto:  Cristiane Segatto  (Revista Época)

Muita gente correu aos cinemas para conferir Cisne Negro desde que Natalie Portman ganhou o Oscar de melhor atriz. A festa de Hollywood é passado, mas a questão central despertada pelo filme continuará atualíssima por muito tempo. É por isso que resolvi falar sobre ela na coluna de hoje. Saí do cinema completamente impactada pelo auge da loucura da bailarina obcecada pela perfeição.

Vou logo avisando: se você pretende assistir ao filme talvez seja melhor fugir deste texto. Não vou resistir a comentar o fim, o meio, o começo – nessa ou em outra ordem. Se já o assistiu ou não pretende encarar o turbilhão emocional provocado nos espectadores, siga em frente. Depois me diga se entendi direito ou se delirei junto com a personagem brilhantemente interpretada por Natalie.

Nina é uma bailarina dedicada que se esforça além da conta para atingir a perfeição técnica. Em uma das cenas, o diretor da companhia diz que ela é tecnicamente perfeita, mas incapaz de sentir. Tinha técnica e nenhuma vida. A primeira lição de casa que dá à moça é masturbação. Outra bailarina, que Nina passa a enxergar como rival em seus delírios persecutórios, é o oposto: está longe de ser tecnicamente perfeita. Mas quando dança, sente.

O maior desafio de Nina é interpretar os dois cisnes – o branco e o negro – no clássico O Lago dos Cisnes. Esse é também o pesadelo do diretor. Nina é um primor como o cisne branco, mas não convence na pele do cisne negro. O papel que a bailarina precisa desempenhar toma conta de sua vida. O espectador assiste, aos sobressaltos, a transformação da moça doce, pura e inocente numa pessoa descontrolada, agressiva, ensandecida.

Cisne Negro não é uma fábula estapafúrdia. Ele nos toca justamente porque é verossímil. Ninguém precisa ser uma bailarina na competitiva batalha pelo melhor papel para despencar naquele abismo. O filme é quase um aviso: “Ei, todos nós somos cisnes brancos e negros”. A linha que separa os dois é tênue e fluida.

Nina não parece ser psicopata – aquele tipo de pessoa perversa, desprovida de culpa e capaz de passar por cima de qualquer ser humano para satisfazer os próprios interesses. Para gente assim não existe cura. Só cadeia.

A bailarina me fez lembrar de quem sofre de algo mais frequente: o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Para muita gente, TOC é a doença de quem pratica atos repetitivos como checar sete vezes se a torneira está fechada antes de sair de casa. Não é só isso. O distúrbio tem diferentes nuances e gradientes. No convívio social, pode passar despercebido. Um colega de escola, de trabalho, um amigo querido, a mulher, o marido pode estar passando por isso agora mesmo sem que você se dê conta.

“O perfeccionismo é muito característico desse tipo de transtorno”, diz a psicóloga Patricia Vieira Spada, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Tudo tem que estar no lugar porque a pessoa não suporta lidar com as surpresas da vida.”

Como Nina, quem sofre desse transtorno de ansiedade tem preocupações excessivas, desconforto, medo, aflições, depressão. A perfeição é um falso porto seguro. Para não sentir, para não ter afeto, tudo precisa estar sob controle. Ter afeto é lidar com a imprevisibilidade das relações humanas. Ninguém sabe o que vem pela frente. Não ter resposta é dolorido, mas é preciso saber suportar a dúvida.

O desfecho da história da bailarina é clássico. Reprimida pela mãe e por ela mesma, perde o controle sobre a impulsividade. Torna-se um bicho agressivo, psicótico, atormentado por alucinações. “É importante conhecer o cisne negro que existe dentro de cada um de nós”, diz Patricia. “Perigoso é negá-lo.”

Precisamos nos conhecer, entrar em contato com nossa fragilidade. “Beber desesperadamente como tantos jovens fazem é anestesia cerebral. Embriagado, ninguém pode pensar. Isso é investimento constante em cisne negro”, diz Patricia.

A decadência de Nina nos atinge em cheio. Quem não almeja o sucesso? Quem não batalha para chegar o mais próximo possível de um desempenho perfeito? A partir de quando o perfeccionismo se torna patológico? Segundo Patricia, ele é comum em pessoas que se sentem no centro do Universo. O sujeito se acha tão importante, tão único, tão insubstituível que não aceita exercer – seja lá o que for – com exatidão.

Quantas pessoas você conhece que agem exatamente assim? Essa característica pessoal mal administrada passa a ser um problema quando compromete o convívio social ou a saúde – física, mental ou emocional. Nina alcançou aquilo que julgava ser a perfeição. Mas não pôde receber o reconhecimento da plateia.