Som na caixa !

Janeiro 28, 2012

Imagem:  “Pequeno Vôo Musical Azul” de Ana Luisa Kaminski

Texto:  Elisa Lucinda 

A tarde cai com maestria e brilha.

Tenho vontade de cantar  a ponto de estourar!

Meus erros se dissolvem, os problemas se constrangem

diante do  belo fogo amarelo pintando a barra do dia.

Deslumbrante modo este do sol se pôr.

Quem pode com a beleza da vida, meu pai?

Quem pode duvidar do milagre da transitoriedade?

Tudo isso, as flores, esta brisa, os bilhetes de amor,

os lençóis marcados de  beijos , os rouxinóis e eu , tudo passará!

Menos essa vida que pulsa e é sempre outra

e  que se põe em presença de todos os viventes a cada tempo.

Que se mostra nua, crua,  bela , poderosa,  senhora  flutuante entre os ventos.

 

Desço a rua ladeira onde teço  meus dias,

onde vive minha casa branca,

porto seguro de minha alma com olhos acostumados a reparar.

Acabada de se banhar, a mesma alma, cheirando à colônia dama da tarde,

quase dança dentro do vestido florido de mulher e de menina.

Azul o céu para onde vou e é azul também  o que deixo atrás das colinas.

Todos os óbvios são mistérios: da sensação de batismo que dá um cabelo molhado e limpo roçando a nuca da gente, até os comoventes coloridos celofanes que envolvem os docinhos confeitados das festas de criança.

Tudo é enigmaticamente simples. Todo presente vira logo lembrança.

O parentesco entre as coisas  é tão natural que parece que todo mundo entende o motivo pelo qual as pipas são primas das bandeirinhas de São João .

É um prazer saber. Nem sei se eu sei não.

Mas me excita viver!

 

Izidoro pintando a varanda, faz cheiro de Natal vir das paredes.

Varanda, ô palavra ensolarada!

Todo ano meu pai pintava nossa casa  em dezembro.

Eu sigo a tradição só pra sentir a bagunça gostosa que a memória olfativa das

cores  apronta em meu coração.

Não trago novidades.

Sou apenas vítima da claridade de uma estação.

Minha voz quer sair do peito para se juntar ao grande coro e com razão:

Louvando a intensidade de cada instante

as cigarras sempre cantam no verão.


Carta ao tempo

Dezembro 13, 2011

Texto:  Elisa Lucinda

Mesmo com toda a sua sutileza, sua onipresença divina, sua continuidade e perseverança imperceptíveis, mesmo com seu mistério e seu poder sou Tua macaca de auditório, Deus Tempo, Tua fã. Queria um pôster Teu no meu quarto. Mas de corpo inteiro, não em partes como sempre te vejo, oh Divino. Também porque o seu inteiro é o eterno, não é? Eterno é uma palavra sem fim, sem limites, parente da palavra infinito. São da mesma família e ambas querem dizer do que são maiores que a nossa matemática pode supor. Por observá-lo tanto cada vez mais vou amando o que chamam envelhecer. A gente fica muito mais sabido e vai entendendo como é bem bolada a coisa toda. Com o tempo, ficamos mais descolados, mais espertos, já conhecemos alguns mecanismos de nos iludir, nossos esquemas e funcionamento de erros, vícios, e outras deliciosas fraquezas. A vida é uma grande viagem, e embora não se reconheça tanto o valor do mais velho, este, pela experiência que resulta em sabedoria, vai ganhando autoridade para sentar logo na janela para ganhar outros assentos com privilégios de paisagens. Quando ouço alguém dizer que não quer pôr mais filho nesse mundo cruel, penso, que o mundo se fosse mesmo muito ruim a gente quereria sair logo dele. Mas não. O que nos ocorre, em geral, é uma vontade de ser eterno, uma loucura vampírica com desejo de ser eternamente jovem e principalmente, a obsessão de escapar da morte. O medo dela não é só porque morrer provavelmente doa como processo. O papo é que morrer acaba com a festa. Mãe cruel que tira a gente da brincadeira de viver. O fato de ser matematicamente cada vez mais perto da morte, a velhice angaria más línguas para si. É uma pena. Aos cinquenta e três anos estou me sentindo muito bem. Potente. Estão preservados em mim a Lili, a Elisinha e a Formiguinha Atômica, meus apelidos de infância, a Morena, a Nega, a Lucinda, meus apelidos de universidade, e Preta, Elisa Lucinda, Lucinda, Pretinha e Elisa, a mulher que me tornei. Esse coletivo de estações do Deus Tempo, trago em mim como uma herança. Como quem herdou casas, imóveis de luxo, extensas fazendas com milhares de cabeças de gado, herdei minha criança com sua espontaneidade, seu amor pelos lápis de cor, sua palhaçada, sua disposição para o novo e sua inocência; herdei minha jovem mocinha com sua irreverência, sua vontade de ajudar a melhorar o mundo, seu romantismo, sua esperança radical, sua ousadia em se lançar na estrada da existência na transitoriedade de cada momento. Esses múltiplos personagens que vivem no quintal de meu coração, dando suporte a minha personalidade não vieram sozinhos, veio com eles o rebanho de sonhos. Alguns desses sonhos perderam validade, não resistiram ao futuro que lhes coube. É mesmo muito interessante esse tipo de riqueza que o Tempo nos oferece; a capacidade, a potência de trazer no cofre humano que também atende pelo nome de memória, tudo o que vivemos: amores, prazeres, felicidades, gozos, plenitudes, tudo pode ficar eterno (leia-se eterno aqui como coisa que dura enquanto se vive). Quem pode tirar de mim, meu pai Tempo, as declarações de amor que recebi como mulher, como fêmea,como dama? Quem pode arrancar de mim as amorosas penetrações, os beijos nas mãos, os gestos de delicadezas, as palavras de amor que li nos olhos dos amantes e ouvi nas noites claras de luar? Hein? Me fale, quem poderá? Outro dia pensei em comprar a casa da minha infância lá em Itaquari, e a de Vila Velha, naquela rua linda cheias de árvores. Ainda bem, que em tempo, me lembrei que não preciso comprá-las uma vez que elas estão intactas dentro de mim com todos os seus bem quereres. Se as comprasse agora seria pior para mim; viriam sem minha mãe, minha irmã, meus avós dentro. Seria um péssimo negócio. E para os sofrimentos, que  experimentamos logo ao nascer, há a chuva dos prantos, o escoar da dor, a cicatrização da ferida e depois o esquecimento. Uma beleza! Pois sem esquecer dos sofrimentos como amaríamos de novo, como teríamos coragem?


Esperança imortal

Setembro 7, 2011

Texto:  Elisa Lucinda

Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?

Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: “Não roubarás”, “Devolva o lápis do coleguinha”, “Esse apontador não é seu, minha filha”. Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.

Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.

Só de sacanagem! Dirão: “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba” e vou dizer: “Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.”

Dirão: “É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”. Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!


Mapa da mina

Maio 30, 2011

Texto:  Elisa Lucinda

Na porta do hall que dá nos interiores do meu coração
tem uma moça com uma lança na mão.
Quem chega não pode entrar assim desastrado
ter acesso ao palácio
ao segredo diário
ao doce difícil apiário de sua função
Pode não.
Na frente tem um jardim
depois da sala de estar
que é também da espera.
Lá tem um bar pra quem quiser beber
tem até um “sumiê”
que é de derreter a gente.
Ardente, lá dentro tem instalado
um ar-condicionado a arejar
que é pra disfarçar a quentura que vem de dentro.
Na divisa do corredor
em cima do gongá
tem um andor
com uma guerreira treinada pra fazer testes
que é pra ver quem merece entrar
conhecer, se esparramar.

Tem teste de olhar
Tem prova de fogo
Tem prova real
Tem a qualidade do jogo
Tem argüição geral
Tem fino escambau
A moça não deixa entrar
só passa quem exuberar fatal
ou quem conseguir ousar dela escapar.
Aquele que entrar há de tratar
de não desarrumar a mesa posta
a comida bem-feita flor do jarro.

Tudo é muito custoso
por isso caro
Tudo é pouco e virtuoso
por isso cristal
Tudo é garimpado e perseverante
por isso diamante
por isso avante, mas não repuxe o tapete
nem jogue cinzas no canto.
O bem-vindo há que chegar e incensar.
Se sair, que ao sair deixe tudo no lugar.
Se ficar, há que construir mais uma sala,
em vez de falas,
nem que seja uma puxada lá atrás.

Mas faça carinho nos móveis:
lá tudo é vida
ali tudo respira sangue e sentimento.
Por isso a guerreira precisa barrar os nojentos
os vampiros peçonhentos
disfarçados de príncipes.
Ó, é muito simples, como entrar numa floresta.
Isso é aviso, é instrução
isso é precaução de coração vivido
onde tantas vezes o penetra deixou a porta aberta
e destruição no rastro do tesão.
Hoje, fruta esperta, protejo o quintal.
E se faço esse escarcéu, na portaria
não é nem por ser convencida, mulher superior
rainha metida à beça ou raivosa cadela.
Se faço isso e vivo na cautela,
É que sou muito amiga dela.


Qual o sexo dos amantes?

Maio 29, 2011

Texto:  Elisa Lucinda

Ainda o assunto do amor entre iguais em gênero ulula nos meus ouvidos, na íntima sala de reuniões na casa da razão. Ainda quer entender o nascimento da homofobia e  acho que  tudo que a sociedade não discute , não estuda , não admite, não aprofunda , não encara de frente com  todos os seus conteúdos, tende a alimentar cânceres sociológicos no seu corpo social, a promover renitentes e fatais  embolias  na corrente sanguínea de uma civilização. Acho que é o que nos ocorre em  relação às relações  homossexuais. O preconceito  chafurda na lama das contradições e só faz mal a si e aos outros, só atrasa  a sociedade e só se complica. Roberto Samico, meu amigo, com sua ciência fisioterapêutica  e massoterápica, no auge dos seus vigorosos 70 anos, a subir correndo as escadas do seu trabalho, me dissse: “Eu não tenho preconceito, Elisa!  Tanto que a maioria de meus amigos é heterossexual . Eu adoro eles, respeito seu gosto e modos de viver o amor e não acho que  devam ser iguais a mim, que gosto de homem.” Adorei a inversão de seu pensamento no que se refere ao senso comum e a honestidade , com que proferiu tal reflexão. Então,  existe um véu  que não nos deixa  ver nossos  avessos  códigos, fiquei pensando. Ora, acaso nos importamos se é gay ou não a cantora da trilha sonora do casal de mocinhos da novela? É menos amor porque a voz  é da Cássia Eller? Quantas obras feitas por homossexuais não oferecemos e nos são oferecidas  para enfeitar e confirmar hetero-formas  de amor? E as canções que cantamos? Quais delas não foram feitas por um homem para um outro? De uma mulher para outra?  O que sabemos disso? A palavra amor, por ser comum aos dois gêneros, protege a identidade sexual. Todo mundo  é  meu amor. Não conhecemos as fontes de inspiração dos poetas. Eles podem nos enganar, e bem. Mas isso realmente importa?  Àqueles em cujos versos a humanidade se vê representada, traduzida  até legitimada em seu amor, não interessa a serviço de que tipo de afeição seus versos estarão.  Não há patrulha nisso.

Meus amores, chega de hipocrisia, ninguém é vilão por ser gay, nem sem-vergonha por isso. Comemoremos por vivermos o avanço de um tempo, onde o tapete ficou curto e não comporta mais tantos segredos debaixo dele. Não pode mais ser crime amar seja quem  quer que seja. Não pode mais serem consideradas imorais algumas escolhas do amor. Não é mais tempo disso. Por isso nos matamos uns aos outros, nos ofendemos, excluímos o outro ser humano que está emocionalmente exposto ao desejo e aos romances em sua condição humana, como qualquer outro. Proponho que revejamos o modo como tratamos nossas crianças nesse tema sexual, numa sociedade machista que tanto desprepara o menino para as delicadezas e os ricos detalhes de uma emoção, com medo de que tal educação sensível comprometa-lhe a masculinidade. Vendo meu afilhado Gabriel, no auge de seus oito meses, a brincar com os bonecos de pano, pensei em quanto é saudável para um menino brincar de cuidar do outro. Se é ali que a menina tem seu primeiro ensaio da maternidade, com seu bebê boneco que vem até com mamadeirinha. Por que o pai, que em tese é o que o menino será, não pode ensaiar também? Porque por muito tempo a sociedade achou que brincar de boneca faz o menino “virar”. Como se um brinquedo fosse capaz de decidir o objeto de amor de alguém.

Essa imaturidade nossa sobre a homossexualidade  já fez muitos danos e maltrata demais a saúde do mundo. Vivemos cercados de: engenheiros, arquitetos, bailarinos, juízes, médicos, escritores, cineastas,  militares, atores, padres, empresários e advogados, trabalhamos e tocamos com eles o mesmo mundo besta e bom, sem saber a verdadeira face de sua intimidade, quando a cortina de seu teatro fecha. E seguimos adiante, ignorantes, porque não podemos determinar qual o sexo dos amantes.


Da chegada do amor

Maio 10, 2011

Texto:  Elisa Lucinda

Sempre quis um amor

que falasse

que soubesse o que sentisse.

Sempre quis um amor que elaborasse

Que quando dormisse

ressonasse confiança

no sopro do sono

e trouxesse beijo

no clarão da amanhecice.

Sempre quis um amor

que coubesse no que me disse.

Sempre quis uma meninice

entre menino e senhor

uma cachorrice

onde tanto pudesse a sem-vergonhice

do macho

quanto a sabedoria do sabedor.

Sempre quis um amor cujo

BOM DIA!

morasse na eternidade de encadear os tempos:

passado presente futuro

coisa da mesma embocadura

sabor da mesma golada.

Sempre quis um amor de goleadas

cuja rede complexa

do pano de fundo dos seres

não assustasse.

Sempre quis um amor

que não se incomodasse

quando a poesia da cama me levasse.

Sempre quis um amor

que não se chateasse

diante das diferenças.

Agora, diante da encomenda

metade de mim rasga afoita

o embrulho

e a outra metade é o

futuro de saber o segredo

que enrola o laço,

é observar

o desenho

do invólucro e compará-lo

com a calma da alma

o seu conteúdo.

Contudo

sempre quis um amor

que me coubesse futuro

e me alternasse em menina e adulto

que ora eu fosse o fácil, o sério

e ora um doce mistério

que ora eu fosse medo-asneira

e ora eu fosse brincadeira

ultra-sonografia do furor,

sempre quis um amor

que sem tensa-corrida-de ocorresse.

Sempre quis um amor

que acontecesse

sem esforço

sem medo da inspiração

por ele acabar.

Sempre quis um amor

de abafar,

(não o caso)

mas cuja demora de ocaso

estivesse imensamente

nas nossas mãos.

Sem senãos.

Sempre quis um amor

com definição de quero

sem o lero-lero da falsa sedução.

Eu sempre disse não

à constituição dos séculos

que diz que o “garantido” amor

é a sua negação.

Sempre quis um amor

que gozasse

e que pouco antes

de chegar a esse céu

se anunciasse.

Sempre quis um amor

que vivesse a felicidade

sem reclamar dela ou disso.

Sempre quis um amor não omisso

e que sua estórias me contasse.

Ah, eu sempre quis um amor que amasse.


Quem sabe o que procura compreende o que encontra

Março 27, 2011
Texto:  Elisa Lucinda

O vento forte lá fora e meu homem dorme ao meu lado. Há nele um monte de certezas que se aninham enquanto ele ronca terno como quem respira com alarde. As certezas dele são as minhas, por isso ficam tão bem comigo. Não me estranham. E as dúvidas podem existir sem opressão até que se cumpram. Sabíamos, cada um na sua estrada, que o caminho era outro, diverso daquele que nos apontavam.
Fincamos na placa oposta o nosso certo, porque éramos, cada um no seu respectivo quintal, dois visionários olhando o mundo e buscando nele nossa semelhança.
Colombos a milhas do sonho, a milhas do certo destino, caímos em desatino pelo chão de terra que dava num asfalto e virava megalópole com luzes mercuriais ao fundo. Anúncios luminosos atravessaram o céu de nosso sonho e sei que desde pequeninos guardávamos cada um a nossa gorda esperança no corpo magro.
Meu homem dorme ao meu lado hoje como dormiu antes dentro da minha goiaba preferida, dentro da fruta da minha vida, ele hoje me namora como fazia dentro de minha amora. Sem demora, lateja firme ao me possuir e é outra vez o velho caroço do abacateiro, consistente eixo de sua polpa. Meu homem me inquieta formigueiro e me fascina tanajureiro me incitando eu formiga trabalhadeira a voar.
Meu homem já morava lá, escondido, liso dentro do cabelo da minha boneca chamada Bonita, e dentro do tronco das árvores que era a imagem na qual eu me lambuzava quando meu pai dizia a palavra caráter. Sempre associei essa nobre palavra a um tronco de árvore genipapal, abacateiral, goiabeiral.
Alguma coisa nova move o olhar dele e suas sombrancelhas. Alguma coisa que me faz reconhecê-lo no meu desejo desde antes da minha avó vir do Egito pra me incluir na história. Pra me fazer Brasil.
Alguma coisa move suas mãos, familiar e sutil no modo, de modo que eu me encaixo no meu homem miúda, a ponto de me esticar no mesmo manequim de menina e mulher sem alterar o centímetro deste sentimento.
Houve um Deus que acreditei, houve um Deus que me desiludiu, houve um Deus que neguei, houve um Deus que achei, houve ainda outro que criei, houve outros que por fim me encontraram. Em todas essas dinastias de Deuses, sempre houve esse homem que hoje dorme amado ao meu lado. Sei pouco das coisas. Há mais coisas que entendo do que coisas que sei; mas viver é só o doce trabalho de reconhece-las. Hoje, respaldada pela fartura de Deuses que não condenam minhas besteiras, posso ser em paz. Posso inclusive compreende-las.
Um caminhão de certezas ressona hoje ao meu lado. Vive comigo todos os bocados no infinito infinitivo de cada dia. Não adia, não escamoteia, não teme, não foge. Tem medos comigo e venho com ele construindo as coragens.
Meu homem não é o ponto final do destino. Meu homem é o amor à passagem, por isso a viagem.
Há muito tempo, cada um vindo de seu escalar, olhamos o mundo do mesmo lugar. Meu homem é de mim, sua mulher, e somos os dois de cada um. A soma dos dois dá mais. É o clamor, o ardor, o sabor, a aragem. Por isso esse gozo. Essa paisagem.