Quero ser teu amigo

Agosto 16, 2011

Texto:  Fernando Pessoa

Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias…

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Ser real quer dizer não estar dentro de mim

Abril 1, 2011

Texto: Alberto Caeiro (Heterônimo de Fernando Pessoa)

Seja o que for que esteja no centro do Mundo,
Deu-me o
mundo exterior por exemplo de Realidade,
E quando digo “isto é real”, mesmo
de um sentimento,
Vejo-o sem querer em um espaço qualquer exterior,

Vejo-o com uma visão qualquer fora e alheio a mim.

Ser real quer
dizer não estar dentro de mim.
Da minha pessoa de dentro não tenho noção de
realidade.
Sei que o mundo existe, mas não sei se existo.
Estou mais
certo da existência da minha casa branca
Do que da existência interior do
dono da casa branca.
Creio mais no meu corpo do que na minha alma,

Porque o meu corpo apresenta-se no meio da realidade.
Podendo ser visto
por outros,
Podendo tocar em outros,
Podendo sentar-se e estar de pé,

Mas a minha alma só pode ser definida por termos de fora.
Existe para
mim — nos momentos em que julgo que efetivamente

existe —

Por um empréstimo da
realidade exterior do Mundo

Se a alma é mais real
Que o mundo
exterior como tu, filósofos, dizes,
Para que é que o mundo exterior me foi
dado como tipo da realidade”

Se é mais certo eu sentir
Do que
existir a cousa que sinto —
Para que sinto
E para que surge essa cousa
independentemente de mim
Sem precisar de mim para existir,
E eu sempre
ligado a mim-próprio, sempre pessoal e intransmissível?
Para que me movo com
os outros
Em um mundo em que nos entendemos e onde coincidimos
Se por
acaso esse mundo é o erro e eu é que estou certo?
Se o Mundo é um erro, é um
erro de toda a gente.
E cada um de nós é o erro de cada um de nós apenas.

Cousa por cousa, o Mundo é mais certo.

Mas por que me interrogo,
senão porque estou doente?
Nos dias certos; nos dias exteriores da minha
vida,
Nos meus dias de perfeita lucidez natural,
Sinto sem sentir que
sinto,
Vejo sem saber que vejo,
E nunca o Universo é tão real como
então,
Nunca o Universo está (não é perto ou longe de mim.
Mas) tão
sublimemente não-meu.

Quando digo “é evidente”, quero acaso dizer “só eu
é que o vejo”?
Quando digo “é verdade”, quero acaso dizer “é minha opinião”?

Quando digo “ali está”, quero acaso dizer “não está ali”?
E se isto é
assim na vida, por que será diferente na filosofia?
Vivemos antes de
filosofar, existimos antes de o sabermos,
E o primeiro fato merece ao menos
a precedência e o culto.

Sim, antes de sermos interior somos exterior.

Por isso somos exterior essencialmente.

Dizes, filósofo doente,
filósofo enfim, que isto é materialismo.
Mas isto como pode ser materialismo, se materialismo é uma ilosofia,
Se uma filosofia seria, pelo
menos sendo minha, uma filosofia minha,
E isto nem sequer é meu, nem sequer
sou eu?


Tenho tanto sentimento

Dezembro 11, 2010

Texto:  Fernando Pessoa

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.


É fácil…

Dezembro 3, 2010

Texto: Fernando Pessoa

É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.


Não sei quantas almas tenho

Setembro 25, 2010

Texto: Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.


Poema do amigo aprendiz

Setembro 18, 2010

Texto:  Fernando Pessoa


Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias…


Dois lados

Setembro 4, 2010

Texto: Fernando Pessoa

Onde você vê um obstáculo,
alguém vê o término da viagem
e o outro vê uma chance de crescer.
Onde você vê um motivo pra se irritar,
Alguém vê a tragédia total
E o outro vê uma prova para sua paciência.
Onde você vê a morte,
Alguém vê o fim
E o outro vê o começo de uma nova etapa…
Onde você vê a fortuna,
Alguém vê a riqueza material
E o outro pode encontrar por trás de tudo, a dor e a miséria total.
Onde você vê a teimosia,
Alguém vê a ignorância,
Um outro compreende as limitações do companheiro,
percebendo que cada qual caminha em seu próprio passo.
E que é inútil querer apressar o passo do outro,
a não ser que ele deseje isso.
Cada qual vê o que quer, pode ou consegue enxergar.
“Porque eu sou do tamanho do que vejo.
E não do tamanho da minha altura.”